:: Entre a irresponsabilidade e a inocência, lições para o Espírito
No final de setembro, apenas duas semanas após ter começado este blog, me deparei com uma notícia terrível nos sites dos jornais de Natal. Paulo Ubarana, amigo meu, havia sido assassinado. Para quem não está sabendo do caso, ele foi atraído para uma emboscada e morto a tiros. Um espanhol (sócio de Paulo) e sua amante estão presos, acusados do crime.
Assim que li a matéria, postei uma nota no blog. Estava chocado. Isso foi no meio da noite. Pela manhã, tirei a nota e resolvi que este espaço não seria usado para isso. Escrevi a vários amigos para saber detalhes do que estava acontecendo e passei a acompanhar os desdobramentos do caso.
Mas não há como me furtar, mais uma vez, a comentar, aqui, algo do tipo.
Desta vez, a tragédia não foi com um conhecido meu, mas foi mais perto, aqui mesmo em Brasília. E o país inteiro ficou sabendo. Estou falando de Maria Claudia Del`Isola, de 19 anos, filha de educadores, que foi torturada, estuprada e morta dentro de sua própria casa por um funcionário que morava lá havia dois anos e tinha toda a confiança da família.
Como a maioria, soube da notícia na segunda-feira, 13. Na terça, o Correio Braziliense, além da primeira página quase inteira, deu 5 páginas ao assunto e o Jornal de Brasília escancarou as fotos dos acusados com a manchete “Estes monstros torturaram e mataram Tatinha”.
Corri de novo para o Leseira. Coloquei uma notinha e disse que escreveria depois. Se o fizesse imediatamente, com o sangue quente, logo após ter lido tudo que havia nos jornais e a confissão pormenorizada da garota que ajudou no crime, não sairia nada muito bom.
O assassinato de Paulo foi gerado por ganância. Um picareta assassino queria ter lucro em cima de um empresário bem sucedido. O de Tatinha foi maldade pura. Nasceu de um misto dos mais abjetos defeitos que alguém possa ter, da total ausência de virtudes em algo que, por descuido da Natureza, nasceu com aparência humana.
Não vou reproduzir o que foi dito nos jornais sobre o crime. Quem quiser que o faça, procurando nas edições do Correio e do Jornal de Brasília. Sinceramente, desaconselho a leitura. Aquilo é real e muito pior do que qualquer coisa de mais brutal que você já tenha visto na ficção. Também não vou me deter em reflexões profundas sobre a psicologia e a sociologia do crime, que dariam teses imensas.
Quem vai falar é o pai de duas meninas como o pai de Tatinha. Um pai que, por mais que há anos venha adestrando seus desejos, numa hora dessas não consegue conter a vontade de estar frente a frente com um facínora desses para poder descarregar sobre ele toda a revolta que ele provocou.
É um sentimento de justiça animalesco. Não há nada de racional nele. É a disposição natural do macho que defende sua cria, seu território. Mas há um sentimento muito maior que, nesse momento, envolve toda a família da garota. Um sentimento de amor e de fraternidade que nos afasta da condição de animais e faz com que percebamos algo muito elevado que, talvez, nem soubéssemos que existia.
Diz-se que no caminho para a verdadeira elevação espiritual são necessárias quatro qualidades: discernimento, ausência de desejos (desapego), boa conduta e amor. Quem comete um crime desses, é claro, não possui nada disso. Mas veja o quanto cada uma dessas qualidades é necessária, hoje, aos familiares de Tatinha e como isso os coloca em um caminho cheio de Luz. Reflita sobre cada uma delas e contribua para que essa Luz aumente sobre aquela casa no Lago Sul.
A total irresponsabilidade de atos selvagens não encontra na racionalidade uma forma de punição. É algo extremamente amargo para alguém minimamente civilizado engolir. Espera-se que dessa dor nasça conhecimento. “Que proveito terá a vida de alguém que apenas comete o mal?” O assassino já está condenado. A tudo o que há de pior. Por mais selvagem, irresponsável e inconsciente, uma alma dessas não tem paz. Deixemos para a polícia e para outros bandidos a manifestação brutalizada de justiça que o ser humano costuma ter. Agora, vamos cuidar dos NOSSOS. Vamos cuidar da família de Tatinha e dela também.
