:: Tipo assim... rapidão!

:: Flog do Memória Viva

 

Preciso organizar melhor meu arquivo pessoal de fotos. Só as digitais devem passar de 20 mil. Talvez de 30 mil. No meu Flog, coloco diariamente uma ou duas, variadas, sem compromisso. Nesta segunda está sendo lançado o Flog do Memória Viva com imagens inéditas das matérias que faço para a seção Memória Viva Hoje. Já estão por lá Carlos Alberto, da Toca do Vinicius (Ipanema – Rio); Maristela Calil, dona do gigantesco sebo Calil (São Paulo) e Anselmo Duarte, único diretor brasileiro a ganhar a Palma de Ouro (Salto de Itu –SP). Confira.

 

 

 

:: Hein?!!!

 

Você viu Pedro Bial perguntando a João Moreira Salles, diretor do documentário da campanha de Lula em 2002, “que necessidade era essa que ele (Lula) tinha de falar? Em nenhum momento ele pára de contar história!”

 

Tudo bem que ele, Bial, seja retardado, mas o Fantástico não tem mais editor?

 

E as respostas de Salles criaram um abismo entre a inteligência e profissionalismo de um e a imbecilidade do outro...

 

Pensando bem... burro sou eu que assisto Fantástico e ainda me surpreendo com as besteiras do Bial.



Escrito por Sandro Fortunato às 13h19
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:: Mezzo Peer Gynt, Mezzo Pequeno Príncipe

Esta semana concluí que ando me sentindo assim: meio Pequeno Príncipe, meio Peer Gynt. A conclusão chegou através da eterna preocupação deste último sobre a obrigação que todo homem tem de ser fiel a si mesmo. Do lado Pequeno Príncipe, ando com o sentimento de que o que é importante, a gente não vê.

Levantar tudo que levou a me sentir assim, seria demasiado enfadonho. Fiquemos então somente com as conclusões.

Faço algumas coisas das quais não gosto. Não por pura idiotice, mas por desentendimentos entre minha sorte e a necessidade de me manter vivo. Mas alguém de Áries com ascendente Escorpião não é, definitivamente, uma pessoa fácil de se prender ou domar. Então viajo. Viajo muito por todos os lugares e até por planetas diferentes para compensar essas vãs tentativas de me aprisionar.

Isso também deve ter sido culpa dos meus pais sempre solícitos com os vendedores de livros infantis que batiam à porta lá de casa. Na inocente intenção de agradar ao filho único, não podiam imaginar que aquelas histórias iriam virar minha cabeça. Mas o Pepê – o Pequeno Príncipe – me ensinou que as crianças devem ser muito indulgentes com as pessoas grandes. Então eu os perdôo. E agradeço pelo mesmo motivo.

A fartura de loucas histórias que habitam minha cabeça e se confundem com a minha vida dita real me levam a mil aventuras. A maior delas está no desejo de, como Peer Gynt, ser imperador do mundo. Mas para isso, como é sabido, falta realizar a idéia firme de ser fiel a mim mesmo.

E como ser fiel a mim mesmo em um mundo cheio de regras, cheio de o que para mim são distorções? “Não é para compreender”, diria o acendedor de lampiões do quinto planeta visitado por Pepê, “regulamento é regulamento”. E seguindo seu exemplo, deveria fazer com que minha ocupação fosse bonita. E útil, por ser bonita.

Tento, mas o lado Peer Gynt, rebelde, sempre grita e faz lembrar que se eu quiser comandar, é preciso me bastar, não depender de ninguém. Não quero ser um rei como os outros, que simplificam o mundo e acreditam que todos os homens são súditos. Quero ser imperador de mim mesmo. E para isso preciso aprender a me julgar. E é sempre bem mais difícil julgar a si mesmo que julgar os outros.

Durante o julgamento, percebo que muitas de minhas aventuras nem sempre estiveram ao lado da justiça e da moral. Mas de quais justiça e moral estamos falando? Em que estão baseadas? Quem as ditou? Todos os juízos se desenvolveram ilogicamente, portanto são injustos.

