:: A saga dos caranguejos potiguares

 

Escutei essa história, pela primeira vez, num show do humorista Espanta Jesus, no Teatro Alberto Maranhão, em Natal (RN). Nunca mais esqueci. À época, Espanta era o único artista local que lotava aquele teatro. Muitas vezes com sessão extra. A história é a seguinte:

Um cara estava vendendo caranguejo na corda (aquele monte de caranguejos vivos, pendurados e amarrados num pau) na porta de um hotel cinco estrelas em Natal.
- Olha o caranguejo! Bem barato! Fresquinho!
Incomodado com aquilo, o gerente pediu para ele se afastar um pouco. Ele obedeceu, mas logo voltou para perto da entrada do hotel.
- Olha o caranguejo! Bem barato!
Novamente o gerente pediu que ele se afastasse. Mais uma vez o vendedor obedeceu, mas não demorou muito para voltar:
Olha o caranguejo! Fresquinho! Baratinho!
O gerente perdeu a paciência:
- Meu amigo, entenda o meu lado. O senhor com esses caranguejos aqui na porta do hotel... vai que um bicho desses se solta e começa a subir as escadas...
Logo o vendedor o tranqüilizou:
- Se preocupe não, doutor. Tem perigo não. Esses caranguejos são todos daqui mesmo.
- Sim, mas e daí? – perguntou o gerente.
- Se um deles se soltar e começar a subir, os outros todos puxam ele pra baixo...

Espanta sabia bem o que estava dizendo. Estava fazendo um sucesso danado. Tempos depois, estaria na Escolinha do Professor Raimundo, na Globo, fazendo o personagem Pudim de Cana. E a inveja rolava solta. Apareceu muita gente para botá-lo para baixo.

Ninguém chuta cachorro morto. O que incomoda é o sucesso, a felicidade, a prosperidade do outro. A inveja só aparece assim.

Eu não sou conhecido pela minha sociabilidade ou mesmo pela minha simpatia. Não que seja um Urtigão – aquele ermitão intratável da Disney –, mas nos últimos anos percebi ser mais vantajoso apostar na qualidade e não na quantidade de amigos. Sou bem ranzinza às vezes. Enjoado com as mesquinharias alheias. Bastante intolerante. Pensando bem, o Urtigão é até uma figura bem sociável e simpática se comparado a mim.

Muitas vezes isso pode ser confundido com arrogância, prepotência, auto-suficiência. Principalmente se você se deparar com uma situação do tipo Sandro-encontrando-um-reconhecido-invejoso. Esse tipo só fala por trás. Baixa a lenha. Basta que o nome da pessoa que ele tem inveja ser falado para que comece: “Ele é um isso! Uma aquilo!” E desfia uma coleção de impropérios. Mas na sua frente, é sempre muito gentil.

Se eu tenho um defeito seriíssimo é minha sinceridade. Ela costuma me criar problemas. Eu não sei fingir, nem ser educado com gente assim. Para cada sorriso falso, uma cortada. Para cada elogio mentiroso, uma patada. Essa é a minha forma de deixar bem claro que não quero aquela pessoa por perto e que não me engano com ela.
 
A inveja é algo terrível. Pode deixar o ser invejado sem forças. Mas para que ela o atinja, é necessária uma contrapartida interior. Algo que esteja dentro da vítima e vá de encontro à inveja que vem de fora, deixando a passagem livre para que ela possa entrar. Fiquei pensando qual seria essa chave que abriria a porta para a inveja que, queiramos ou não, sempre vai estar nos rondando.

A contrapartida precisaria ser igual. É como amar. Se o outro não ama, se não existe correspondência, não há união. Então, para ser atingido, preciso ter inveja em mim? Não lembro de ter inveja de nada! Pensei mais um pouco e me perguntei: “De onde nasce a inveja que vem do outro?”. Do orgulho ferido pelo sucesso alheio.

Então é essa a chave: o meu orgulho. Ele já não convida o ódio e o desgosto dos outros. Só serve para comemorar com aqueles que entendem seu porquê: amigos verdadeiros, batalhadores e triunfantes.