Como nos antigos ensinamentos, é bom lembrar que “quando um incêndio numa casa se espalha para outra casa, é certo se livrar de palha e coisas assim, que farão as chamas se propagarem”. Quando o fogo do ódio se propaga, faz-se necessário que nos livremos, em nossas mentes, em nossos corações, de tudo que possa alimentá-lo e fazê-lo crescer.
Apesar de toda revolta, vamos nos concentrar em AMOR. MUITO AMOR.
“O ódio jamais vencerá o ódio. Só o AMOR consegue vencê-lo”. Que o sacrifício de Tatinha não seja desperdiçado e, com ela, possamos ter aprendido esta lição.
Escrito por Sandro Fortunato às 08h48
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:: Mais Tatinha
Se você leu o post acima, saiba que a página de Tatinha no Orkut vem recebendo centenas de visitantes que deixam mensagens para ela e sua família.
Também no Orkut, foi criada a Comunidade Maria Claudia Del`Isola.
Participe, debata, exponha suas idéias.
Escrito por Sandro Fortunato às 14h24
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:: Gerundiando
> Batendo ponto >
Finalizando a nova versão do meu site
pessoal > Colocando material no Memória
Viva > Fazendo campanha para os
últimos dias de pré-votação no iBest. Já
votou? > Correndo para dar tempo de
escrever e deixar uns textos bacanas aqui > Agendando mil
compromissos em Natal, João Pessoa, Campina Grande, Recife, Maceió e
Fortaleza > Corrigindo os originais de uma autobiografia
(calma, não é minha!) > Querendo fazer as malas >
Precisando de dois ou três meses de férias
Escrito por Sandro Fortunato às 14h19
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:: Uma rede internacional iludiu aquela menina

Quase entendo quando alguém se joga na mais profunda ignorância sobre o que acontece além de seu pequeno mundo e declara: “não leio mais jornais, nem vejo tevê”. Se até Marilena Chauí vem fazendo isso, qualquer um tem o mesmo direito.
O “entendo” fica por conta de semanas como esta na qual somos informados de que mais de 843 milhões de pessoas no mundo não têm alimento suficiente para uma vida produtiva. Em bom português: passam fome. O “quase” fica por conta de como alguém pode não querer saber disso e, consequentemente, não fazer nada para melhorar a situação.
A FAO - Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação – diz em seu relatório anual que uma criança morre de fome a cada cinco segundos. Quantas já morreram desde que você começou a ler este texto? O número de subnutridos no mundo voltou a aumentar se comparado à década de 1990. Estima-se em 842 milhões as pessoas que passam fome no mundo.
A Unicef também divulgou seus dados. Em seu relatório sobre O Estado da Criança no Mundo, diz que mais de 27 milhões de crianças vivem abaixo da linha da pobreza no Brasil e fazem parte de famílias que têm renda mensal de até meio salário mínimo. Aproximadamente 33,5% de brasileiros vivem nessas condições econômicas, e destes, 45% são crianças que têm três vezes mais possibilidade de morrer antes dos cinco anos.
O projeto de diminuir pela metade o número de famintos no mundo até 2015 – decisão tomada em reunião de cúpula da ONU em 1996 – não deverá ser cumprido. A FAO diz ainda que a meta de redução da fome, quase tão distante hoje quanto no dia em que foi fixada, é "tanto atingível quanto custeável", e os esforços necessários para isso seriam relativamente pequenos.
