:: Carai, véi!
Já posso me considerar um poliglota. Nada de palavras perdidas, frases de efeito ou Curso de Idiomas Globo. Estou falando de conhecer profundamente outro idioma, sua gramática, seus mistérios. E isso tendo estudado em uma instituição reconhecidamente competente e com um histórico exemplar no meio acadêmico.
O curso – intensivo, confesso – se deu durante a manhã de segunda-feira passada na Universidade de Brasília. De início, tudo soou estranho ao meu ouvido, mas logo fui me acostumando. Todos os alunos da UnB que me auxiliaram no aprendizado desse novo idioma são profundos conhecedores, verdadeiros mestres, doutores filólogos em Caraiveiês.
O primeiro contato com o idioma pode causar alguma estranheza. Mas isso se deve unicamente à ignorância que se tem em relação ao maravilhoso mundo do Caraiveiês. Eu só escutava “Carai, véi! Carai, véi! Carai, véi! Carai, véi!”. Parecia tudo igual, que aqueles adolescentes só sabiam falar isso. Pobre néscio. Meia hora depois de “Carai, véi! Carai, véi! Carai, véi!” no pé da orelha, comecei a perceber a sutileza do vernáculo, abri as portas da percepção e fez-se luz em minha estupidez.
Perceba a beleza do Caraiveiês castiço utilizado pelos jovens acadêmicos. Delicie-se com o seguinte diálogo:
- Carai, véi! - Carai, véi! Carai!! - Caraaaaaai, véi! Carai! - Não! Carai, véi! Véi?! Carai!!! - Caraaaaaaai, caraaaaaaaai, véi! Carai! - Carai, véi! Carai, véi!
Apreciou? Conseguiu captar a sutileza da pronúncia? Aí reside o grande segredo do Caraiveiês! A chave para o conhecimento dessa ferramenta indispensável no mundo moderno. Inglês é o carai, véi! Francês? Carai, véi! Espanhol? Véi, carai!
O Caraiveiês tem apenas três vocábulos: “carai”, “véi” e “não”. Este último é igualzinho ao nosso advérbio de negação em Português, mas tem sentido contrário. Em Caraveiês, “não” é uma forma de afirmar com veemência alguma coisa e, ao mesmo tempo, é o superlativo da expressão “carai, véi”. A propósito, temos que tomar cuidado com os falsos cognatos entre Caraiveiês e Português. Muita gente ao escutar, por exemplo, uma expressão como “carai, véi” ou “caraaaaai, véi” pode querer traduzi-la por “caralho velho”. Ledo engano. “Caralho velho” é problema geriátrico e Caraiveiês é língua viva, viril e vibrante.
Fico imaginando onde irá parar nosso pobre Português diante da força de tão moderno idioma. Perguntei a uns dos poliglotas da UnB e ele foi enfático: “Carai, véi!” Indaguei a outro e, percebendo em mim um neófito nessa arte, respondeu nos dois idiomas: “Carai, véi! Sei não.” Eu também não sei.
Escrito por Sandro Fortunato às 11h23
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:: Vô Moacyr - 85 anos
Meu avô sempre teve cara de avô. Se você tem ou teve um, vai entender o que quero dizer. Convivi com ele, na mesma casa, até quase completar 14 anos de idade.
Filho de uma portuguesa com um brasileiro, Seu Moacyr Ignácio Alves casou com uma filha de italianos e sabiamente resolveu ficar quieto diante da brabeza daquela mulher de menos de metro e meio. Só lá para meados da década de 1970, quando um câncer a consumia, ele se aventurou no mundo. Em um mundo de faz-de-conta. Foi ator de fotonovelas, fez comerciais, telenovelas, séries cômicas, filmes... Quase tudo com aquela discrição que só alguém de um elenco de apoio sabe ter. Naquela época, eram mais conhecidos como figurantes.
Meu avô era uma espécie de Bozó. Não era feio, nem bobo, mas trabalhava na Globo. Passei toda a infância, parte da adolescência, já em Natal, e da vida adulta escutando minha mãe gritar: “Seu Moacyr tá passando!” Todo mundo corria para frente da TV e quase nunca o via. Já tinha passado. “Olha lá! De novo!” E lá ia o vovô como garçom no Zorra Total ou de padre, levando uma garrafada na cabeça, no Linha Direta. Uma graça!
Em um filme dos Trapalhões chegou a falar! Nem lembro o quê! A emoção foi tanta que não consegui registrar. Vez por outra passa na Sessão da tarde. Ou em algum outro papel nas novelas do Vale a pena ver de novo.
Seu Moacyr faz 85 anos hoje. Fui seu primeiro neto e lhe dei três bisnetos que ele ainda não conhece. Vô Moacyr nunca saiu do Rio de Janeiro. E, espero que isso mude, finalmente, ainda este mês. Ele vai para Natal e conhecerá os bisnetos.
Hoje, ao telefone, falando sobre a mudança, ele me perguntou: “Sabe há quanto tempo eu moro aqui?”. E eu: “Claro! São 85 anos de Rio de Janeiro. Agora está na hora de mudar e passar os próximos 85 em um lugar mais calmo como Natal”. Perguntou onde eu estava e como tinha lembrado do dia de hoje. Eu nunca esqueci. Posso esquecer o aniversário de qualquer pessoa, menos o dele.