Sempre tentei ser apenas eu mesmo. Sempre me acusei e até me culpei por isto.

Percebo que os homens do meu planeta cultivam cinco mil rosas num mesmo jardim e não encontram o que procuram. No entanto, o que eles buscam poderia ser achado numa única rosa. Mas os olhos são cegos. É preciso buscar com o coração. É um grande enigma e, para vencê-lo, luta não é necessária. É preciso suavidade.

Portanto, se Deus me entrega o cálice da dor para beber agora, é porque sabe que sou capaz de tomar tudo. Que, como compreendeu a rosa do B 612, é preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas.

Engessados pelo que nos ensinaram – a sermos qualquer coisa, menos o que realmente somos – se andamos sempre para frente, não podemos mesmo ir longe. Nessa busca em descobrir onde se situa a sede dos sonhos, de onde eles nascem, tenho todos os caminhos a minha frente. É só escolher. Mais uma vez.

Pronto. Está dado o laço e nada de mim, assim como tudo de mim, aí está. Deixemos de bobagens. Pois não sou príncipe nenhum, nem tenho qualquer riqueza. Não valho nada. E já estou indo embora!

Chegou a sua vez de falar...



Escrito por Sandro Fortunato às 18h55
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:: Eu tenho medo do mesmo

É raro, portanto aproveite esta confissão pública de medo. Antes, uma explicação aos meus conterrâneos cariocas: o mesmo do qual estou falando é o meixmo mermo que você está pensando.

Sim, eu tenho medo do mesmo. A taquicardia começa quando piso no hall de entrada de qualquer edifício. Já começo a olhar com cuidado. A respiração fica mais ofegante à medida que me aproximo do elevador. É lá que, dizem, ele costuma aparecer. O aviso é claro: “Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se neste andar”.

Nunca encontrei o mesmo. Penso que ele seja parente da Loira do Elevador que, por sua vez, é irmã da Loira do Banheiro. É uma família assustadora! E o mesmo deve ser realmente perigoso. Afinal, o aviso está lá por força de Lei, pelo menos aqui em Brasília:

Lei de número 3212, de 30 de outubro de 2003. Art. 1° Ficam os condomínios de edifícios residenciais, comerciais e de prestação de serviços e outros estabelecimentos congêneres, públicos ou particulares, dotados de elevadores, obrigados a afixar junto às portas externas desses equipamentos plaquetas de advertência aos usuários, com os seguintes dizeres: “Aviso aos usuários: Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se neste andar”.

E o não cumprimento prevê multa. Imagine o grau de periculosidade de tal criatura para causar preocupação a ocupadíssimos deputados!

Nunca conheci alguém que tivesse encontrado o mesmo. Na comunidade Eu tenho medo do mesmo no Orkut (você pensava que só eu tinha medo dele?), há uma intensa discussão entre seus mais de 250 membros (!!) sobre quem é o mesmo.

Um de seus mais aplicados agregados, Rodrigo Domit, disse que o porteiro de seu prédio já viu o mesmo: “o elevador do prédio tem câmera de segurança e o porteiro jura que uma vez ele viu o mesmo no monitor... ele contou que viu um cara passando ali na portaria e depois viu o mesmo entrando no elevador... o cara ele nunca mais viu... mas o mesmo ele diz que foi embora depois de um tempo e que ele só escapou do mesmo porque se escondeu assim que o mesmo voltou para o elevador”. Domit levanta ainda a hipótese do mesmo não ser apenas um e lembra que existe até um partido que é contra eles, o PSTU, que sempre faz propaganda na TV dizendo: “Chega dos mesmos!

Mas por que resolvi escrever sobre o mesmo? Para dizer a todos que não precisam mais se preocupar. Hoje, em matéria sobre a morte de Iasser Arafat, descobri que o mesmo morreu e será enterrado em Ramallah, bem longe daqui. Estamos livres!

A pergunta agora é: existe, mesmo, vida após a morte?



