:: La dolce vita

No obtuso mundinho pseudo-intelectual dos jornalistas, em raros momentos de modéstia e humildade, pode-se ouvir algo do tipo “tal coisa é uma das lacunas em minha educação”. Na verdade, quase sempre isso é dito quando a pessoa percebe que, no máximo, ouviu falar en passant – e bem longe! – o assunto colocado em pauta. Os mais incautos podem imaginar que essas criaturas leram tudo de todos os grandes escritores, viram todos os filmes de todos os grandes diretores, destrincharam as obras completas dos grande filósofos e fizeram teses incontestes de tudo isso em vários idiomas. Jornalistas são bons em exagerar, sobretudo quando falam de si mesmos.

Domingo passado corrigi uma das muitas falhas na minha educação: assisti La dolce vita. Sinto decepcioná-los, mas eu (ainda) não vi todos os filmes de Fellini. Nem todos os de Rosselini, nem os de Antonioni, por mais que eu deseje isso. Os dois primeiros já não representam tanto perigo e, como não farão mais filmes, me deixam mais esperançoso em conseguir vê-los, todos, até o fim dos meus dias. O último continua alquanto pericoloso.

O cartaz mais conhecido de La dolce vita (ao lado) é uma dessas imagens que entraram para o inconsciente coletivo. Parece ser de um filme que todo mundo viu mesmo sem ter visto. Como alguns versos de Drummond que todos repetem sem jamais ter lido o poema inteiro. Eu gostaria de falar sobre a beleza de Anita Ekberg e a antológica cena na Fontana di Trevi, mas serei obrigado a falar de seu parceiro, Marcello Mastroianni, ou melhor, de seu personagem, o jornalista Marcello Rubini.

Jornalista de um periódico de escândalos, Marcello espera tornar-se, um dia, um escritor sério. Nesse meio tempo, encontra-se completamente imerso na “dolce vita” romana, entre uma aventura sentimental com uma aristocrata sempre em busca de novas emoções (Anouk Aimée como Maddalena), a tentativa de suicídio de uma companheira que o sufoca com seu ciúme (Yvonne Furneaux como Emma) e um flerte sem maiores conseqüências com uma célebre diva do cinema (Anita Ekberg como Sylvia). Após o contato com a família de Steiner, um refinado intelectual, Marcello acreditar ter encontrado um tipo de vida ideal.

Contar mais que isso, seria estragar o filme para quem ainda não o viu.

Ignorante como só eu sei ser, demorei um pouco a entender que a história era de Marcello e que a personagem da sobrenatural Anita Ekberg não encheria a tela durante as quase três horas de fita.

Apesar de todas as diferenças, mantidas as dimensões de cada história, partilhei e me identifiquei profundamente com a trajetória de Marcello.

A busca da existência ideal, o encantamento com o que há de mais ilusório, o desconhecimento e a negação de sua história pregressa... eu me vi em cada momento de sua vida. E vi muitos conhecidos no mesmo caminho. Só não pretendo comungar com o final. As metáforas de Fellini podem até ser poéticas, mas com a conhecida delicatezza à italiana. Nem eu, sempre acompanhado de minha majestosa estupidez, seria capaz de deixar passar o recado do grande mentiroso a respeito dessa doce vida.

Se vi algum anjo e o deixei passar, espero ter outra oportunidade de ouvir sua voz. Entrementes, faz-se necessário que eu mantenha sobriedade plena para perceber que “tudo que eu não posso, nem quero, deixar que me abandone” nem sempre é tão indispensável.



Escrito por Sandro Fortunato às 06h48
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:: Vizinho bom é vizinho inexistente

Parece que consegui expulsar meus vizinhos. Juro que não houve mandinga ou reza forte. Só sei que os dois apartamentos do andar de cima foram desocupados com poucas semanas de diferença.

De longe, pareciam gente normal. Em um dos apartamentos, um jovem casal e, no outro, uma mulher separada com o filho pré-aborrecente. De perto, todos sabem, ninguém é normal. Todos achavam normal a porta de entrada do prédio estar arrombada há mais de quatro anos. Eu ajeitei logo que mudei, mas eles pediram que a porta ficasse aberta durante o dia. Agora posso exercer minha anormal mania de manter a porta da rua fechada para ladrões e outros estranhos.

Coincidentemente, um outro vizinho que costumava socializar seu gosto musical parece ter perdido tal hábito. Everytime you go away, (Everything I do) I Do It For You, My heart will go on, Total eclipse of the heart e outras pérolas, toda noite, em seqüência e compartilhada com toda a vizinhança. Nada contra a boiolagem alheia, desde que meus ouvidos sejam poupados da suruba.

Tardiamente cheguei à conclusão de que vivemos em um país de gente mal educada. Ninguém pensa no próximo e em seus direitos. Morei no Rio, em Natal e Brasília. Pensei que fosse azar recorrente, problemas de correspondência entre área e nível social… Nada disso. É má educação generalizada. Vivemos num país de botocudos.

Creio que ainda por alguns anos moraremos em cidades agitadas, desarmonizadas, repletas de selvagens. Mas há algum tempo venho flertando com o chamado movimento Cittaslow ou Slow Cities. Fico me imaginando em lugares como Penedo, em Alagoas, ou Antônio Prado, no Rio Grande do Sul. Cidades que parecem ter estacionado no tempo. Onde as pessoas se cumprimentam, sorriem, não têm pressa, se respeitam. Esse tipo de coisa também perdida no tempo.

Até lá, devo continuar levando esta vida de notívago, dormindo com protetores de ouvidos pela manhã, me refugiando parte do dia em algum escritório e não dispensando headphones e boa música ao trabalhar em casa.



