:: O Latido lá no meu apê

Há quatro anos em Brasília, ainda não me sinto suficientemente à vontade para comentar os tipos da cidade. Da minha terra, o Rio, chamam minha atenção os loucos e os decadentes. De Natal, onde morei por 15 anos, os vagabundos e artistas de rua. Em Brasília... tem os paranóicos que conheci no Senado, mas ainda não é tempo de falar sobre eles. E tem aqueles que vieram atrás de uma vida melhor e fazem uma Brasília que não passa na telinha, aqueles que de toda plataforma (da rodoviária) não vêem a torre (de TV).
A figura da qual vou falar, nasceu e mora aqui, apesar de ter passado boa parte dos seus dezoito anos fora do Brasil. Não o conheci nas ruas. Conheci por aqui mesmo, na Internet. E provavelmente você também o conhece. Foi o único brasiliense que vi ser reconhecido na rua. Aliás, no elevador. “Você não é aquele cara do clip?” Ele mesmo, o Latido.
Luiz Gustavo ficou conhecido como o Latido do clip produzido pela VaiVc – uma turma de amigos do Guará, cidade satélite de Brasília –, que ridiculariza o por si só ridículo Latino.
Festa no apê, mais um dos hits pegajosos de Latino, ganhou clip pelas mãos da molecada do Guará. Luiz Gustavo estava em férias no Piauí, no verão passado, quando foi avisado que o vídeo começava a fazer sucesso na Internet. E põe sucesso nisso.
Ridicularizar o que já é ridículo é um passo para fazer uma piada dar certo. Latino e Severino Cavalcanti que o digam. O vídeo da VaiVc tem ainda a seu favor o fato de que não é uma paródia porque a versão gravada por Latino nunca teve clip. Originalíssimo, portanto. E o Latido encarnado por Luiz Gustavo é o que há! O tipo físico, o time certo para comédia (apesar de parecer um tanto tímido, ele é ainda mais engraçado pessoalmente) e uma desmedida cara-de-pau deram ao personagem seus momentos de glória na rede. Não há quem não queira imitar seu jeito de dançar. Nem Ruth Lemos e seu "sanduíche-íche-íche" fazem rir tanto.
Depois rolaram ainda o Latido Gay e vários outros vídeos da VaiVc com maior ou menor participação de Luiz Gustavo. Mas preste atenção nos de “menor participação”. É justamente quando ele aparece que você ri mais.
Luiz poderia ser só um adolescente desengonçado e engraçado, mas não. Ele é talentoso, tenho que admitir. E pela criação que teve ainda vai fazer muita graça, mas com os pés no chão. Pelos poucos minutos com Seu Jorge (o pai de Luiz, não o cantor), garanto que o menino deu sorte em ter nascido naquela família.
Então você já sabe: quando aquele moleque franzino aparecer, prepare-se porque o riso vem junto com ele. E Luiz, vê se não inventa de fazer algum concurso e virar burocrata. Vá ser gauche na vida e seja feliz!
Escrito por Sandro Fortunato às 19h47
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:: Não se fazem mais deusas

Há algum tempo, o Instituto Kinsey divulgou uma pesquisa informando que as mulheres de hoje fazem sexo, em média, duas vezes por semana enquanto as dos anos 1950 faziam o dobro disso. O trabalho, a TV e outros hábitos foram imputados como culpados pela diminuição do hábito. Eu tenho outra teoria.
O Instituto Fortunato diz que nos anos 1950 havia uma fábrica de deusas e que, naqueles idos, tanto homens quanto mulheres tinham muito mais motivos para se entregar aos prazeres carnais.
Desde que vi uma imagem de Marilyn Monroe em um vestido de estopa, fiquei me perguntando desde quando não se fabricam mais mulheres daquele tipo. Dia desses, uma chamada na primeira página de um jornal de Goiás sobre uma matéria que apontava as mulheres mais lindas do século XX fez com que eu tivesse ainda mais certeza sobre minhas teorias.
A matéria não fazia surpresa. Dos 21 nomes apontados, os onze primeiros eram de musas do cinema. Destes, cinco dos anos 1950. Resolvi fazer minha lista. Pensei que dez ou doze nomes seriam suficientes para mostrar que não se fazem mais mulheres como naqueles tempos. Comecei pelo início do século e quando fui chegando a meados dos anos 40 os exemplares já iam em quase dez. A lista acabou ficando em trinta nomes e enquanto escrevo ainda lembro de outros.
Minhas dúvidas são simples: quando e por que fecharam a fábrica de deusas?
Ninguém duvida que o padrão anoréxico dos dias atuais não passará à História. Até porque não haverá muito que lembrar. Mas não estou falando apenas de dotes físicos. Falo de glamour, de olhares sedutores, de fantasia, de uma linhagem da qual se perdeu a fórmula.
Até os anos 1960, a década seguinte talvez, ia-se ao cinema para sonhar. Era um ato sagrado. Hoje é algo banal. Pudera, não há mais deusas para se adorar.
Escrito por Sandro Fortunato às 04h16
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:: Sem sentido e sem noção

