:: Quem é o palhaço?

Os ruralistas, os latifundiários, os senhores do agronegócio ou qualquer outro nome que você queira chamar, parecem ter ficado com inveja da marcha dos Sem Terra realizada em maio e resolveram fazer a sua própria manifestação. Tratoraço – O alerta do campo é o nome do evento (é a melhor denominação) que conseguiu transformar a Esplanada dos Ministérios em um grande estacionamento. São 2.500 tratores e 400 caminhões, segundo os organizadores.
No início da noite de terça, depois das manifestações em frente ao prédio do Congresso e de afogarem um boneco do Lula no espelho d’água, o circo se reuniu no início da Esplanada, mais próximo à rodoviária.
Circo em vários sentidos. Pela disposição circular, pela aglomeração de “populares”, por estarem sob várias lonas típicas de circo...
Iniciados os discursos, chega a vez do histriônico Meu nome é Enéas, deputado federal. Verborrágico como de costume, o Bin Laden do Acre desancou o presidente como pôde. Ácido e marrento, Enéas Carneiro disse que tratou bem o presidente quando se encontraram pela última vez “apesar de toda inépcia e incultura governamental” de Lula. Que todos sabem que este “não trabalha há mais de 30 anos” e que ao final do encontro Lula teria pedido que ele se despedisse com seu famoso bordão. “Que bobagem! Querer que eu falasse ‘Meu nome é Enéééééas’”. A assistência delira, urra, aplaude de pé. O quê?
Fiquei me perguntando: quem é o palhaço? O careca de barba eremítica, o povo aplaudindo ou eu que, bestificado, registrava tudo?
Cada povo tem o governo que merece. Merecemos o cômico Enéas; o candidato ao Oscar de melhor ator do ano, Roberto Jefferson, que anda distribuindo autógrafos nos shoppings de Brasília (!!!!); o nosso Exterminador do Futuro, Ronaldo Caiado (que estava lá rindo do careteiro do Prona); merecemos os 23 dos 24 deputados estaduais de Rondônia descaradamente metendo a mão no erário... Merecemos, merecemos, merecemos..
Enquanto formos “povinho”, seremos merecedores da canalha política, dessa corja abjeta à qual quase nos acostumamos e acompanhamos pela TV com se fosse um filme. Mas nesse está faltando mocinho e sobrando bandido. E o palhaço? O palhaço sou eu, é você, qualquer um que ache que não tem nada com isso.
Escrito por Sandro Fortunato às 00h20
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:: Uma lição da (falta de) memória

Quase meio século separa as fotos acima. Se, porventura,
eu tiver leitores setentões, seus olhos devem estar brilhando.
Por outro lado, dificilmente algum com menos de 40 saberá responder quem é o
bonitão nas fotos. A da esquerda foi feita por Fernando Bueno,
no final da década de 50. A outra, por mim, em maio do ano passado.
No início de 2004, um jornalista de São Paulo me enviou
uma mensagem por correio eletrônico querendo trocar idéias sobre o site
Memória Viva. Em pouco tempo, sugeriu uma
entrevista com Anselmo Duarte, o maior galã da história do
cinema nacional e único brasileiro laureado com a Palma de
Ouro. Achei ótimo! Agendamos o encontro para maio, quando eu estaria em
São Paulo.
Anselmo mora em Salto, uma cidade com
menos de 100 mil habitantes, que fica a 130 quilômetros da capital paulista. Até
poucos minutos antes de chegarmos ao local, eu achava que a entrevista poderia
não acontecer ou, se acontecesse, não renderia grande coisa.
Com 84 anos recém-completados (fez 85 em abril deste
ano), Anselmo reclamava muito de sua memória. Entrevistado que fala pouco é um
desastre para qualquer jornalista, mas entrevistado que não lembra das coisas é
um verdadeiro pesadelo para um memorialista. Felizmente, não foi bem isso que
vimos. Com sua voz vibrante, Anselmo falou por mais de três
horas e o depoimento só não se estendeu porque precisávamos voltar para
São Paulo.