Daqui a 15 anos, quero estar falando de seu centenário e fazendo uma foto com seus bisnetos e trinetos. Parabéns, Vô Moacyr! Se eu tiver herdado esses genes bons de longevidade e saúde, prometo fazê-los valer a pena!
Escrito por Sandro Fortunato às 01h58
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:: Una película menos peor
Terminado o VII FIC Brasília, encerro também meus comentários e impressões sobre o evento e tudo que vi nele. Assisti 28 filmes. Dois a menos do que programei e uns 25 menos do que gostaria.
Na sexta, assisti Checkpoint, o documentário mais chato que já vi em toda vida. Até Globo Repórter consegue ser melhor. A exibição começou com 9 pessoas na platéia e terminou com 6 que, como eu, tenho certeza, são daquelas que pagam para ver se vai mesmo ser daquele jeito até o final. O filme mostra palestinos que, ao viajarem de uma cidade a outra, para trabalhar, visitar parentes ou para receber tratamento médico, precisam passar por postos de controle israelenses. A idéia parece interessante, mas não houve qualquer preocupação além de mostrar uma seqüência de discussões, desentendimentos e demonstrações de intolerância entre os cidadãos palestinos e os soldados israelenses. Não há música, não há narração, não há qualquer coisa que ligue os fatos. Isso tudo certamente foi feito – ou deixado de fazer – com a intenção de acentuar a brutalidade da convivência forçada entre o povo e os militares, mas depois de 15 ou 20 minutos começa a ficar bem cansativo.
Depois foi a vez do argentino Un mundo menos peor. Preciso rever meus conceitos sobre cinema argentino, que eu gostava tanto até esse FIC. Un mundo… conta uma história interessante, mas a música é muito, muito, muito dramática. Cada vez que a música subia, eu tinha impressão de estar assistindo uma novela mexicana. A sessão estava lotada e a garota ao meu lado fungava e chorava como eu não via desde Titanic. Pior: Un mundo menos peor levou o prêmio de melhor filme.
Eu deveria ter terminado o penúltimo dia do evento assistindo o documentário Por dentro do Garganta profunda, certamente o filme mais esperado do Festival. Pelo terceiro dia consecutivo, precisei adiar minha presença a uma sessão de Por dentro…, dessa vez porque a assessoria de imprensa do FIC havia marcado uma entrevista exclusiva com o diretor Nelson Pereira dos Santos. Se começasse na hora certa, talvez ainda desse tempo de ver o filme. Após meia hora de espera, quando a sessão já havia começado e eu resolvido voltar para casa, encontrei Nelson. Ele havia esquecido da entrevista. Ainda conversamos por alguns minutos, mas o adiantar da hora e o compromisso com seu estômago falaram mais alto. Deixamos para tentar continuar no dia seguinte após um almoço para imprensa e produção, mas então seria a minha vez de não comparecer. Ir ao FIC no sábado estava fora dos meus planos desde antes do Festival começar.
Se com o brasileiro (tinha que ser!) furou, a entrevista com o coreano Park Chul Soo foi uma agradável surpresa. Com a ajuda da tradutora Jung Kim, conversamos por 40 minutos. Park é simpático e simples a ponto de me entregar um cartão pessoal pedindo que enviasse as fotos que fiz dele. Eu apostava em seu filme, Green chair, como um dos favoritos para ganhar a Mostra competitiva. Se não ele, seria Palindromes, de Todd Solondz, que acabou levando um prêmio especial. Isso me cheirou à mea culpa pela falta de coragem em premiar Palindromes como melhor filme e Todd como melhor diretor. Apesar de americano, seu trabalho é a antítese do cinema feito nos Estados Unidos. Fiquei fã. Há vida inteligente em Bushland.
Não indo sábado, teria apenas mais uma chance de assistir Por dentro do Garganta profunda, no domingo, último dia do festival. O horário batia com os dois filmes que havia programado para aquele dia: Terra da fartura, de Win Wenders e o francês O muro. Assisti Por dentro…, claro. Gostei, mas esperava mais. Bem mais. Fanton Bailey, um dos diretores, teve sua presença anunciada nos primeiros dias do evento mas acabou não comparecendo. Eu tinha uma única pergunta para ele, mesmo antes de assistir o filme: Por dentro do Garganta Profunda teria sido feito se Linda Lovelace estivesse viva? Se ele respondesse afirmativamente, eu ainda perguntaria no que o filme teria sido diferente.
O documentário é centrado no sucesso do filme Garganta profunda e na onda moralista que o cercou. A história de que Linda Lovelace teria sido forçada a fazer o filme e sua história pós-Garganta toma cerca de 10 minutos, perto do final, e sem muita profundidade. De qualquer forma, o documentário é bem feito e teria mesmo que ser produzido um dia. Nem por isso concordo que tenha sido melhor que Enron. Se levou o prêmio de Melhor documentário foi pela “universalidade” do tema, ainda que ambos tratem dos hipócritas e frágeis ideais americanos.
Sophie Scholl – Os últimos dias levou Melhor direção e Escolha do público. Priscilla Rozenbaum levou o prêmio de Melhor atriz, por Carreiras. Merecido. Como disse antes, o filme é ela. Mas acho estranho comparar as atuações de Priscilla, Julia Jentsch (Sophie Scholl) e Suh Jung (Green chair). Prefiro admirá-las separadamente, sem comparações.
E depois de 28 filmes em 11 dias, que tal um cinema para relaxar? Prometo não comentar aqui. Sin City, aí vou eu!
Escrito por Sandro Fortunato às 21h14
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