Fazer foi assim tu que cinema vai real gemer computa cai tudo novo de fui casou morreu... que foi? Não está entendendo? Nem você, nem 75% dos brasileiros que, teoricamente alfabetizados, tentem ler um texto que faça algum sentido.
A conclusão é do 5º INAF (Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional), divulgado na última quinta-feira, 8 de setembro, em referência ao Dia Internacional da Alfabetização.
Eu – faz tempo – sei que jamais vou ler tudo que gostaria. Mesmo que me dedicasse exclusivamente a isso, seria impossível. Sempre haverá algo a ser lido. Há muitos livros virgens em minhas estantes e meu consolo é que eles estão logo ali para quando, a qualquer momento, bater aquela vontade incontrolável de deflorá-los. É coisa de tarado, confesso.
Comecei a ler aos três anos de idade, continuei a fazê-lo nesses 30 seguintes e me considero um analfabeto. Acho uma piada quando preencho algum tipo de questionário em que é perguntado “quantos livros você lê por ano?” e a “melhor opção” é “5 ou mais”. A pergunta não seria “quantos livros você lê por mês?” Acho que o ideal seria um por dia. Espero chegar a isso quando não precisar mais trabalhar e meus filhos estiverem criados. E, tenho certeza, continuarei me achando um analfabeto.
Agora imagine quem não lê nada, quem não foi educado para isso. A falta de leitura é um problema educacional. Dentre os que lêem, há os que gostam mais, os que gostam menos, os compulsivos... Mas todos têm algo em comum: aprenderam a ler. Quando digo “aprenderam a ler”, não estou falando em juntar palavras, mas em ler e entender. Isso não tem nada a ver com capacidade intelectual. É mero exercício.
Nos anos 1970 e ainda no início dos 1980, nas aulas de Português, tínhamos algo chamado “Interpretação de texto”. E havia redação e ditado. Sempre.
Quando se aprende a ler (de verdade), aprende-se qualquer coisa. Quando não se aprende, não há título ou diploma que conceda conhecimento. Daí tantos mestres e doutores analfabetos.
A língua é mãe e lambe, lambilonga, lambilenta, e, quanto mais lambente, mais ativa. Morre-se só de olhar para ela, imagine então se. Visse e tocasse o acerbo fruto seu e c`um alto exórdio, de alta graça ornado, cantaria Drummond, Trevisan e Camões como se fosse essa Leseira de Sandro.
A rua pauta a tua paúra. O romano acata amores a damas amadas e roma ataca o namoro. Laço bacana para panaca boçal. Sem exercício, as frases ficam assim: indo e vindo sem ir a lugar algum. Nem dando o endereço certo ao amigo se chega onde: Zé de Lima, rua Laura mil e dez.
Ou pior. Cai fuma coisa cuíca doida nada fica volta rege sapato apito e devoto. Entendeu? Nem eu. Vou abrir um livro e ler um muito...
Escrito por Sandro Fortunato às 01h04
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:: Revistas e mais revistas
:: Preá e Verbo
Cumprindo fielmente meu papel de divulgador da cultura nordestina, mais uma vez anuncio que a Preá – desta vez a de número 12 – chegou a minhas mãos. A revista é feita em Natal, Rio Grande do Norte. Quem quiser baixar esta ou qualquer outra edição, em PDF, pode fazê-lo a partir do seguinte endereço: http://www.fja.rn.gov.br/pg_revistaprea.asp
A primeira edição da Verbo ainda está quentinha, mas a segunda já está sendo preparada. Revista de cultura e variedades editada em Cascavel, no Paraná, aborda temas variados como cinema, teatro, comunicação, educação e política. Além disso, tem a colaboração deste que vos bloga. Ainda não tem site, mas vocês podem tentar conseguir um exemplar pentelhando o povo do Departamento de Marketing da FAG, a patrocinadora, pelo e-mail marketing@fag.edu.br . Elogiem e metam a faca.
:: Set de setembro
Um resumão de todo aquele meu blá-blá-blá sobre o Festival Internacional de Cinema de Brasília que você leu – ou não! – aqui está na edição de setembro da revista Set. Tem ainda uma matéria sobre o lançamento – finalmente! – do DVD de Lavoura arcaica (meu mais amado filme brasileiro) e outra sobre Nicole Kidman na versão para cinema de A Feiticeira. Corra para a banca da esquina!
:: Nossas revistas de História
O pau entre a Biblioteca Nacional e a Editora Vera Cruz continua esquentando. Em julho, os leitores foram surpreendidos com a Revista de História e muitos acharam que a Nossa História havia mudado de nome, até que a edição desta também chegou às bancas. Longe dos problemas, quem se deu bem com isso foram os interessados em História, que agora têm duas ótimas revistas. Nas bancas, as edições de número 2 da Revista e a 23 da Nossa. Melhor que isso, só quando o Memória Viva se transformar em revista!
Escrito por Sandro Fortunato às 18h18
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:: Volta logo, Felicidade!

Katrina arrasou a melhor cidade de todos os Estados Unidos. Pelo menos a única que me interesso em conhecer.
Vejo a tristeza nos olhos dos negros na tevê e aquilo me deixa blue, a little boy blue.
Enquanto, em um ginásio, mães se desesperam e suas crianças nem entendem o que está acontecendo, os instintos mais baixos tomam conta de outras criaturas que saqueiam o que restou da cidade.
Ouço os bebês chorando, mas os vejo crescer. Eles irão aprender muito mais do que jamais vou conhecer. Eu vejo árvores verdes e rosas vermelhas também. Eu as vejo florescer, para mim, você e todos os meus irmãos negros. Eu vejo céus azuis e nuvens brancas. O dia, brilhante e abençoado, e a noite escura e sagrada. As cores do arco-íris, tão belas lá no céu, aparecendo depois de toda essa tristeza.
Que as bênçãos de Satchmo recaiam sobre seu berço e transformem novamente a triste cidade em um mundo maravilhoso, em uma New New Orleans.
Escrito por Sandro Fortunato às 02h16
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