É verdade que, no meio de uma história, ele acaba se
perdendo, mas basta que alguém sirva de ponto para que ele retome o fio.
E dá-lhe história.
Foi um encontro inesquecível e que pretendo repetir.
Creio ter aprendido algumas lições naquele dia. Uma delas é a de não
criar expectativas em relação a uma entrevista. Nem boas, nem más.
Tenho que fazer a minha parte e estar preparado. O resto sempre será surpresa.
Outra foi ainda mais surpreendente. Ao fazer uma
entrevista, meu principal objetivo é preservar a memória relacionada a uma
época, um determinado acontecimento ou pessoa. Mas naquele dia, a falta
de memória foi a responsável por uma das maiores lições que já recebi
na vida.
Anselmo Duarte atravessou duas décadas como “o
galã”. Passou pelos três maiores estúdios que já existiram no país:
Cinédia, Atlântida e Vera
Cruz. As mulheres se derretiam por ele e os homens, como era de se
esperar, o odiavam. Os intelectuais que faziam e cultuavam o Cinema
Novo nunca o perdoaram por ter ganhado a Palma de Ouro (com
O pagador de promessas, em 1962). Em um meio de egos
eternamente inflados, Anselmo foi um homem invejado e criou muitos inimigos,
mesmo que isso não fosse sua vontade.
Pois “um dia desses”, ele se encontrou com um
antigo conhecido. Abraçou-o, falou que estava com saudades, tagarelou,
contou histórias e nada o fazia entender a cara de estupefação do outro. Só
depois, um amigo seu conseguiu explicar: “Mas Anselmo, o que foi aquilo?! Vocês
não se falam há décadas! Vocês se odeiam!!” E Anselmo respondeu: “Mas eu não
lembrava! Não lembrava que ele era meu inimigo. Só lembrava das coisas
boas. Eu estava mesmo com saudades dele”.
O tempo cura tudo. E a falta de memória,
que costumamos ver como um sinal de degradação, de senilidade, pode ser uma
grande bênção.
Muitas vezes me pego querendo “sofrer desse mal”. E
desejando que alguns conhecidos meus também sofram dele para que possamos nos
encontrar e brindar por aquilo que realmente vale a pena
lembrar e para não mais perdermos tempo com a incapacidade de lidarmos
com nossas idiossincrasias e de administrar nossos egos.
Quem souber como apagar esses arquivos indesejados, pode
me dar a fórmula. Não quero esperar pelos meus 80 anos. Até lá, pode ser que eu
esqueça as coisas boas também.
* * * * * * * *
Clique aqui para ler parte do depoimento de Anselmo Duarte
ao Memória Viva
Escrito por Sandro Fortunato às 01h24
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:: David Nasser: De Dutra a Lula
Nem a tragédia, nem os clamores do povo chegam aos
ouvidos de quem está no poder. Conselho nem se fala. Tivesse o
presidente Luiz Inácio ouvido o sindicalista Lula e
não se meteria com aqueles 300 picaretas. Sou obrigado a
concordar com Josias de Souza em seu artigo, domingo passado,
na Folha de São Paulo: sorte teve Tancredo, que foi salvo pelos
micróbios.
Há 60 anos, o período ditatorial de
Vargas dava sinais de declínio. Em 1946, após a Segunda Grande
Guerra, o General Eurico Gaspar Dutra assumiria o poder até a
volta de Getúlio, em 1951, pelo voto direto. Durante o governo de Dutra, um
jovem jornalista começava a fazer sucesso nas páginas de O
Cruzeiro.
Mal chegado aos 30 anos, além do sucesso como jornalista,
era o maior vendedor de livros da época no Brasil. Como autor, não se
confunda. A década seguinte conheceria um jornalista poderoso como jamais
haveria outro no país, mas foi ainda nos anos 40, mais precisamente em 1947, que
chegou às livrarias o livro Para Dutra ler na cama, de
David Nasser.