Com meu andar claudicante de caranguejo que se desprendeu da corda, vou seguindo meu caminho sem olhar para trás. Quem quiser me puxar para baixo, vai ter que me alcançar. Mas já vou avisando: vai ser difícil.

*   *   *

Aproveitando... MUITO OBRIGADO aos meus talentosíssimos amigos fotógrafos, Canindé Soares e José Luiz Coe, que têm colaborado com este blog, além de outros trabalhos meus. Muito sucesso aos dois e... protejam-se! ; )



Escrito por Sandro Fortunato às 04h27
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:: Fernando contra os leões da censura

 

A história já é bem conhecida. Mas para quem estava fora da Terra nos últimos dois meses, faço um resumo. No dia 1º de abril, o jornalista e escritor Fernando Morais lançou o livro Na toca dos leões, no qual conta a história da agência de publicidade W/Brasil. No dia 13 de abril, um juiz de Goiânia determinou que fossem apreendidos os exemplares encontrados na sede da editora, acatando pedido feito pelo deputado federal Ronaldo Caiado (PFL-GO), incomodado com um trecho do livro em que o publicitário Gabriel Zellmeister diz que ele (Caiado) teria afirmado possuir um projeto de “esterilização das mulheres como solução da superpopulação dos estratos sociais inferiores, os nordestinos” quando de sua campanha para a presidência em 1989. Em 6 de maio, novo despacho determinou que a editora Planeta recolhesse, em vinte dias, os exemplares do livro de todos os pontos de venda do país. A decisão inclui a aplicação de uma multa de R$ 5 mil para cada “ato publicitário” em favor da publicação. O juiz também proibiu que o autor da obra e Zellmeister se manifestem publicamente sobre a decisão judicial, sob pena de multa. No dia 2 de junho, a 4ª Câmara Civil do Tribunal de Justiça de Goiás manteve a decisão de apreender o livro.

A imprensa já esperava que Fernando Morais não ficasse calado. Para muitos, essa multa parece alta. Para um dos escritores mais lidos do país, que já vendeu pelo menos 2,5 milhões de livros (coloque aí apenas dois reais, no bolso dele, por cada exemplar) e recebeu uma proposta, segundo ele mesmo, “em torno de US$ 60 mil” só para trocar de editora, 5 mil reais chega a ser ridículo. Isso deve ser o que ele gasta em Cohibas em um mês.

Sexta passada, 10 de junho, ele esteve no Programa do Jô. Ocupou dois blocos. No segundo, falou – dizendo não estar falando – sobre o caso. Bateu na tecla da censura, no perigo que representa à democracia e citou Indiferença, de Brecht:

Primeiro vieram levar os judeus e eu não me incomodei, porque não era judeu.
Depois levaram os comunistas e eu também não me importei. Não era comunista. Levaram os liberais e também dei de ombros. Nunca fui liberal.
Em seguida os católicos, e eu era protestante.
Quando vieram me buscar não havia mais ninguém para protestar...

Lembrou que o processo ainda está em Goiás, mas acredita na vitória e na liberação quando chegar ao Superior Tribunal de Justiça, em Brasília.

Um ponto interessante na conversa com Jô foi quando o apresentador perguntou se não era praxe no jornalismo consultar o outro lado. Fernando Morais tem mais de 40 anos de jornalismo. É, sobretudo, repórter. E dos muito bons. Mas quem disse que Na toca dos leões é uma reportagem? O livro surgiu de uma proposta entre amigos (dele para Washington Olivetto e Gabriel Zellmeister) quando a agência completava 15 anos. Trata-se de uma peça publicitária com ares de reportagem escrita por um conhecido contador de histórias. Não é jornalismo. É um livro escrito por alguém que também é jornalista.

O autor explicou que “a informação tinha sido dada por duas pessoas que ele conhece há trinta anos, da mais alta respeitabilidade (...), que os dois deram depoimentos em circunstâncias e momentos diferentes, que um não sabia que o outro havia contado sobre a frase do Caiado (...) Não eram duas pessoas que eu catei na rua, dois anônimos...” portanto, quando se está seguro do depoimento, ouvir o outro lado se tornaria dispensável.