Você não entende quando vê matérias sobre a obesidade dos americanos e, ao mesmo tempo, sobre a fome que mata há décadas na África? Não entende o que está acontecendo quando existe uma super safra de algum alimento e os estoques são queimados para manter o preço no mercado? Não entende quando alimentos destinados às comunidades carentes são desviados, se estragam em depósitos ou ainda são usados em época de campanha para conseguir votos? Não entende quando um animal criado para ser morto leva uma vida melhor que a de um ser humano que sequer irá comê-lo um dia?
Ache bonito e participe de qualquer campanha de combate à fome. Mas não espere nada de qualquer governo ou de qualquer empresário. Tanto menos, quanto maiores seus poderes e seus ganhos. Opressão e miséria é a fórmula usada para que eles mantenham seu status.
Faça o que você puder fazer DIRETAMENTE. Adote uma criança faminta. Faça um sopão e vá distribuir numa comunidade carente. Envolva-se totalmente com a ação e não apenas dê um trocado para aquela instituição chata que fica ligando para sua casa. Não permita que sua consciência se alivie com tão pouco.
Natal sem fome? Fome Zero? Muito bacana, mas eu quero o mundo inteiro sem fome todo o tempo. E você? O que você quer? O que está fazendo para isso?
Escrito por Sandro Fortunato às 12h34
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:: Tipo assim... rapidão
:: Alguém me diga o que é isso!
A agência Reuters noticia que “Papai Noel leva maconha a estudantes do Rio”. Segundo a nota, a polícia carioca “disse que dois adolescentes foram pegos vendendo presentes de natal na entrada de uma escola municipal perto de uma favela. Os presentes, que podiam ser abertos como ovos de páscoa, continham um saquinho de doces e um outro com maconha. Os suspeitos abandonaram os brinquedos e correram para dentro da favela quando a polícia tentou prendê-los”. As renas fizeram carreira!
:: Alguém me diga o que foi isso!
Para quem, como eu, ficou se penitenciando em casa por não assistir a uma das três apresentações de Satriani e Vai no Brasil no último final de semana, pode se martirizar um pouco mais. Alguns míseros minutos do que rolou em São Paulo estão no site Showlivre.com.
Se você não for assinante do UOL vai continuar com vontade de ver e ouvir.
:: Alguém me diga o que será isso!
Começa amanhã a décima edição do Goiânia Noise Festival. Como já disse aqui, gostaria de ver as apresentações das bandas Devotos de Nossa Senhora Aparecida (sábado) e Cachorro Grande (domingo). Só que, mais uma vez, como bom velhinho, vou ficar quietinho em casa. Mas nem estou triste. Não, também não estou resignado. É que amanhã, sexta, Cachorro Grande vai se apresentar aqui em Brasília, no Gate’s Pub, U-HU! Não vi uma linha a respeito em qualquer jornal ou site local, mas está anunciado no site da banda.
Escrito por Sandro Fortunato às 14h32
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:: Fale tudo, fale alto, Escória!
Dia desses, li no caderno Aliás (aliás, um bem sacado nome, apesar de Millôr dizer que aliás é uma palavra que a gente usa quando não tem nada melhor a dizer), do Estadão, matéria de página inteira sobre a eleição de uma “chapa zoeira”, a Escória, para o mais tradicional centro acadêmico do Brasil, o XI de Agosto, da Faculdade de Direito da USP.
Dentre outras promessas da Escória, caso fosse eleita, estava o Protuuf – Projeto Turbine Uma Franciscana, que pretendia doar próteses de silicone para franciscanas com baixa auto-estima...
A foto que mostrava os integrantes da chapa comemorando – camisetas molhadas (os que estavam com camisa), cerveja, irreverência e chapação – me fez lembrar outra “chapa zoeira” que ganhou as eleições do centro acadêmico do curso de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Norte em 1988, a Fale Tudo, Fale Alto.
Naquele ano, o lema da Escória – Balada, bebida e putaria – era vigorosamente vivido e levado a sério pelos alunos de Jornalismo que formavam a Fale Tudo, Fale Alto. Eu, aos 16 anos, seria algo que já nem lembro... tesoureiro, acho. Iria cuidar do dinheiro das cervejas.
