:: América, Amerika...

Meu mau humor para com a Toda Poderosa termina hoje. Prometo.

Os textos desta semana estão interligados. Hoje quero falar sobre América, a próxima novela das oito. Na verdade, quero falar sobre o que ela poderia fazer. América vai ter um núcleo peão e um núcleo funk. Pronto. Já entendeu o que eu quero dizer?

Canais de TVs são concessões públicas e, teoricamente, deveriam ter uma parte de suas programações voltadas para causas sociais e para a educação dos espectadores. Quando uma novela alerta para os riscos de uma doença como o Mal de Alzheimer ou abre o debate sobre o homossexualismo, como está fazendo na atual novela das oito, não há nada de louvável. O canal não está fazendo mais do que cumprir sua obrigação social.

Mas quando o mesmo espaço é utilizado para levar a milhares – até milhões – de pessoas uma subcultura que não só não educa como ajuda a deseducar, aí o bicho pega! Em América, veremos, digo, verão – os telespectadores que se aventurarem – os tais núcleos peão e funk.

Neste país enorme, cada região, cada estado, cada cidade tem seu próprio lixo. No Nordeste, há a vaquejada, algo tão selvagem quanto os rodeios do Centro-Oeste e interior de São Paulo. Na Bahia, axé; no Rio, o funk. E por aí vai. Têm apelo popular? Então mete na novela e espalha pro resto do país.

Imagine se pudéssemos ter um “núcleo Bossa Nova” numa novela das oito. Ou o personagem de Raul Cortez, o barão de Bonsucesso, falando sobre música erudita. Seria o máximo não? Oito, nove meses para ensinar ao público, em horário nobre, um pouco dessas coisas. Mas quem veria? Quem se interessaria? Pouca gente. E se o público não for educado para isso, poderemos responder o mesmo pelas gerações futuras: não verão, não irão se interessar...

América, a novela, me veio à cabeça porque há poucos dias abri a maleta do notebook e nele eu havia colocado um livro de Kafka, Amerika (ou O desaparecido). A tira que segura a máquina na maleta cobria os olhos do autor. Para mim, uma mensagem clara de uma América que Kafka não queria ver.

No post abaixo, um texto meu publicado há 6 anos n`O Jornal de Hoje, em Natal. A preocupação era a mesma. Pelo visto – e infelizmente – daqui a mais alguns anos continuará igual. Ou pior.



Escrito por Sandro Fortunato às 23h14
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:: Consertos para a Juventude

Semana passada, vi-me mais uma vez metido em uma crônica de Vicente Serejo. Mais uma vez porque há seis anos já estivera naquelas linhas sempre bem traçadas. Ele falava sobre o Bar Canal, uma bar que eu pensara em abrir mas os deuses, muito complacentes, impediram. Ficaria ali no casarão de Luís de Barros, na esquina da Rua Chile com a travessa Argentina. Naquele tempo nenhum dos bares surgidos na mal fadada revitalização da Ribeira pensava em existir. Sei que a coisa não foi para frente, mas ganhei minha primeira crônica serejística. O professor há de me perdoar a não abertura do bar após uma notícia que lhe darei por estes dias.

Lá pelos meus catorze anos, quando cheguei a Natal, o estilo de Serejo me chamou atenção. Não que naquela época eu tivesse algum grande potencial crítico. Eu sabia apenas que gostava muito de ler suas crônicas. Alguns anos depois eu seria seu aluno no curso de jornalismo e teria oportunidade de assistir aquele homem pequeno e barbudo aos brados em sala de aula como se fosse um messias de Macau pregando aos discípulos em uma montanha de sal. Toda aquela gesticulação característica, o ajeitar das calças, as gargalhadas fartas e algumas doces maldades por detrás de algumas frases.