Fernando poderia ter sido mais cuidadoso, mas neste caso específico, concordo que não precisava ouvir o outro lado. Ainda que a frase fosse publicada em veículo jornalístico, poderia estar lá, entre aspas, saindo da boca de quem a disse: “Fulano de tal falou que Caiado disse tal coisa...”. Problema de Fulano de Tal. A afirmação não teria sido do jornalista, mas do entrevistado. O deputado Roberto Jefferson colocou em risco a estabilidade do governo federal ao dizer que o tesoureiro do PT paga um mensalão, uma mesada, para deputados de outros partidos votarem a favor das propostas do governo. Não foi a jornalista que o entrevistou que disso isso. Foi o entrevistado. Ele que se vire para provar. Mas isso é jornalismo. Na toca... parece jornalismo, mas não é.

Caiado tem todo direito de processar Morais e Zellmeister, como reconhece o próprio autor do livro. A decisão de recolher os exemplares é que assusta. Isto é censura. Impede que alguém diga o que quer e impede que outras pessoas tenham acesso a essa informação. Isso aconteceu há alguns anos com Ruy Castro, ao lançar Estrela solitária, biografia de Garrincha. No final, o escândalo ajudou a vender mais livros. A propósito, recomendo. É uma das mais bem escritas biografias já feitas no Brasil.

Falar da vida dos outros é difícil. Para se fazer isso com responsabilidade e ética profissional, é preciso estar tudo ali, preto no branco, com provas cabais, irrefutáveis. Até falar de quem já morreu é complicado. Eu mesmo já deixei de incluir alguns nomes no site Memória Viva porque, durante as pesquisas para a produção, parentes divergiam sobre algum tema ou ainda tentavam censurar alguma passagem da vida do homenageado. Usando de bom senso, deixei de publicar muita coisa que parecia interessante e poderia render alguns momentos sob os refletores: prefeito de capital que às vésperas de eleição presidencial diz que sobe no palanque do correligionário mas vota mesmo é no adversário dele, filhos de figuras históricas que revelaram romances que jamais ultrapassaram os limites de suas casas, “indiscrições de alcova” de artistas famosos... quase tudo gravado e nunca utilizado. Pelo menos até o dia em que falar de Sandro Fortunato seja como falar hoje de Fernando Morais e quando, acima de tudo, minha conta bancária estiver bem recheada para pagar qualquer multa de algum censor reacionário e antidemocrático – com perdão de toda esta redundância – que quiser me calar.

Até lá, mesmo não sendo “comunista, liberal ou católico”, engrosso o coro dos que dizem não a qualquer reação ditatorial desse tipo. Para que mantenhamos nosso direito à liberdade de expressão e para que reste alguém que possa me defender quando chegar a minha vez.



Escrito por Sandro Fortunato às 16h58
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:: Os homens que sabem javanês

O Senhor J. é, entre os seus, na sociedade em que vive, um reconhecido estudioso, profundo conhecedor da poesia cristã, admirador de grandes mestres da pintura, poliglota, leitor voraz. Hoje, está se encaminhando para os 70 anos, mas teve a boa estrela de receber tal reconhecimento desde jovem, quando ainda na casa dos 30.

Altivo, de voz grave sempre impostada, tinha ainda a seu favor o fato de ser europeu e, por força do destino, ter vindo parar em província brasileira. Era violonista. Mais que isso não poderia querer. Nem a credulidade alheia lhe faltava, principalmente a feminina.

Na juventude, ainda com forte sotaque italiano, em roda de amigos pegava o violão e dava mostras de sua refinada cultura. Nada de modinhas. Cantava canções folclóricas de algum recôndito lugar da Alemanha. Entoava com graça as líricas germânicas que poucos em todo o mundo deveriam conhecer. As garotas enlouqueciam!

Um dia, chega à roda um novo amigo, seu conterrâneo. Trazido por uma das garotas que já havia antecipado seus atributos, dando ênfase às tais canções folclóricas alemães. O novo amigo, que fizera estudos superiores na Alemanha, ficou muito interessado em conhecer tão ilustre e erudito compatriota.