Duas coisas, não se pode negar, nossa chapa sabia fazer: promessa e festa! Éramos muito bons nesses quesitos. Prometemos caçar os professores-fantasmas, prometemos fazer uma campanha que não sujasse os corredores e as salas de aula, prometemos levantar o nome do curso, prometemos, prometemos, prometemos... A Fale Tudo, Fale Alto tinha hino, manifesto, propostas e tudo mais que fosse preciso para caracterizá-la como uma chapa séria, algo que, definitivamente, não era.
As festas de campanha eram memoráveis. Sabe-se lá como, porque bebíamos tanto que só Deus sabe como lembrávamos alguma coisa depois. Bandas e mais bandas se revezavam no pequeno palco montado entre dois blocos de salas de aula. O som começava a rolar no intervalo, por volta de 20h30, e, claro, não tinha mais aula depois disso. As festas só acabavam com o dia claro. Os organizadores sobreviventes dormiam sobre os freezers. Veja como éramos responsáveis! Para roubarem a bebida, teriam que nos tirar dali à força!! Estávamos exaustos, mas cumpríamos nosso sagrado dever.
A Fale Tudo foi eleita e, no início de 89, viajamos para o Enecom – Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicação -, mais conhecido como Eneconha. Três dias no campus da UFPB em João Pessoa. Parecia não haver bebida suficiente no mundo para aquele povo. E parecia que o mundo iria acabar também. Depois de quase 24 horas bebendo, entrei numa espécie de pré-coma alcoólico, desses em que você não consegue mais coordenar qualquer movimento do corpo e precisa ser carregado. Depois de umas duas horas debaixo do chuveiro, com roupa, me jogaram ensopado em um colchonete na esperança de que, em algum instante, eu acordasse. Passei os três dias sem comer. Parecia grávido: olhava para comida e tinha vontade de vomitar.
Rolava de tudo. Até performance com gente nua, no refeitório, em plena hora do jantar. Um bando de porra-louca...
Voltamos e, no início do semestre, a chapa “esqueceu” de assumir. É... esquecemos. Um começou a trabalhar, outro se apaixonou, um terceiro deixou o curso e todos perceberam que ninguém queria compromisso com política estudantil. Boa mesmo era a luta para conseguir vencer. Depois disso, o que fazer? O centro acadêmico acabou sendo entregue à chapa derrotada.
Não sei se a Escória vai manter o slogan de campanha – Zoa mas faz. A Fale Tudo, Fale Alto não fez. Digo, não fez nada além de muita festa, muita diversão e de marcar um pedaço de nossas vidas com lembranças que dificilmente serão apagadas. De qualquer forma, desejo que a canalha universitária, em qualquer lugar do país, continue gritando e quebrando tradições. E que esse fogo não se apague com o peso dos anos que virão.
Escrito por Sandro Fortunato às 10h18
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:: Acerola é o caralho! Meu nome é Douglas Silva, porra!
Televisão, para mim, é meio como rádio. Eu fico só escutando, sem olhar, enquanto estou no computador. E como ouço bobagem!
Nos últimos tempos, duas coisas parecem ter se repetido tanto que me chamaram atenção. A primeira é a insistência das pessoas em perguntarem a Alinne Moraes (a bela atriz que recentemente foi eleita pelos leitores da revista Vip como a mais sexy do mundo) se ela não tem ciúmes das cenas de romance protagonizadas por seu namorado/marido Cauã Reymond com outra atriz. Os dois são jovens, bonitos, fazem sucesso, são felizes juntos... mas tem sempre alguém por perto fomentando a discórdia, a dúvida. Isso tem nome. Preciso dizer qual?
Inveja. Só pode. A profissão que os dois escolheram prevê tal situação. Nada melhor do que ser da mesma área para poder entender isso. Mas sempre tem uma língua maldita tentando semear a cizânia.
