:: Santa Inocência, Batman!
Já fui ladrão, maconheiro, cocainômano, viciado em heroína, traficante, homossexual, bissexual, evangélico e mais um monte de coisas que não lembro ou mesmo não sei.
Toda essa adjetivação foi dada por meus mais fiéis e ferrenhos admiradores. Eles também acumulam a função de meus marqueteiros. Conseguem me divulgar como ninguém. Um marketing indesejável, seja dito, ainda mais para quem não comunga do “falem mal, mas falem de mim”, o que é o meu caso.
Digo que isso é feito por admiradores porque não acredito que alguém se dê ao trabalho de ficar falando e inventando histórias sobre outrem de que não goste.
Em minha adolescência, imprudente como todos nesse período, quando alguém me imputava um atributo irreal, me esforçava em fazer a pessoa acreditar naquilo que dizia. Pensava que assim ela se manteria afastada do que eu realmente era. Não estava errado, mas desconhecia as conseqüências disso. Como se diz por aí, “as pessoas só querem um pé” e se você dá corda, pode ter certeza, elas engolem.
Nunca me preocupei em desmentir qualquer coisa. A não ser que uma pessoa que eu goste esteja acreditando em alguma informação falsa. Isso sim me incomoda profundamente.
Se algo que dizem é mentira, quem está dizendo que tente provar que não é. Se é verdade, eu não vou esconder e nem mentir a respeito. Mentir dá um trabalho danado. O próprio Lula andou dizendo que “a desgraça de quem conta uma mentira é que passa a vida inteira inventando outras mentiras para justificar a primeira”. Não sei se ele sabe que está citando Jonathan Swift, só sei que está falando uma grande verdade.
Outra declaração notável foi a de que o ministro Palocci demonstrou “a segurança de uma pessoa inocente”. Independente de sua aplicabilidade no caso, a sentença é verdadeira. Só um inocente fala com segurança. O mentiroso inventa, se contradiz, gagueja, comete atos falhos.
A atual onda de denuncismo que vivemos me fez pensar nas vezes em que fui vidraça. Procurei entre aqueles que jogaram pedras alguém que fosse digno de confiança, que fosse imaculado, que fosse santo. A frase oportuna do deputado federal João Hermann (PDT-SP) desqualificando o depoimento de Buratti, que tentou incriminar Palocci reflete bem minhas conclusões: “Depois do Roberto Jefferson, do doleiro Toninho da Barcelona e do Buratti, a próxima pessoa a ser consultada será o Fernandinho Beira-Mar”. Isso me lembra uma cena de uma comédia em que há uma paródia da passagem bíblica da mulher adúltera. Jesus diz: “Aquele que dentre vós está sem pecado, atire a primeira pedra”. Nisso uma pedra atinge a cabeça da mulher. Jesus olha espantando para as pessoas e diz: “A Senhora não vale, Mãe!”
Eu não achei uma Maria, Santa, dentre aqueles que me jogaram pedras.
Contando e analisando as pedras aos meus pés, percebi que só mesmo sendo muito inocente – aqui no sentido de não ter segundas intenções – para entrar em certas barcas furadas. A maldade humana já é suficientemente grande. Não preciso alimentar maledicências e afiar línguas maldosas. Vou ficando cada vez mais quieto, mais tempo dentro da caverna e assistindo ao grotesco desfile dos homens e suas convicções. Estas, inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras.
Escrito por Sandro Fortunato às 02h39
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:: Quatro anos em Brasília
Numa noite fria de sexta-feira, há quatro anos, eu chegava à Brasília. Vinha para ficar, afinal trazia algumas roupas e, pagando mais de dez quilos de excesso de bagagem, o computador. Eu moro onde ele mora. Tinha dinheiro para pouco mais de um mês e nenhuma perspectiva de emprego. Achava que se tivesse mais tempo – leia-se “mais dinheiro”- passaria alguns meses em férias, conhecendo a cidade, aproximando-me das coisas de que gostava.
Na terça seguinte, enquanto participava de um encontro da Macromedia, recebi um telefonema. Havia uma vaga terceirizada para contratação imediata na Secretaria de Comunicação Social do Senado Federal. Não era grande coisa, mas era um emprego. Na quarta, já estava no vigésimo andar do Anexo I, a torre que se vê ao lado da cúpula do Senado (a menor, que fica emborcada).
Nos quase dois anos que passei lá, juntei muitas histórias. Algumas merecem ser esquecidas, mas até dessas tirei lições. Aliás, as maiores.
Depois de mais de um ano no Senado, já um andar acima, na Subsecretaria de Projetos Especiais, eu costumava usar um camisa do Arquivo X, comprada aqui mesmo em Brasília alguns anos antes, e dizia que ela ajudava a manter minha sanidade. Toda preta, tinha escrito nas costas o lema do seriado: The truth is out there (A verdade está lá fora). Isso me fazia lembrar que aquilo ali era um outro mundo, pequeno e com valores invertidos, no qual eu não acreditava.
Naquela época, encontrei Sérgio de Moraes, um amigo de Bragança Paulista. Sempre o achei muito equilibrado, dedicado à família, bom profissional, alguém que “está no caminho”. Sérgio me perguntou se eu estava trabalhando em algum jornal ou revista. Respondi que não, que estava cansado de redações e queria me manter afastado daquele tipo de ambiente. Quando disse onde estava trabalhando, ele retrucou: “Quando você pensava que não existia nada pior que uma redação, vem a vida e mostra que pode existir algo bem pior”. Ri da tirada, mas ainda não sabia o quanto era verdadeira.
Em 2003, fui finalista do prêmio iBest pela primeira vez. Fui a São Paulo participar da cerimônia de premiação e, na volta, “consegui ficar doente” durante a pouco mais de uma hora de duração do vôo. Cheguei à Brasília com febre alta, calafrios, dor em todo corpo. Jurava ter pegado aquela famosa gripe asiática durante a visita à exposição dos Guerreiros da China. Só poderia ser isso.
Passei quatro dias de cama. Não comia, não tomava banho, dormia quase o tempo todo. Comecei a melhorar quando percebi que não queria mais voltar a trabalhar no Senado. Aquilo não tinha nada a ver comigo. As pesquisas sobre cultura brasileira e o reconhecimento que o site Memória Viva começava a ter, isso sim, tinha tudo a ver comigo. Em poucos dias, começava em outro emprego e deixava o Senado.
Lá se vão quatro anos de Brasília, três finais do iBest, o “amor encontrado na rua” e um terceiro filho, o único homem, que agora fica me secretariando em meu novo escritório – um carro parado em algum estacionamento da UnB –, enquanto esperamos a mamãe voltar da aula. Você tem idéia do que seja tentar escrever em um notebook, sentado no banco de trás de um carro, enquanto um bebê bochechudo e lindo de três meses fica exigindo sua atenção? E a vontade de morder aquelas bochechas? E de apertar aquelas pernas?
Quatro anos e a profecia que eu havia feito em minha primeira passagem por Brasília, em 1990, vem se cumprindo. Disse naquele tempo: “Eu poderia morar aqui por uns seis anos”. Daqui a mais dois anos, mamãe acaba seu curso e nós – Pietro e eu – mudamos de escritório. Então chegará a hora de levantar acampamento. Para onde? Quando souber, eu conto.
Escrito por Sandro Fortunato às 01h51
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