Escrito por Sandro Fortunato às 15h03
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:: Aniversários

O Cruzeiro – 76 anos

A revista O Cruzeiro foi lançada há exatos 76 anos. Se você não sabe, em outubro de 2003 lancei a versão on line da revista no site Memória Viva. Já são mais de 30 edições disponíveis. Hoje tem uma nova... lá pro final da tarde.

 

 

Torquato Neto – 60 anos

O poeta tropicalista Torquato Neto estaria completando 60 anos ontem, quando também foram completados 32 anos de sua morte. Mayra Cunha, a Roberta Marinha do blog Milk Shake, prima de Torquato, não deixou a data passar em branco e escreveu um texto sobre o piauiense. Nada besta, pedi para reproduzi-lo no blog do Memória Viva. Vale a pena conferir.



Escrito por Sandro Fortunato às 03h38
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:: Nhac, nhac, nhac... não tem mais respeito!

O bom, velho e confiável Jornal Nacional nos diz que um juiz de São Gonçalo (RJ), por força de uma liminar, agora só pode ser chamado de "doutor" ou "excelência" pelos condôminos e funcionários do seu prédio.

Nem a matéria na TV, nem o site Globo Online explica se o juiz tem ao menos doutorado ou apenas se baseia na convenção de que médicos e advogados são todos doutores.

Soberba à parte, que isso é problema dele com os juízes do outro lado, imediatamente me preocupei com meus amigos que tanto batalharam por seus doutorados. Aqueles que estudaram dia e noite, foram para outros países, quase não dormiam, que eram pai-mãe-profissional-estudante-tudo-ao-mesmo-tempo-agora... Todos doutorados, ganhando bem mas não tanto quanto um juiz. Estou me perguntando: como eles devem ser chamados agora?

Tentei criar uma escala evolutiva para pronomes de tratamento. Por enquanto está assim:

Médico e advogado = doutor
Juiz = doutor, excelência
Mestre = Vossa Magnificência
Doutor = Vossa Eminência Reverendíssima
Pós-Doutorado = Vossa Santidade

E nem pense que, se eu continuar a lista, chamarei alguém de Deus. Afinal, Deus nunca recebeu PhD portanto não está acima da classificação já mostrada. Nem é preciso lembrar que Ele teve só teve uma publicação principal, que estava em hebraico, não teve nenhuma referência bibliográfica, não foi publicado em um jornal de referência... Deus é um fracasso acadêmico! Títulos são para juízes.

Mas, ora, Meretríssimo Juiz, o que esperar da língua de uma sociedade tão prostituída? Não adianta citar Octavio Paz, até porque quase ninguém conhece o homem, e dizer que quando uma sociedade se decompõe a primeira coisa que se corrompe é a linguagem. Já passamos dessa fase há muito e, sinto explicar-lhe, não era isso que o último mandarim intelectual estava querendo dizer.

Vivemos em outro tempo. Veja a foto que ilustra este textículo. Em um mundo onde pombos cagam na cabeça de santos, o doutor está esperando algum respeito de vizinhos e porteiros?

E você que acaba de ler isto, responda aí nos comentários: De acordo com seus estudos e sua profissão, como você quer ser tratado? Ah, e desculpe-me pelo você...



Escrito por Sandro Fortunato às 11h42
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:: Chame do que quiser...

Se você está achando que sensacionalismo em Brasília é exclusividade do Correio Braziliense, engana-se. A forçada de barra da capa da mais recente edição da revista Brasília em Dia que o prove. Com a original chamada "A arte imitando a vida", a revista apresenta um desenho de D. Lia, mãe de Pedrinho, batendo em Vilma, a sequestradora do menino, numa alusão à surra que a personagem Maria do Carmo deu recentemente em Nazaré, na novela Senhora do Destino.

Seria mais propício, "A arte imita a arte", já que o desenho imitou a novela e Dona Lia, apesar da compreendida vontade, nunca surrou ninguém.