O segundo caso é de pura imbecilidade mesmo. Eu não agüento mais ouvir: “os atores Acerola e Laranjinha”. Alguém, por favor, me explique o que um jornalista tem na cabeça para abrir a boca e falar isso? Acerola e Laranjinha são personagens vividos pelos atores Douglas Silva e Darlan Cunha, respectivamente. Que tipo de informação é essa que mistura ficção e realidade? Como a mensagem chega ao espectador?
Respondo. Chega assim: “Acerola e Laranjinha, aqueles dois garotos que moram na favela, visitaram o presidente Lula”, “Acerola e Laranjinha, aqueles dois garotos que passam fome, estiveram em um circo onde deficientes físicos são artistas”. Mas Acerola e Laranjinha só existem na ficção. Douglas Silva não é Acerola nem Dadinho. Darlan Cunha não é Laranjinha nem Filé com Fritas. Leandro Firmino não é um traficante assassino chamado Zé Pequeno. Phelipe Haagensen não é Bené... Realidade é realidade. Ficção é outra coisa.
Essa mistura, além de burra, é perigosa. O que seria de Douglas e Darlan se não fosse a oportunidade de encarnarem Acerola e Laranjinha? Não freqüentariam uma escola, entrariam para o tráfico, morreriam jovens e crivados de balas. Ou seriam apenas pessoas dignas, pobres e desconhecidas. Mas o que será de Douglas e Darlan se forem obrigados a carregar os pesos de seus personagens, Acerola e Laranjinha?
Quem lembra de Fernando Ramos da Silva? Ele roubava e foi morto pela polícia em 1987, aos 18 anos, com seis tiros nas costas. Quem vai lembrar disso? Ninguém. A não ser que se fale outro nome: Pixote. Fernando Ramos da Silva foi o garoto que ficou famoso no mundo inteiro, em 1980, ao interpretar Pixote no filme de Hector Babenco. Depois disso, não conseguiu levar a carreira de ator. Semi-analfabeto, não conseguia decorar textos. Acabou virando ladrão e foi morto pela polícia. Fernando virou Pixote.
Manter a identidade é não só um direito de todos, mas uma necessidade básica para a boa manutenção da própria sanidade. Na impossibilidade de um mundo repleto de psicanalistas de plantão, seria inteligente nos mantermos conscientes de quem somos, assim como quem são os outros.
Administrar ego, id e superego já não é das coisas mais fáceis para boa parcela da população mundial. Imagine a crueldade por trás de uma ação como a de fazer uma criança acreditar que é um personagem. Imagine a criança trazendo a identificação desse personagem para o mundo real.
Já me dou por satisfeito se conseguir administrar meu próprio Eu e não for obrigado a engolir a esquizofrenia jornalística que nos cerca.
Em tempo: Meu nome é Sandro Fortunato, porra!
Escrito por Sandro Fortunato às 08h27
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:: Ou isto ou aquilo
Enquanto uns Cecíliam, outros Paulam uns, mar absoluto; outros, onze minutos uns, retrato falante; outros, mago farsante uns, romanceiro; outros, trapaceiro ambos saem do Rio e voam para a capital crianças choram, gente reza e nem um nem outro consegue ler em paz
(No avião, entre Rio e Brasília, 26.02.2004)
Durante o último final de semana, de 3 a 5 de dezembro, grandes eventos aconteceram em vários lugares do Brasil. Na capital do Rio Grande do Norte, pelo décimo quarto ano, rolou o Carnatal, auto-intitulado o maior carnaval fora de época do país. No Rio (dia 3) e em São Paulo (4 e 5), rolou o G3, encontro de Steve Vai e Joe Satriani com um terceiro guitarrista, desta vez, Robert Fripp. No próximo final de semana, tem a décima edição do Goiânia Noise Festival.
E eu aqui em Brasília, corrigindo livro, escrevendo, editando site, ajeitando foto e sem a liberdade que o dinheiro dá, mas já na contagem regressiva para botar os pés em Natal. Depois do Carnatal, claro!
