:: Meus queridos fantasmas

 

Chegou a Quarta de Cinzas e meus fantasmas vieram me visitar. Verdade seja dita, eles aparecem aqui a qualquer hora e sem cerimônia, mas talvez por ser hoje o tal dia em que devemos lembrar a morte e o pecado, eles resolveram aparecer com mais intensidade.

Cecília Meireles foi a primeira a chegar. Logo nos primeiros minutos da quarta. Apareceu, sentou e não me deixou quieto até que eu resolvesse buscar umas fotos que fiz no carnaval do ano passado. Nelas aparecem suas bisnetas. Coloquei lá no Flog, lembrei de um verso seu no qual ela diz que “a vida só é possível reinventada” e ficamos por isso. Ao menos foi o que pensei. À tarde, por uma lista que assino, chega um e-mail com Depois do Carnaval, da mesma Cecília.

Era isso que estava querendo me dizer. Ela reflete sobre o fim da festa: “Acabou-se o artifício, desmanchou-se a mágica, volta-se à realidade”.  Mas termina lembrando que “os homens gostam da ilusão. E já vão preparar o próximo Carnaval...

Eu, que tenho minhas próprias ilusões mas não sou afeito às atuais festas momescas, passei este carnaval com outros fantasmas. J. Carlos, Alceu Penna, Lima Barreto... Todos muito cariocas e responsáveis pelo modelo de uma cidade maravilhosa que ficou na lembrança de uns e na imaginação de outros. Pura ilusão – uma das minhas –, como o carnaval.

Vez por outra, via alguns trechos dos desfiles na Sapucaí. Aqui e ali ficava apontando “isso vem do tempo dos corsos”, “isso é herança dos ranchos”. Típico do nosso tempo, só mesmo o silicone e a falta de respeito com a Velha Guarda da Portela. Pena que a Escola ainda ficou em penúltimo e conseguiu escapar do rebaixamento.

Outra coisa de nossos tempos: a michaeljacksação dos foliões. Fiquei me esforçando para acreditar que não era a transmissão de um desfile na Europa. Parece que negro, agora, só pode na bateria e na ala das baianas. E olhe lá! O resto é turista branco com muita grana para gastar. Você pode até ser negro, mas tem que pagar uma baba pra desfilar. Não é mesmo, tios e tias da Velha e Negra Guarda?

E teve ainda criança em carro alegórico e global em banda de lata com direito a “ataque nervoso” (segundo versão oficial) e invasão de desfile alheio. Estou falando do filho do saudoso – e também carioquíssimo – Carlos Eduardo Dolabella, de quem peguei emprestado o título para este texto e que mui tardiamente me desculpo por não haver enviado o vídeo da entrevista que fizemos em 1990.

Fácil notar que meus fantasmas não são chamados queridos de forma leviana. Estão aqui para auxiliar, lembrar. Nunca para assustar. Agradeço suas visitas e aprendo um pouco com cada um deles. As portas e as janelas, de todas as dimensões, estão sempre abertas.



Escrito por Sandro Fortunato às 22h26
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:: Acabou a tradição do carnaval

Este aí, na primeira foto é meu pai, aos oito anos, em 1953, fantasiado de... de... sei lá que porra é essa!! Na outra foto, eu, em 1979, sete anos incompletos.

Imagine como era fácil uma criança pular carnaval na década de 1950 com uma fantasia dessas! Super à vontade, cheia de liberdade de movimentos. Eu não sei o que minha avó tinha na cabeça ao fazer isso, mas boa coisa não era. Devia estar castigando o filho único por alguma traquinagem. “Veste isso, danado, que eu quero ver você brincar”, ela deve ter dito.

Vinte e seis anos depois, foi a minha vez. Também ainda filho único. Como já não existiam essas fantasias-quase-burcas, eu estava mais à vontade, de índio. Meio americanizado, meio afrescalhado, mas reconhecidamente um índio. Ou não. Explico. Eram meus primeiros dias em um colégio novo, maior. Eu estava na terceira série. Um comunicado da coordenação diz que as crianças até a segunda série deveriam ir fantasiadas. Minha mãe devia estar com raiva de mim ou estava seguindo uma tradição... sei lá. Só sei que eu fui assim. E lá estou eu, de índio, no meio de todo mundo de uniforme. Assisti à aula de sainha de pena e sendo chamado de baiana o tempo todo.

Depois a criança cresce revoltada, traumatizada, cheia de problemas, e os pais ficam se perguntando: “Onde foi que nós erramos?” No seu caso, foi na leitura, mãe, na leitura...

Sempre fui bom em quebrar tradições. Para começar, só tive filhas. Fantasias, só as de nossas cabeças e em comum acordo. Agora que resolvi/aprendi a fazer menino, já está decretado: ele ficará isento de pagar esse tipo de mico. Esse trauma, ele não vai ter. Mas também, daqui a sete anos... será que as pessoas ainda usarão fantasias no carnaval?

No meu tempo de criança, no Rio, existiam as turmas de Bate-bolas ou Clóvis. Algumas eram formadas por dezenas de mascarados que faziam uma algazarra enorme batendo suas bexigas (bolas) de couro no chão e apitando. As crianças morriam de medo. Há anos não vejo isso. Festa de família em clube então! Alguém lembra?

Neste carnaval – que passarei em Olinda (Ô, linda, minha casa! Ô, linda, minha cama!) -, resolvi buscar essas tradições e mostrarei, de hoje à próxima sexta, imagens dos antigos carnavais do Rio de Janeiro, de 1909 à década de 1940. Corso, Rancho, Assustado, Baile dos Artistas, Cordão da Bola Preta... A primeira é essa aí ao lado. Clique nela e vá ao Flog Rio Antigo.

No mais, bom findi e boa festa da carne aos não-vegetarianos. Ficarei às voltas com A Careta, O Malho e os desenhos de J. Carlos. Na quarta de Cinzas, volto para falar sobre isso.



Escrito por Sandro Fortunato às 12h53
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Escrito por Sandro Fortunato às 14h36
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