As apresentações ficariam para depois. O violão já se revezava entre os galanteadores e chegava às mãos de Senhor J. que, mais uma vez, entoaria uma esperada lied.

O novo amigo era todo ouvidos. Em segundos confidenciaria à amiga que o levara à roda: “Ele está fazendo sons como uma criança que está aprendendo a falar. Isso nunca foi alemão”.

O fato aconteceu há muitos anos quando eu ainda pensava em vir ao mundo e me foi contado pela tal amiga que havia convidado aquele que denunciaria a farsa. Conheci o Senhor J. há uns 10 anos e, creio, seus conhecimentos já deviam ser bem mais avançados à época.

O Senhor J. é apenas um dos muitos professores de javanês que conheci. Na área jornalística, reconhecidamente fértil de grandes sabedores únicos de alguma coisa, conheci vários. Mas nada superou, em quantidade e qualidade, aqueles com os quais me deparei nos dois anos que trabalhei no Senado.

Quantos Castelos! Quantos portentos! Todos detentores de conhecimentos verdadeiramente herméticos!

Mais espantosas ainda eram suas histórias. Espantosas de tão vulgares. Mas contadas pelos próprios protagonistas, tomavam ares épicos. Contos fantásticos! Grandiosos! Memoráveis! Na imaginação de cada um deles... Quase todos tinham a mesma história: uma vida medíocre e sem perspectivas, livre da ruína completa por um concurso ou por um apadrinhamento. Uma viagem, mesmo que em excursão, a um país vizinho e um algum conhecimento de espanhol ou inglês e, voilá!, estávamos diante de mais um professor de javanês.

Eu, abusando da brutal ignorância com a qual fui contemplado, continuo nada sabendo e passo a vida a admirar a capacidade de se aprender javanês. Quem for capaz, que me ensine.

*   *   *

PS: Para quem nunca leu (ou quer reler) O homem que sabia javanês, de Lima Barreto, é só clicar aqui.
PS II: Divirta-se também com O homem que sabia Djavanês, clicando aqui.
PS III: A figura que ilustra este texto me caiu nas mãos nesta segunda. É uma charge de C. do Amaral, da edição de número 6, de 25 de outubro de 1902, da revista O Malho. O texto que vinha logo abaixo, em linguagem mais atual, mostrava o diálogo entre o homem menor e o outro. O primeiro diz: “V. Ex.é que é o Sr. ministro?” E recebe como resposta: “Ministro? Dobre a língua! Eu sou o senhor contínuo...”
PS IV: Já votou no texto para a próxima segunda? Clique no poliglota, digo, no troglodita no alto à direita e faça sua escolha.



Escrito por Sandro Fortunato às 19h42
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:: Ivo Carabajal - O bruxo de Copa

No início do ano de 1997, li uma matéria sobre Ivo Carabajal na revista Incrível, da Bloch. Naquela época, eu editava a revista Isis, especializada em religião, filosofia e ciência. Ivo era um vidente que, pelo que mostrava a matéria, era requisitado por artistas e políticos do mundo inteiro. Fiquei intrigado com aquilo e resolvi conferir.

A entrevista aconteceu em um sábado através de uma troca de e-mails. O meu primeiro solicitava a entrevista; Ivo respondeu que sim. No segundo foram as perguntas. Vieram as respostas e mais algumas “coisinhas” sobre mim. Acertou todas.

Fiquei interessado em que ouvisse minha voz mas, como era de se esperar, seu telefone estava sempre ocupado. Apelei para o e-mail mais uma vez. Já não esperava a resposta para aquele dia e, pouco antes da meia-noite, conferi se havia alguma mensagem para mim. Como não havia, desliguei o computador e me preparei para dormir. Já na cama me veio a cabeça: “liga o computador que o Ivo respondeu”. Levantei, liguei e lá estava. A mensagem tinha sido passada havia menos de cinco minutos e nela ele me pedia para ligar imediatamente.