Para mim, micareta é mais ou menos como jogo de futebol, só não tem bola, nem placar. Não vejo a mínima graça em vestir um trapo estampado, ficar pulando e se esfregando em um monte de gente suada ao som de músicas de gosto duvidoso. E ainda pagar por isso!
Por força da profissão, cobri algumas edições do Carnatal entre 1993 e 1998. Por força própria, evitei vários outros anos. Diferente dos foliões dos “blocos”, que ficam isolados por uma corda e vão seguindo uma banda, eu tinha acesso a todos os blocos, aos trios elétricos, aos camarotes, aos shows, aos músicos, às “celebridades convidadas”... e achava tudo isso um saco!
Até hoje não entendo porque pediram emprestado ao iorubá o nome abadá para aquela vestimenta. Mortalha era muito mais apropriado. Só morto para eu usar um troço daqueles.
Claro, nem tudo foi um martírio. Nesse meio, muitas histórias legais foram vividas, muitas fotos bacanas foram feitas, experiências pioneiras foram produzidas (como a cobertura ao vivo pela Internet em... 96, acho), conheci gente legal, aprendi um monte de coisas e sempre perdia uns 6 quilos apesar de todos os hectolitros de cerveja que eu bebia para agüentar aquilo. (“Belo profissional! Enchendo a cara em pleno trabalho!” Se você pensou ou falou isso é porque nunca me viu bebendo...)
Mas, bem... fato é que existe gosto para tudo e a indústria das micaretas ainda tem fôlego depois de década e meia. Eu também gosto de umas coisas toscas. Não é à toa que estou num pé e noutro para ir aqui ao lado, em Goiânia, no próximo final de semana, para pular no meio de um monte de maluco suado, gritando e agitando os braços ao som de muito rock`n`roll, oh, yeah! Na verdade, só duas apresentações me interessam: as das bandas Devotos de Nossa Senhora Aparecida e Cachorro Grande. O resto, o tio aqui até dispensa.
Quanto ao G3, nem vou falar mais. Passei os últimos dias em autoflagelação e me suicidando várias vezes por perder Satriani e Vai. Pior, só se o terceiro fosse Mark Knopfler ou Slash. Aí teria sido mesmo um único e irremediável suicídio.
Desnecessário desespero. Continuo aqui tocando o terror e sendo aterrorizado pela tosqueira alheia. Exercitando a diversidade, a tolerância e a harmonia, apesar de um forte desejo por uma solução final a neo-pagodeiros, melo-breganejos e axezeiros. Tirando isso, só aquela velha certeza de que, na hora de encarnar, um escroto burocrata kármico sacaneou bonito e me mandou para cá.
Vamos a mais uma semana...
Escrito por Sandro Fortunato às 08h17
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:: DO BAÚ - Nietzsche chamando

Da estante, Nietzsche me chama, lembrando você. Perguntava o que esse homem estava fazendo ali e onde você estaria. Eu a ele. Ele a mim. Era uma tarde de sábado e não esperava encontrar qualquer dos dois.
Enquanto discutiam sobre a sublimação dos desejos, desejava eu uma conversa com o velho filósofo. Talvez ele dissesse por onde você anda, se está se alimentando bem, dormindo o suficiente. Não creio que ele se preocupe com tais coisas. Mas ainda assim eu perguntaria. Ele será sempre uma ponte até você.
Ao fundo, o debate continuava. A ordem vigente reprimindo os desejos inconfessados. E Nietzsche me olhando, me inquirindo. O que me perguntava, não sei. Também não saberia responder.
Por um instante, troquei de lugar com ele. Agora ele me fitava da cadeira e eu, lombada entre outras, esperava ser dali retirado. Suas mãos me escolheriam dentre tantos. Seria especial e teria atenção dedicada por algum tempo. Você me abriria e tentaria entender o que há em mim. Para dentro de você, eu derramaria meu saber, meu conteúdo. Extasiada, você marcaria aquela passagem e voltaria a ela sempre que preciso. Ao menos lembraria se tivesse alguma importância.