A breve apresentação diz tudo:
O autor não deseja transformar-se em oráculo. As
misérias, porém, estão aí, nítidas, palpáveis, insolúveis. Os problemas criados
pela insensatez ditatorial ainda não foram atenuados pelos poderes legalmente
constituídos. A vida que era dura se tornou infame. O atual Presidente da
República – em sua plataforma de candidato – fêz da honestidade a sua bandeira.
Mas a honestidade não governa: ajuda a governar.
Dizem que a tragédia do povo não chega aos ouvidos do
homem que está no poder. Dizem que êle ignora as proporções bárbaras a que
chegou esta vida que o povo está vivendo. Dizem tanta coisa, dizem.
General: De que servem as vossas noites de insônia, na
mesa de trabalho, se dêsse trabalho não resulta algo de proveitoso, soluções
para os problemas, luz nas trevas? Dormi mais, Presidente, e rodeai-vos de
técnicos apolíticos, de homens competentes não contaminados pelo vírus da
corrupção partidária. Êles trabalharão por vós, já que os vossos conhecimentos
não poderiam ser tão ecléticos como a própria natureza dos problemas nacionais.
E é porque não fui, não sou, não serei jamais vosso adepto político, mas tenho
minha mágoa de ver o Brasil nesse descalabro, que vos mando êste recado: bota
essa gente para andar. O verbo está errado, mas o conselho está certo, pode
crer.
D.N.
Você leu certo lá em cima: isso foi escrito, em 1947,
Para Dutra ler na cama. Em 2005, Para Lula ler na
cama, os textos vão via Internet. Inspirado no nome do livro
de David Nasser e encabeçado por esse texto tão atual, o site
será lançado oficialmente na próxima quinta, dia 23,
mas já está no ar, em fase de testes, desde a semana passada.
Matérias exclusivas dando voz ao povo, notícias sobre o
governo, comparações entre a informação oficial e as veiculadas por diversos
veículos de comunicação, material histórico como a última entrevista de Lula
antes de ser preso durante a greve de 41 dias em 1980 e espaço para os
comentários dos visitantes em um site nem contra, nem a favor do
governo, mas de desagravo ao país.
Ainda está por aqui? Então clique
aqui e conheça o Para Lula ler na
cama.
Escrito por Sandro Fortunato às 02h18
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:: Tipo assim... rapidão!
:: Blog do Cascudo
Lançado na semana passada e com atualização sempre às quartas, o Blog do Cascudo vem chamando bastante atenção. Trata-se da publicação, agora na Internet e em formato de blog, da coluna escrita por Câmara Cascudo entre 1939 e 1960. Vale a pena conferir: www.memoriaviva.com.br/cascudo
:: Chocado!!
Estou impressionado como, tirando o mesozóico Wilson (foi mal, Wilson, não resisti!), comentador oficial do Leseira Geral e do meu flog, nenhuma das mais de duzentas pessoas que acessaram a foto do dia 13 de junho sabia quem aparecia nela. Para não deixar meus filhos órfãos – porque quase me recuso a viver num mundo onde Sophia Loren não seja mais reconhecida – resolvi, pela primeira vez, não postar uma foto feita por mim ou de meu arquivo familiar para poder mostrar "aos jovens" – porque a esta altura já estou me considerando um velho – algumas deusas como Brigitte Bardot, Jane Russel, Rita Hayworth e Marilyn Monroe. É só clicar aqui.
:: Não teve para ninguém!
Os principais jornais impressos do país voaram das bancas ontem, quarta, aqui em Brasília. Todo mundo queria conferir a repercussão do depoimento de Roberto Jefferson.
:: Na próxima semana...
... tem lançamento de um site dedicado ao nosso presidente. Aguardem!
Escrito por Sandro Fortunato às 16h37
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