Apesar da apelação, vale a pena ler a entrevista e conhecer os sentimentos da mãe que teve seu bebê roubado. Leia aqui.



Escrito por Sandro Fortunato às 11h49
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:: Estados Unidos do Méier

O Méier, para quem não conhece, é algo que precisa ser explicado. Trata-se de um bairro um tanto diferente dos da maioria da Zona Norte carioca. Tirando ir à praia, dá para fazer praticamente tudo sem sair de lá. É um bairro bom de se morar, que ainda tem “cara de Rio dos bons tempos”. Ou pelo menos era, de quando nasci até meus 14 anos.

Eu não morava exatamente no Méier. Nasci e fui criado em Todos os Santos, que é um dos bairros do chamado “Grande Méier”. Sempre foi meio difícil explicar onde era Todos os Santos. Também tem gente de Cachambi, Pilares, Abolição, Del Castilho, Engenho Novo, Engenho de Dentro, Lins e Piedade que prefere dizer que mora no Méier.

Pergunte a alguém onde fica o Norte Shopping. Todo mundo vai responder: “No Méier”. Mas não, fica em Todos os Santos. É o tal do Grande Méier.

Na minha infância e início de adolescência não existia Norte Shopping. Então o grande lance era ir ao Méier jogar fliperama ou, para os chegados, “jogar flipper”. Eu era alucinado em Fantastic! E também na lendária máquina Cavaleiro Negro, que “falava” com a gente.

Ah, e tinha os cinemas. O Paratodos, que virou, digamos, centro de reuniões de crédulo rebanho, e o Imperator, dentre outros. Era no Paratodos que via os filmes dos Trapalhões. Lá também vi E.T., Fúria de Titãs (depois um must da Sessão da Tarde) e Num lago dourado, último filme de Henry Fonda e meu primeiro “filme sério” no cinema. O Imperator virou casa de shows, mudou de nome e hoje já nem sei como se chama ou se funciona alguma coisa lá.

Cada um ficava de um lado do Méier. Explico: o bairro é dividido por uma linha de trem. Os dois lados do Méier são um mistério. Por exemplo, para quem mora em Todos os Santos, Pilares, Cachambi e Abolição, o “lado de cá do Méier” é onde tem a praça, as Sendas e o Corpo de Bombeiros. O “outro lado do Méier” é onde estão o Colégio Metropolitano, a Dias da Cruz e os (falecidos) Imperator e Mesbla. Então, se você não estiver no Méier e alguém fala que tal coisa fica desse ou daquele lado, procure saber a que esse ou aquele a pessoa está se referindo.

No meu tempo (expressão de quem está ficando velho), andar no Méier era muito seguro. A praça não era cercada como é hoje e os lambe-lambes como o Seu Lobo já estavam por lá, mas não com Polaroids. As pessoas já não gostavam das passagens subterrâneas que ligavam os dois lados do Méier. Eram sujas, fediam muito e havia o perigo de topar com algum ladrão. Lembro de uma vez, em meados dos anos 80, quando foi encontrado um bebê na escadaria de uma delas. Diziam que a mãe havia dado à luz ali mesmo. Revoltadas, as pessoas praguejavam contra a mulher que deixara a criança morrer.

Um mito – se não um fato! – do Méier era o das pernas das alunas do Metropolitano. Todas tinham pernas grossas. Diziam que a Educação Física era muito puxada e que se entrasse alguma menina de perna fina, podia esperar que no ano seguinte ela já estaria com pernões. Eu achava que era pré-requisito para ser admitida no colégio. Tem pernão? Então pode fazer a matrícula. Hoje acho que as meninas do Méier são bonitas mesmo e ponto.

Teatro infantil na Igreja Coração de Maria também era programa certo nos finais de semana. E se eu for falar de todas as lembranças que tenho do Méier, escrevo um livro e não um post. Em breve, falarei das casas que Lima Barreto morou em Todos os Santos. Éramos quase vizinhos (com uma diferença de 50 anos) e só descobri isso após anos fora do Rio. Depois eu conto...