Mas isso foi só por um momento. Fato é que, sobre o sereno bigode, pêlos espessos, Nietzsche continua me encarando. Eu perguntando a ele. Ele perguntando a mim. Onde estaria você e em companhia de quem se não de mim ou dele? Foi quando percebemos nossa cumplicidade e, ambos traídos, brindamos discretamente, voltando às nossas realidades. Ele, livro na estante. Eu, livre por um instante.
Sandro Fortunato - 24 de julho de 2001
Escrito por Sandro Fortunato às 11h01
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:: Dia de liquidificador
Dia frio e sem sol no Planalto. O ritual do acordar pela manhã – que
poderia muito bem não existir – começa a fazer com que minha cabeça procure algo
além das milhares de coisas agendadas. É uma fuga, eu sei. E das
boas.
O liquidificador de textos e imagens começa a funcionar.
Lembrei logo de umas crônicas escritas lá por março/abril de 2001 sobre dias
escuros e manhãs frias. Coisa de quem estava vendo Saturno se aproximar. Lembrei
também da crônica de Vinicius quando da mudança da capital de nosso
Rio para cá. Nela, o poeta define maravilhosamente o ser carioca.
“Ser carioca é não gostar de levantar
cedo, mesmo tendo obrigatoriamente de fazê-lo; é amar a noite acima de
todas as coisas, porque a noite induz ao bate-papo ágil e descontínuo; é
trabalhar com um ar de ócio, com um olho no ofício e outro no telefone, de onde
sempre pode surgir um programa; é ter como único programa o não tê-lo; é estar
mais feliz de caixa baixa do que alta; é dar mais importância ao amor que ao
dinheiro. Ser carioca é ser Di Cavalcanti”
E aí vem a parte que vivo todos os dias... “Que outra
criatura no mundo acorda para a labuta diária como um carioca? Até que a mãe, a
irmã, a empregada ou o amigo o tirem do seu plúmbeo letargo, três edifícios são
erguidos em São Paulo. Depois ele senta-se na cama e coça-se por um quarto de
hora, a considerar com o maior nojo a perspectiva de mais um dia de
trabalho; feito o quê, escova furiosamente os dentes e toma a sua
divina chuveirada”.
Todo dia repito o mantra: “É incrível, mas eu só acordo
de verdade depois de tomar banho”.
“Ah, essa chuveirada! Pode-se dizer que constitui um
ritual sagrado no seu cotidiano e faz do carioca um dos seres mais limpos da
criação. Praticada de comum com uma quantidade de sabão suficiente para apagar
uma mancha mongólica...” Isso sou eu.
Outro ponto que gosto muito nessa crônica é o final,
quando ele pergunta: “Pode-se lá chamar um cara assim de guanabarino?” Pois só
outro dia fui perceber que nasci no Estado da Guanabara! Que velho que eu sou! A
fusão só aconteceu em 1974. Eu nasci dois anos antes. Mas o Rio era a capital e
todos nunca deixamos de ser chamados cariocas. Todos nascidos na casa de
branco.
Mas o liquidificador continua ligado e eu não sei o que
escrever hoje. Com tanto trabalho, só tenho pensado em assuntos que ficariam
meio pesados para este blog. Afinal, quando pensei neste Leseira Geral, há dois meses e meio, era para
exercitar minha idiotia.
Nisso, baixa Drummond com Hoje não
escrevo. Teimoso, insisto. Fechado em casa, com horror a acreditar
que existe um mundo lá fora, escutando as frases do mineiro batendo em minha
cabeça: “O que você perde em viver, escrevinhando sobre a vida. Não apenas o
sol, mas tudo que ele ilumina”. Diz isso para logo depois espetar quem vive de
escrever: “você esperando que os outros vivam para depois comentá-los com a
maior cara-de-pau”. E não é isso mesmo? Quem mandou não ser médico ou
engenheiro? Quem mandou não nascer para isso e sim para aquilo?