Pois bem, na tal crônica da semana passada, intitulada A máquina virtual, Serejo falava da alma perdida nos tec-tecs das antigas máquinas de escrever, das redações do "seu tempo" (que também cheguei a alcançar, afinal isso acabou dias destes), dos gloriosos anos setenta e oitenta que ninguém mais devolverá. Dizia que um dia eu sentiria uma saudade assim, que o brevíssimo ruído dos dígitos feriria meu coração. Pode ser, afinal tenho quatro planetas retrógrados que às vezes me fazem sentir saudades até do que não vivi. Mas este breve texto - digitado no meu Compaq e não mais naquela Remington que eu tinha há alguns anos - tem como objetivo pedir ajuda à sua sensibilidade de cronista diário em um outro assunto que está realmente ferindo meu coração.

Já que falamos de saudade, deixe-me perguntar se você lembra do Projeto Aquarius ou do Concertos para a Juventude. Lembra? Já tinha televisão em Macau? Fliperama tinha. Então. Estava eu me perguntando para que tanto botão no controle remoto se só tenho seis canais para escolher e em todos eles só aparecem as mesmas coisas: pagode, axé e breganejo. Bateu uma saudade do Projeto Aquarius. A Orquestra Sinfônica Brasileira em apresentações na Quinta da Boa Vista, ao ar livre, de graça, para quem quisesse se deleitar. Quem não podia ir, via pela tv, na mesma Globo do pagode, axé e breganejo. Lembro até de uma pasta de partitura do Aquarius que meu avô, integrante do elenco de apoio da Globo, uma vez trouxe para mim. Pois é, caro professor, bateu uma saudade dessas que dilaceram o coração, mais precisamente este que byte em meu peito.

Fiquei me perguntando o que teria acontecido com esta geração que, provavelmente, você vai me acusar de ser a minha. Essas riminhas pobres, esses ritmozinhos sem graça, essa total falta de imaginação. Falta quase tudo. Menos bunda. Essa tem em abundância. Nosso coleguinha Ricardo Vespucci disse outro dia em artigo na Caros Amigos que "o que estraga essas bundas que aparecem por aí é que são automáticas. Ao sinal, entram em uniforme tremedeira como um bicho a pilha". Lá pelas tantas ele diz que "a bunda não foi feita para isso". Aí me (te) pergunto: e os meus ouvidos foram feitos para isso? Para aturar essa sem gracisse reinante nas rádios e TVs? O que seria de mim não fossem os CDs (ou os LPs, se preferir), as rádios com boa música (que ouço pela Internet) e o MP3 (deixa pra lá, depois eu explico)?

Caro Serejo, dê-me uma luz. Você que é tão saudosista mas tem um contraponto dentro de casa, com suas filhas, ainda mais novas que eu, deve saber explicar o que está acontecendo. O que minha filha - hoje com seis anos e já tão rebolativa - vai ouvir no futuro? Tire daí da sua máquina de escrever, daí dessas páginas cheias de rasuras e borrões onde dorme a larva do seu salvador e brilhante pensamento (com a permissão de José de Alencar), tire daí uma resposta para este não ex, mas sempre aluno que aprende um pouco a cada leitura de sua Cena Urbana. Diga-me: na falta dos Concertos para a Juventude, tem conserto para a juventude?

Sandro Fortunato

Publicada n' O Jornal de Hoje, no dia 5 de abril de 1999, em resposta à crônica de Vicente Serejo intitulada A máquina virtual, publicada no mesmo jornal no dia 30 de março de 1999.



Escrito por Sandro Fortunato às 23h11
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:: Hoje é dia de Cascudo

 

O “Dia de Câmara Cascudo” é, na verdade, 30 de dezembro, data de seu nascimento. Quando ele era vivo, os grupos folclóricos de Natal desfilavam em frente a sua casa, no dia do seu aniversário. Desde 2003, esse desfile voltou a ser feito e provavelmente este ano a data será oficializada como Dia do Folclore Potiguar. Nestes dois anos após o retorno do desfile, estive presente à festa, vendo tudo da varanda da casa de Cascudo. Canindé Soares, fotógrafo e amigo de longa data, me flagrou por lá da última vez.

Desde 1998, quando se comemorou o centenário de nascimento do folclorista, tenho bastante contato com a família de Cascudo. Naquela época, desenvolvi o Memória Viva de Câmara Cascudo, tido por muitos como o site brasileiro mais completo sobre uma personalidade já falecida. Com o passar do tempo, Daliana e Camila, netas de Cascudo, começaram a brincar dizendo que eu também sou neto dele.