Escrito por Sandro Fortunato às 15h12
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:: Queridos camelos

No início, eu só tinha olhos para minha berlinetinha azul. Ainda guardo as fotos de algum aniversário lá pelos 7 ou 8 anos onde, junto a outros presentes, ela imperava, poderosa, senhora de si e de mim também. Em minha fragmentada memória, às vezes, penso tê-la pedido de Natal. Lembro de ter recebido uma carta do Papai Noel, família reunida para ouvir a leitura que - é claro! – eu fiz em silêncio. Afinal, nada mais pessoal do que uma carta. Ainda mais do Papai Noel.

- Já leu?
- Já.
- E aí?
- Ué! E aí que ele vai trazer.
- E só? Ele não disse mais nada?
 
O que estavam querendo insinuar com aquela pergunta? Será que meus pais haviam aberto e leram antes a carta que Papai Noel se dignou a escrever para mim? Aquela insinuação parecia ter alguma coisa a ver com o pito que eu recebia na carta pelo meu comportamento. Eu ia ganhar a bicicleta, mas fosse mais obediente ou o próximo Natal poderia ser menos alegre.

Talvez a berlineta aparecesse na foto do aniversário, quase 4 meses depois do Natal, para provar que era a preferida, o que havia de mais importante em minha vida.

No início, eu só podia andar dentro da vila. De preferência, supervisionado por um adulto. Em geral, o astuto vigilante, era meu avô Moacyr. Limitado àqueles poucos metros e à paisagem conhecida desde que nasci – muro de um lado, casas do outro – resolvi que deveria acontecer algo que fizesse minha berlinetinha valer a pena. Então minha primeira providência foi aprender a tirar fino do carro do vizinho, que tinha brigas nelsonrodrigueanas com meu pai. A cada investida minha passando a milímetros da lateral do carro, meu avô ficava mais amarelo que o pobre fusca que eu fazia de alvo. Não podendo conter minha vocação para dublê e para não correr o risco (sem trocadilhos) de outra briga e a desonra de ter que pagar o prejuízo de um arranhão na lataria do fusquinha, a decisão de que eu poderia andar na rua veio rápido.

Quando eu – filho único, cabelo sempre alinhado e roupinhas combinando – ganhei a calçada e exibi minha magrela, logo percebi que iria ganhar o respeito dos outros meninos da rua. Mesmo que tudo fosse uma tremenda falsidade com a única intenção de pedi-la emprestada para uma volta. Nunca! Eu morria de ciúmes. E havia sido exaustivamente recomendado para que não fizesse isso.

Muitas bicicletas apareceram. Mas nenhuma como a minha. Nova. Brilhando. Caloi. Foi um garoto franzinho, dentuço, loiro e que andava sempre sem camisa que, com um certo olhar desafiador, ousou fazer frente ao meu motivo de orgulho. Leo tinha uma bicicleta parecida, só que vermelha – meio chegada pro rosa –, já um tanto rodada, provavelmente encostada pela irmã mais velha. Logo ficamos amigos e diariamente subíamos e descíamos a rua alucinadamente. A vila virou pista de teste para as primeiras piruetas. Aprendemos a empinar, a derrapar e ficávamos cada vez melhores em tirar fino dos carros. Com o tempo, começamos a ir cada vez mais longes: outras ruas, outros bairros,...

Não lembro quando troquei a berlineta por uma Caloi 10. Só sei que berlinetinha era bicicleta para criança e uma Caloi 10... ainda mais como a minha – sempre especial – cinza metálico, pneu largo e com 4 dedos no quadro. A última leva dessas. Eu não sabia que importância ou que diferença fazia, mas tão logo alguém observou estes detalhes, passei a repeti-los como uma ladainha para quem se aproximasse.