A propósito, morro de medo que uma filha minha anuncie um
dia: “Pai, eu vou ser médica” ou “Pai, vou fazer vestibular para Direito”. Seria
a morte para mim! “Filha, pense bem, você não quer ser artista plástica
ou escritora? Quem sabe atriz de teatro? Você tem que pensar no seu
futuro...” Talvez a perspectiva de que a prole seja mais ajuizada me amedronte
consideravelmente.
E aqui estou casmurro e indisposto para a tarefa de
encher (com a licença do poeta) a tela de sinaizinhos
pretos. Concluo que não há nada a dizer e declaro que hoje não tem crônica, nem
textos do baú, nem “tipo assim... rapidão”, nem qualquer outro
textículo.
Fico sonhando com o mar e a lagoa que não podem
ser vistos, seja pelas nuvens que os cobrem ou pela cegueira de minha
janela candanga.
Vou cumprir a labuta diária com todo nojo que me é
peculiar. Amanhã – quem sabe? – eu volto.
Escrito por Sandro Fortunato às 10h48
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:: Tipo assim... rapidão
Calmamente...
... vou voltando. Ah, vai, foi só um dia! Tá, dois, mas eu passei aqui no sábado. Diferente do resto do ano, quando faço milhares de coisas ao mesmo tempo, entre dezembro e maio tenho milhões de coisas a fazer. Nunca uso as frases “estou sem tempo para nada”, “estou ocupadíssimo”... A maioria das pessoas que conheço que fala estas frases não faz nada ou, no mínimo, administra muito mal o seu tempo. Se não tem tempo, deixe de dormir, você vai poder fazer bastante isso depois que morrer. Então vamos lá...
Quanto vale um pedaço de História?
Os sebos de Brasília não são lá essas coisas. A cidade é nova, portanto não se encontram livros e revistas tão antigos assim. Para mim, que trabalho principlamente com períodos anteriores ao do surgimento da cidade, é terrível. Hoje, conheci um sebo que se mudou de Taguatinga (uma cidade satélite) para o Plano Piloto há dois meses. Bonitinho, organizado e sem revistas anteriores a 1960. Saí com um exemplar de 1981 de A vida de Lima Barreto, livro que já tenho, por apenas 8 reais. Tem uma iconografia diferente e que complementa a da edição que já possuía. Esse livro foi reeditado há pouco tempo e está nas livrarias por 35 reais em média.
Dei uma olhada na pequena estante de quadrinhos e encontrei muito Tintim e Lucky Luke com preço para colecionador rico, o que (ainda) não é o meu caso. Vi que as revistinhas do Monstro do Pântano, que eu colecionava no final dos anos 80/início dos 90, estavam por 4 reais cada, mas preferi levar um exemplar do álbum Blagues de 1971. Cada álbum reúne as seis edições de um ano da revista de mesmo nome. São centenas de piadas e desenhos dos melhores humoristas franceses. De cara dá para perceber que uma piada pode ser muito mais velha do que se pensa. Na capa do álbum de 71 (ao lado), aquela que você já conhece sobre não poder tomar banho no lago: “Pode continuar, não é proibido tirar a roupa”. Preço do mimo: módicos dois reais.
Vontade de potência
E finalmente chega às bancas (pelo menos aqui em Brasília), o primeiro volume de Vontade de potência, de Nietzsche, pela Coleção Mestres Pensadores. A coleção vinha acompanhando a revista Flash, mas de algumas semanas para cá os livros podem ser adquiridos separadamente por apenas dois reais.
Apesar da bobagem editorial na quarta capa, na qual se lê “considerada por muitos como a obra mais importante” de Nietzsche, é realmente uma boa oportunidade para comprar tal título que há muito não ganha uma edição em português e que deve ainda demorar bastante para ser publicado pela Companhia das Letras na excelente tradução de Paulo César de Souza.
Escrito por Sandro Fortunato às 14h34
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