Pois bem... há poucos dias, ainda em Natal, eu estava com Woldney, marido de Daliana, em uma loja de discos de vinil. Reparei em um compacto com uma música de campanha de Aluízio Alves, lá dos tempos de 1900 e vovô era virgem. O dono da loja mostrou então um LP intitulado Cruzada da Esperança. Dizia que estava prestes a ser comprado por alguém que o daria de presente ao próprio Aluízio (prefeito de Natal, governador do Rio Grande do Norte, deputado, ministro...). Na capa, uma foto de campanha: um caminhão, tendo no alto o candidato e seus correligionários e totalmente cercado pelo povo. Do lado de fora, pendurado junto à porta do motorista, “o motivo” da raridade do disco: Câmara Cascudo.

Woldney olhou e disse: “Parece, mas não é ele não”. O homem insistiu que era. E Woldney: “Parece, mas não é”. É. Não é. É. Não é. Woldney aponta para mim e solta essa: “Tá aqui esse homem que é neto dele pra dizer se é ou não é”. Eu olho para o disco e dou a sentença: “Esse não é vovô, não”.

Presepadas à parte, hoje é Dia de Cascudo por outro motivo. Está começando nesta terça, pela TV Globo, a exibição da mini-série Hoje é dia de Maria. A história é baseada em contos populares compilados por Câmara Cascudo, Sílvio Romero e Mário de Andrade. Pelos comerciais e por toda divulgação, algo que vale a pena ser visto. Só não entendi como a menina Maria, a moreninha Carolina Oliveira, na fase adulta vira a branquela Letícia Sabatella. Aliás, a garota é a cara de Dira Paes, a Solineuza da série A Diarista. Repare...

Bem, mas e Cascudo com isso? No site da microssérie (sic), há biografias, bibliografias e links para sites sobre as personalidades que, com suas obras, deram origem a Hoje é dia de Maria. E lá está Cascudo. Cliquei na Biografia. Resumidinha, bonitinha, legal. Cliquei em Bibliografia. Nossa, que familiar! Sim, eles chuparam do Memória Viva de Câmara Cascudo. Até aí, tudo bem. O site foi criado para isso mesmo. Para ser referência, para ser fonte segura de informação. Só que não há crédito algum da fonte!

“Ah, Sandro, deixa de ser chato! Eles podem ter tirado aquela lista de qualquer lugar”. Podem, mas de algum lugar que tenha copiado do Memória Viva porque eu fiz aquela lista. Em 1998, quando das pesquisas para o conteúdo do site, fiz a tal lista baseada na coleção pessoal do professor Carlos Lyra (fotógrafo e grande amigo de Cascudo). Complementei-a com estudos de Zila Mamede sobre a obra do folclorista e com informações da própria família sobre obras inéditas deixadas por Cascudo. Posso dizer com toda certeza: não existe bibliografia cascudiana mais completa que aquela. Minto. Tem sim, mas ainda não disponibilizei uma lista mais completa com outros livros sobre Cascudo publicados nos últimos anos.

Repito: o site existe para isso mesmo. Mas um pouquinho de ética e consideração não faz mal a ninguém. A chupada foi tão grande que até os grifos em caixa alta, acentuando as diferenças entre livros DE e SOBRE Cascudo foram copiados. Lembrei de um coleguinha da segunda série que, ao colar, copiou minha prova inteira. Inclusive meu nome.

Na área de links do site da microssérie (sic), existe um para o site do Museu Câmara Cascudo, que deste só tem o nome e de Folclore não tem nada.

O cascudo está dado e fica por isso mesmo. Eu vou assistir a tal Maria filha da Solineuza. E acho até que vou gostar.



Escrito por Sandro Fortunato às 16h43
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:: Big Burros Brasil 5 – Quem é o jegue da vez?

De sábado até a manhã desta segunda, mudei o tema de reinício das atividades do Leseira Geral umas 10 vezes. Todos serão aproveitados. Verdade, estou descansado e o nível de adrenalina já voltou ao normal, o que me deixa pronto para teclar aos montes. Mas a fertilidade temática não é pura inspiração. No país da piada pronta, a babá eletrônica – e mais precisamente a Big Baby Sitter nacional –, é a responsável pelos textos de hoje à quarta. Pratiquemos, então, um dos mais queridos e populares esportes do país: baixar o pau na TV Globo.