Quando asfaltaram “o beco” (como era conhecida a travessa que ficava em frente à vila onde eu morava), a grande onda passou a ser vir embalado da rua de cima e fazer a curva fechada – uns 90 graus – na maior velocidade possível. Por sorte, nunca ninguém deu de encontro com um carro ou atropelou alguém. Uma vez, quando já estava me achando o ás e vivia montando e desmontando a bicicleta, fiz a manobra com precisão cirúrgica e esperei os colegas completarem a brincadeira. Todos reunidos, alguém sugeriu: “Vamos outra vez?” Ao que, já concordando, levantei a parte dianteira da bicicleta para colocá-la em sentido contrário. Ao fazer isso, a roda da frente caiu. Estava solta. Se tivesse caído durante a brincadeira, provavelmente eu não estaria contando a história...

Também foi graças a Caloi 10 que comecei a exibir minhas pernas. Quando eu parava para conversar com alguma garota, invariavelmente colocava uma perna no chão e apoiava a outra no quadro. Uma mão apoiada nela por alguns segundos ou algum comentário do tipo “que pernão, hein?” sempre acontecia. Também foi nessa época que passei a não ter “tanto ciúme” de emprestar a bicicleta. Quando uma das garotas pedia para dar uma volta, eu imediatamente emprestava e rendia graças aos céus por aquela bicicleta ser minha. A garota se afastando, quadris empinados, olhar para trás como quem pergunta “tô fazendo direitinho?”, era a visão dos céus.

Algo estava acontecendo e me fazendo esquecer das bicicletas. Mas as garotas da Major são uma outra história.



Escrito por Sandro Fortunato às 11h30
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:: É Flórida mesmo!

Olha a alegria da criança aquecendo o dedinho para pegar no joystick outra vez!

Pior que Bush ganhar é aturar a mídia em torno disso. No portal do Estadão, apareceu logo: “Mercado comemora reeleição de Bush”. Tá falando de quê? Das filiais de Ohio e da Flórida daquela grande franquia a Little Market Two Brothers? E agüentar o Macaco Simão e sua homomania: “Se o papa é pop, Bush é bicha”. Give me a break, please!

Mas é o seguinte, agora é cada um por si e Deus por todos. Agarre-se com quem puder! Tá valendo tudo: São Judas Tadeu, Inri Cristo, Edir Macedo... Eu já passei um e-mail pro Padre Merrin porque acredito que só mesmo ele para exorcizar aquele diabo da Casa Branca.

Só tenho mais duas coisas a dizer: 1) cada povo tem os políticos que merece e 2) nunca pensei que fosse dizer isso, mas... leia Sidney Sheldon enquanto ainda há tempo!

Se houver amanhã, estarei por aqui.



Escrito por Sandro Fortunato às 21h54
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:: E a polícia foi dar lá em casa...

Domingo, meio de um feriadão, 9h30 da madrugada. Toca o interfone. Detesto interfone! Toca de novo. Levanto e atendo. Num mau humor daqueles, cuspindo fogo. É a polícia.

- Aqui é o cabo Fulano. Gostaria de falar com o senhor.
- Sobre...
- Sobre o roubo de um carro. O senhor poderia descer aqui.
- Só um instante.

Joguei uma água no rosto, vesti qualquer camiseta e desci ainda com o cabelo todo desgrenhado. Chegando lá embaixo:

- Foi o senhor que tocou o interfone?
- Foi. Qual o seu nome?
- Sandro.
- Não é Luís Felipe?
- Não.
- O senhor não tem um Celta prata?
- Nem Celta, nem prata, nem qualquer carro de cor alguma.
- ...

O cara me acordou porque não sabia encontrar um endereço!