Escrito por Sandro Fortunato às 22h35
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:: Ainda as tradições juninas: os balões

Nos céus de junho não existem mais balões. Infelizmente e ainda bem. Infelizmente porque eram um espetáculo. Ainda bem porque causavam grandes tragédias.

Lembro de meu avô Moacyr chegando com finos papéis coloridos que dariam forma aos balões que iríamos construir. As dobras e os cortes criavam os ângulos certos que seriam unidos pela goma feita em casa. A parte final, da armação de arame e a bucha, não contava com minha ajuda.

Com a noite, chegava também o momento da festa. A cera começava a pingar e o balão se iluminava. Aos poucos ia enchendo. Balançava e queria ganhar os céus, mas só seria liberado no momento certo, quando tivesse forças suficientes para subir, subir, subir…

Olhando para o alto, íamos acompanhando o balão pela rua até que as formas criadas por nós fossem se transformando em um ponto de luz cada vez mais distante. Às vezes sumia na escuridão, outras por detrás de um prédio.

Meu avô fazia balões de porte médio, entre um e dois metros. Mas havia também os japoneses. Esses eram comprados na feira. Brancos e pequeninos, os japoneses eram uma espécie de “balão para crianças”. Podíamos segurá-los até que conseguisse subir.

Um balão subindo era sempre uma festa. Assim como um balão caindo era sempre uma dor de cabeça. Assim como as pipas, os balões atraíam um bando de jovens que, aos gritos, disputam sua posse. Não respeitavam limites de propriedade. Pulavam muros e portões para o desespero dos donos da casa escolhida pelo balão para seu pouso. Muitas vezes uma vara de bambu ou daquelas de segurar “cordas para secar roupas” davam cabo do balão e, como conseqüência, da festa da garotada que corria atrás dele.

Os balões pequenos e médios muitas vezes caíam já apagados. Mas havia balões gigantes, capazes de levar estandartes e sobrevoarem vários bairros por horas. Esses eram temidos. Não raro causavam incêndios em fábricas, galpões ou favelas. Lembro de ter visto muitos pela tevê.

Depois de anos de alertas e pedidos, os balões acabaram sendo proibidos. Hoje só voam em nossas lembranças ou como adereços junto a bandeirinhas nas festas juninas.



Escrito por Sandro Fortunato às 03h09
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:: De tradições juninas: as fogueiras

A herança cultural de um povo ou de uma geração é algo que não se pode contestar. A menos, claro, em casos que envolvam algum hábito brutal, bárbaro, que atente contra a integridade ou mesmo a vida de animais ou pessoas.

A foto da fogueira em uma rua do bairro de Igapó, em Natal, feita por Canindé Soares e colocada em seu flog provocou celeuma. Teve quem se posicionasse contra as fogueiras alegando motivos ecológicos, teve quem defendesse apaixonadamente a tradição, teve quem ironizasse a discussão.

Como muitos sabem, nasci e fui criado no Rio de Janeiro. No início da adolescência, me mudei para Natal, onde morei por 16 anos. Durante minha infância, participei de várias festas juninas. Aquelas festas urbanóides com quadrilhas ensaiadas no colégio ou com barraquinhas nas ruas do subúrbio. Nada comparado com o que acontece em qualquer cidade do Nordeste.

Sabe quando você vê aqueles desfiles de escolas de samba no Nordeste e acha estranho, pobre e pensa: “Desfile de escola de samba é só no Rio”. Apesar de hoje ser uma indústria milionária, tais desfiles vieram de uma tradição que se desenvolveu no Rio. Os corsos, os ranchos... Da mesma forma, festa junina é só no Nordeste. E não estou falando das grandes festas tocadas pelas secretarias de turismo e que aparecem na tevê. Falo das festas do interior, das festas na casa da vovó, da fogueira, do milho cozido, do munguzá, de tudo de bom que só tem por lá.

Não há nada de absurdo nas fogueiras. A não ser que se resolva jogar alguém nelas. E tão inquisitorial quanto isso é querer acabar com uma tradição que não é sua e que você entende.

Há os que alegam que as fogueiras enchem tudo de fumaça, deixam cabelos e roupas defumados, agridem os que têm problemas respiratórios, devastam nossas matas… Nenhum desses problemas é causado pelas fogueiras. São todos causados “pelas cidades”, pela desarmonia que provocamos com nossas construções “tão civilizadas”.

Cidade é lugar para selvagens. Para barulho de motores, vizinhos perturbando à noite, sons altos, poluição, stress, atropelamentos, batidas, brigas no trânsito, de “‘não tenho tempo para nada”. Não é lugar para tradições nem, consequentemente, de respeito a elas. Inofensivas fogueiras transformam-se em monstruosidades “causadoras” de poluição e doenças respiratórias.

Você já viu alguém numa pequena cidade reclamar dessas coisas? Se todas as famílias de uma pequena cidade no interior do Nordeste resolverem acender fogueiras ao mesmo tempo, ninguém vai reclamar que a cidade ficou “coberta de fumaça”. Não existem prédios nem poluição que impeçam a perfeita circulação do ar. Ninguém vai reclamar de doenças respiratórias porque a maioria delas é causada pela poluição e, nessas pequenas cidades, as pessoas desconhecem tanto a causa (a poluição) quanto a conseqüência (as doenças respiratórias). E nem em um século uma pequena cidade vai conseguir queimar tanta madeira (seca) quanto foi colocada abaixo, viva, para construir um único bairro do Rio de Janeiro, por exemplo.

Que as fogueiras continuem acesas e mantendo vivas nossas tradições. E não seria má idéia alimentá-las com chapeuzinhos de cowboy e outros lixos do aculturamento a que somos impostos e vamos engolindo como bons provincianos.



Escrito por Sandro Fortunato às 00h49
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