Terminadas as férias nas casas de pais e mães, adeus TNT, Fox, Cartoon Network e a sempre risível ATP. Um final de semana global, com chamadas para o Big Brother Brasil 5, foi suficiente para perceber que voltei à pobre realidade televisiva de minha casa. E também para entender porquê a TV passa tanto tempo desligada.

Pra começar, colocaram uma figura com cara de Nerd, um professor universitário, um engenheiro mecânico e um médico nessa nova edição do programa. O que é isso? Estão querendo avacalhar o BBB? Calma, Sandro! Está nervoso? Está achando que não vai se divertir com o baixo nível mostrado nos BBBs anteriores?

Para me acalmar, eis que o tal médico – com cara de lutador de jiu-jitsu – já aparece na chamada do programa dando uma mostra do que podemos esperar. Pegador (segundo o próprio), ele acredita em amor à primeira vista e se pergunta “por que não posso apaixonar” lá na casa? Deixe-me entender... Dotô, o senhor está se achando tão maravilhoso a ponto de apaixonar alguém ou só esqueceu de utilizar o pronome? Não teria pretendido dizer: “por que não posso ME apaixonar”? Tudo bem, vou tirar a dúvida quando você estiver conhecendo seus colegas de BBB e contar a eles se você “formou em Medicina” ou “formou-SE em Medicina”, ok?

Confesso, tenho uma terrível dificuldade em engolir essa ausência pronominal na utilização de certos verbos. Dói ouvir: “Eu formo este ano”, “eu formei em Direito”, “eu apaixonei”. Tudo certo. Desde que você diga O QUE formou este ano (uma fila? uma idéia? uma biblioteca?), QUEM você formou (você é professor universitário ou a própria universidade?) ou QUEM você apaixonou (tá podendo, hein?).

Mas voltando ao BBB... então está combinado: vai rolar um assassínio básico à última flor do Lácio. Ah, tem também um jogador de futebol na parada! Então está garantida a diversão. Sem falar nas “modelos”. Uma delas emprestou seus traços à índia Iracema. Explico: ela serviu de modelo para uma estátua da personagem de José de Alencar que se encontra no centro de Fortaleza. Se é virgem e tem lábios de mel, não sei; só sei que tem a maior cara de travesti.

De mais a mais, anote uma previsão de início de ano deste Pai Dinah: nos próximos três meses, você vai cansar de ver gente malhando o linguajar e as tiradas geniais dos integrantes do Big Brother. Pior, só mesmo o apresentador. Você merece?

"Ah, Sandro, mas tem umas coisas boas! E aquela mini-série que começa na terça?" Também vou falar sobre ela. Amanhã será dia de Maria.



Escrito por Sandro Fortunato às 08h43
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:: Que tal começarmos 2005?

A aventura está terminando. Neste momento, 13h05 de quinta, 6 de janeiro, estou no Aeroporto do Recife, em Pernambuco. Para chegar até aqui, peguei um táxi às 6 da manhã, em Natal, e fui para a rodoviária tomar um ônibus, que resolveu quebrar assim que entrou na capital pernambucana. Eu e outros passageiros pegamos uma Kombi – um “alternativo” – para chegarmos ao aeroporto. Agora espero o avião e depois, já em Brasília, pegarei um táxi para finalmente chegar em casa. Faltou alguma coisa? Faltou. Um trem. E também um barco. Mas como estou a 3 horas do embarque, pode ser que ainda dê tempo de despachar a bagagem e fazer isso.

O aeroporto do Recife foi reestruturado. Está novo, bonitão e leva o nome de Gilberto Freyre. Até aí, tudo bem, bela homenagem. Mas vejam a “estauta” que dizem ser ele. Sim, essa obra defecada no térreo do aeroporto, dizem, é Gigi.