- Ah, desculpa!
- Desculpa é o cacete! Você me acorda, vem tirando chinfra de “cop”, fica com essa porra dessa sirene ligada, me faz descer três andares, o que significa que eu vou ter que SUBIR três andares, vê que fez merda e vem com esse “ah, desculpa”?
- Ah, mas...
- Mas é o cacete de novo! Onde é que você estava todas as vezes em que eu chamei a polícia  quando algum maluco ligava o som nas alturas às 11 da noite? Você apareceu para pelo menos tocar no interfone dele? E da vez que eu vi dois caras tentando arrombar uma loja aqui mesmo no meu bloco? Você ou algum colega seu veio até aqui? E daquela vez que, da minha janela, eu vi um bando de desocupados cheirando cola e fazendo baderna, você apareceu?
- É que...
- “É que” de cu é rola! Aproveita e me tira uma dúvida. Por que é que policial brasileiro tem físico de quem vai concorrer ao posto de Rei Momo ou então é magrelo igual você e precisa botar um monte de coisa por cima para parecer que tem físico de homem?
- Senhor...
- Senhor tá no céu, ô, mané! Já viu teu braço e já viu o meu? Tem medo de levar uma porrada não?
- Desculpa, é que...
- Já disse que desculpa é o cacete e que “é que” de cu é rola. Você sabe com quem está falando? Com um cidadão respeitável que atendeu sua medíocre solicitação de descer até aqui para falar com você. Se eu tivesse feito a chamada, você perguntaria quem eu era ao interfone. Então acho que você estava tentando falar com um “suspeito”. Se alguém fosse suspeito era só ficar em casa, você não poderia entrar mesmo! E ainda teria feito a cagada de avisar ao cara. Mas tu é burro, mermo, hein?

Claro que a segunda parte do diálogo não aconteceu. Ou você pensa que tem Internet na cadeia? Depois do pedido de “desculpas” eu informei ao gentil policial onde ficava o endereço que ele procurava. Depois subi, atualizei o blog, respondi aos e-mails e escrevi este textículo. Tirando os momentos de ira por ter sido acordado, eu realmente gostaria de ter feito as perguntas ao policial. Na boa. Só pra entender o funcionamento da polícia. Mas, prometo: vou até a Ouvidoria da PM tirar uma dúvidas e depois conto  a vocês.



Escrito por Sandro Fortunato às 00h01
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:: Especial Finados - Quarto e último dia

:: Do Samhuimm ao Dia das Bruxas

O Samhuimm marcava o final/início do ano celta. No esquema óctuplo que marcava o ano daquela civilização, este era um festival atípico, que durava três dias: de 31 de outubro a 2 de novembro.

Durante esse período, a ordem era abolida e “as pessoas faziam loucuras, os homens se vestiam de mulheres e as mulheres de homens”. Bem, isso parecia loucura há mais de dois mil anos... Os cavalos ficavam soltos e as crianças batiam nas portas dos outros pedindo doces e presentes.

O Samhuimm era conhecido como o tempo do não-tempo, quando o véu entre os mundos está mais tênue. Durante o festival, os mortos eram reverenciados como espíritos vivos das pessoas amadas e como guardiões da raiz da sabedoria da tribo.

Com a chegada do Cristianismo, o Samhuimm passou a ser o Halloween (31 de outubro), Todos os Santos (1 de novembro) e Finados (2 de novembro).


:: O suicídio na música brasileira

O suicídio é um tema incomum na música brasileira mas é recorrente na obra de Renato Russo: “Ninguém sabe o que aconteceu / Ela se jogou da janela do quinto andar / Nada é fácil de entender”.  Clarisse, de Uma outra estação (álbum do Legião lançado após a morte de Renato) não havia sido incluída em CDs anteriores porque temiam que poderia causar uma onda de suicídios. Não fala diretamente, mas sugere: “E Clarisse está trancada no banheiro / E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete / Deitada no canto, seus tornozelos sangram”. Dezesseis, de A Tempestade (de longe, o mais melancólico de todos os álbuns da Legião) também sugere, mais declaradamente, o suicídio de Johnny no final da letra: “E até hoje, quem se lembra / Diz que não foi o caminhão / Nem a curva fatal / E nem a explosão / Johnny era fera demais / Pra vacilar assim / E o que dizem é que foi tudo / Por causa de um coração partido”. A versão de Metrópole (gravada no Dois) dos tempos do Aborto Elétrico é a mais punk: Faça um favor a si mesmo: cometa suicídio / Se jogue do andar mais alto de um dos seus edifícios. A versão gravada é completamente diferente.