A conversa começou a uma da manhã e durou duas horas. No início ele começa dizendo letras e avisa: “não fala nada, só diz se eu estou acertando”. Uma inicial, a letra seguinte e lá vem o nome da pessoa. Em seguida, descrições do jeito de ser daquela pessoa, o que ela representa para mim, quais suas intenções e até fatos do passado dela. Isso sem eu falar NADA! Ele continua e consegue impressionar muito mais, chegando a dizer nomes completos de pessoas do meu convívio.

Ao contrário do que muitos imaginam, sou cético em relação a quase tudo.  Perguntei: “E se eu fizer uma pergunta sobre uma pessoa e mentalizar o nome de outra, consigo te enganar”. Ivo responde: “Consegue, mas você vai enganar a si mesmo”. Ivo Carabajal não se arvorava de possuir nenhum poder extraordinário e dizia que qualquer criança vai fazer o que ele faz “dentro de uns vinte anos”. Ele não é um desses videntes, falsos ou verdadeiros, que às vezes acertam e às vezes erram. Como muitos sabem e ele mesmo repetiu várias vezes: “o dia seguinte e todas as respostas que precisamos estão dentro de nós mesmos”.

Em suas histórias, Ivo teria feito previsões para Senna (previu a morte do piloto mais de uma década antes e disse que ele, Senna, sabia quando e onde aconteceria), para Collor (nota em uma coluna do Jornal do Brasil dava conta de que ele deixara de fazer trabalhos para o então presidente; dias depois o Impeachment era votado), para Franz Beckenbauer, Axl Rose e até Saddam Hussein.

Ivo fez algumas previsões para mim. Posso dizer que boa parte se realizou e que outras ainda estão “na validade”. Foi um bom amigo. Passamos muitas horas ao telefone. Eu, sempre cético, o desafiando; ele fazendo surgir nomes e dando conselhos. Isso foi comum durante quatro anos, até que ele previu minha saída de Natal.

Em 2002, finalmente nos conhecemos pessoalmente. Fiquei alguns dias em seu apartamento, em Copacabana, durante o carnaval. Um dia acordei e Ivo olhava fixamente para mim. Os olhos esbugalhados. “Cara, eu acordei de madrugada e olhei para você. Você estava de mãos dadas com (disse o nome de uma entidade do Candomblé, que não lembro agora). Estou rezando até agora!” Perguntei o que significava aquilo. Ele disse que era uma proteção muito forte, que as coisas poderiam ser difíceis para mim, mas eu conquistaria o que desejasse.

Sempre achei suas histórias meio fantásticas, mas cansei de vê-lo acertar tanta coisa que o mínimo a se dizer é que ele tinha uma “parabólica desgovernada”. Captava um monte de coisas e ia despejando. Não tinha controle sobre aquilo.

Quando ainda não nos conhecíamos pessoalmente, no final da década de 1990, Ivo estava fascinado com os computadores e com a Internet. Como eu era editor de uma revista, mandou por e-mail o arquivo de um livro que escrevera, contando as histórias de vários clientes famosos pelo mundo. Não dizia o nome de nenhum deles, mas era quase impossível não reconhecer a história de vários. Havia casos como o de uma garota de programa que virou atriz famosa e de um bicheiro que havia sido avisado da própria morte. Outras histórias envolviam taras e rituais envolvendo nomes conhecidos da política nacional. Ivo me perguntou o que achava de publicar aquele material. Eu disse: “Você publica num dia e está morto no outro”. Ele acabou perdendo o arquivo e, anos depois, me perguntou se eu não teria uma cópia. Infelizmente ou felizmente, não.

Depois do carnaval em 2002, passamos um tempo sem contato. Estive outras vezes no Rio, mas não nos encontramos mais. No início de 2004, resolvi ligar para ele. Sua filha me deu a notícia de sua morte. Soube que foi rápida e calma. Entre um mal estar e o coração parar, foram algumas horas. Morreu sem medo. Deixou uma vida cheia de histórias fantásticas – algumas verdadeiras, outras “nem tanto” – e uma lição que gostava de repetir: pensem e façam sempre o BEM; o dia seguinte está programado no cérebro de cada ser vivo e poderemos transformá-lo totalmente.



Escrito por Sandro Fortunato às 00h19
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