Mas deram uma dentro quando lembraram do incensado Brennand para o mural do primeiro piso. Totalmente condizente com a beleza do restante do aeroporto. Não se pode dizer o mesmo da decoração de Natal. Sinceramente, eu me recusei a fotografar um Papai Noel pra lá de tronxo pendurado em uma asa delta. Acredite, está mais para Judas que Papai Noel. Mas um outro, tarado exibicionista de calças arriadas, próximo à obra que representa Gigi, esse, eu fotografei. Está ali a prova de que esse velho é mesmo um tarado. Esse negócio de colocar crianças no colo e oferecer brinquedos é coisa de pedófilo. Onde está o martelo do mundo, o grande irmão americano, que não dá um jeito nesse velhinho? Basta. Cana no Michael. Cana no Santa.

Impressão minha – sua também – ou foi só pegar a reta para Brasília e minha verve sarcástica voltou com tudo? Áries com ascendente em Escorpião é algo insuportável. Parece que acabaram mesmo as férias. A partir da próxima segunda, estarei aqui todos os dias, como de costume.

Até lá, vou separar algumas das mais de mil fotos feitas nas 3 últimas semanas e começar a postá-las no Flog. Também vou editar textos e idéias que surgiram durante esse período. Já vou avisando que sofro dessa síndrome que faz o descanso das férias ser apenas lembrança já no primeiro dia de retorno ao trabalho. A adrenalina já está a mil e este promete ser um ano de muito trabalho.

Fiéis leitores do Leseira Geral, estou de volta e, como diria o Coisa, tá na hora do pau!



Escrito por Sandro Fortunato às 14h48
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:: Algo sobre o ócio

Agora acredito que o açúcar, dentre outros alimentos, embota o cérebro e é um perigo a toda criação intelectual. Desde o início desta viagem de final de ano, aumentei alguns quilos e me afastei dos computadores tanto quanto possível. Até o presente momento, nada das matérias previstas. Todas foram abortadas. Não são as férias que ando sonhando há anos, mas não posso reclamar. Estou até mesmo descansando.

O que me preocupa é essa leseira - não o blog, mas o substantivo mesmo - que só dá vontade de comer e dormir. Acordar para comer e comer para dormir outra vez. Ninguém venha falar em praia. Para não dizer que não vi o mar, passei pelas orlas urbanas de Natal e João Pessoa. Passei. O que não significa dizer que pisei a areia, tomei banho de mar ou fiquei tomando sol. Aí já é ócio muito além do suportável. Quando chegar a esse nível, aviso.

Nessas épocas junto às garotas - minha filhas - fico passivo, prestando atenção às lições para digeri-las depois. Todas as caretas, risadas, gritos e correrias são fontes de energia para mais um ano inteiro. Vez por outra, vem uma daquelas frases que fazem pensar e pensar… "Papai, sabia que quando eu fecho os olhos é igual a uma televisão?", diz Ananda, 4 anos, respondendo com outra pergunta a minha sobre se havia sonhado.

Ela não só lembra dos sonhos como é capaz de tê-los sem precisar dormir. Basta fechar os olhos. E para qualquer proposta de brincadeira da qual não exista uma contrapartida física, solta logo um "Ah, papai, faz de conta". É minha menininha me lembrando das lições de Emília.

E aí começo a crer que exista mesmo um ócio criativo. Só que ainda não sei utilizá-lo bem. Confesso que me deixei levar por essa roda viva e ainda que fugido das redações há anos, o stress do dia-a-dia ainda é meu combustível.

Por isso, para 2005, quero ser criança por mais tempo. Quero mais ócio - deste criativo - e mais tempo com minha mulher, com minhas filhas, com meus livros, comigo mesmo. Desejo mais sorrisos, mais gargalhadas, mais olhares cúmplices, mais prazer e mais descanso. Quero amar mais e trabalhar menos.

E que você também possa ter tudo isso e mais tudo que desejar. Tenha um 2005 repleto de merecidas realizações.

PS I: Escrito em 30 de dezembro de 2004 com uma preguiça enoooooorme para postar.

PS II: O Leseira volta ao normal a partir da próxima segunda. Até lá, apareço por aqui em edição extraordinária.



Escrito por Sandro Fortunato às 11h18
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