Este é um excerto de um texto meu, escrito em 2001 – Malditos Arianos – já indicado aqui. Fala sobre Renato Russo, Cazuza e Baudelaire.


 :: Dicas de leitura – Druidas e Comunicação de massa

Encerrando este “Especial Finados”, indico dois livros bem interessantes. O primeiro é Elementos da Tradição Druida (Ediouro), de Philip Gar-Gomm. É uma introdução bem básica e didática às tradições do povo celta. O outro é Morte em derrapagem – Os casos Corona e Cazuza no discurso da comunicação de massa, de Antônio Fausto Neto. O subtítulo já diz tudo. Creio que esteja fora de catálogo, portanto, vá aos sebos. Leitura interessante para jornalistas e estudantes de comunicação.



Escrito por Sandro Fortunato às 15h11
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:: Especial Finados - Terceiro dia

O texto que segue foi escrito em julho de 2001. Eu havia passado recententemente pela experiência de um "provável suicídio" de um colega e estava querendo exorcizar todo o clima que o episódio havia provocado. Algumas das situações descritas se referem a outras pessoas que conheci e tiveram a péssima idéia de acabar com suas próprias vidas.

Curiosidade sobre o outro lado

Ontem pensei em me matar só por curiosidade de ver como é o outro lado. Mas comecei a pensar e, como em toda loucura, quem pensa não faz. Primeiro lembrei de espíritas e espiritualistas dizendo sobre o arrependimento de quem comete suicídio, da penúria e dos sofrimentos que os acompanham por anos a fio, do apego ao local onde aconteceu o derradeiro ato. Depois um pensamento muito pior se apoderou de mim. E se não tiver outro lado? Se para os potenciais suicidas, isto, como certeza, é o maior motivo para buscar o fim, no meu caso me deixou desesperado. Afinal, eu não queria me livrar de nada, estava apenas curioso sobre o lado de lá.

Passei coisa de uma hora entretido com estas duas hipóteses: a do longo arrependimento (o que mataria minha curiosidade mas seria péssimo) ou da frustração de não haver outro lado (se bem que já seria tarde demais para me sentir frustrado). Foi aí que outro pensamento ainda pior tomou conta de mim. A do ridículo da morte do suicida.

Digamos que eu escolhesse cobrir o fogão com um cobertor, abrir o gás e meter a cabeça dentro do forno. Imagine o ridículo de me encontrarem de quatro no meio da cozinha! Pior se isso demorasse a acontecer e eu já me encontrasse em rigidez cadavérica. Imagine ser enterrado de quatro! Ou ter o corpo todo serrado para ficar direito no caixão. Opção abortada.

Enforcamento também não. Fiquei pensando naquela brincadeira de adivinhar a palavra e me imaginava como um bonequinho com pernas e braços retesados e na parede os tracinhos por preencher: I D I O _ _ . Também imaginei que poderia ficar parecido com um espantalho.

Tiro na cabeça. Que dificuldade! Primeiro, onde arranjaria uma arma? E se eu errasse o tiro? Teria que dar um segundo. Teria coragem? Teria condições? Lembrei da recomendação de colocar o cano na boca e apontar para o alto. E se eu tremesse? A bala poderia não atingir o cérebro e de repente... sei lá. E se arranjasse uma espingarda? Como faria para puxar o gatilho? Com o dedão do pé? E como eu ficaria? Sem cabeça? Ou só com um buraco aberto no cocoruto? Também seria ridículo além do que daria o maior trabalho para limpar tudo. Daí já pulei também a hipótese de cortar os pulsos.

Uma superdosagem de algum remédio controlado me pareceu bem limpo. Tomaria, deitaria e pronto. Pareceria uma morte natural. Poderia escolher a roupa ideal, ficar deitadinho, pronto pra ser colocado no esquife. Mas meu conhecimento farmacêutico é péssimo. Vai que eu tomo um laxante e me dá vontade de correr para o banheiro. Ou me encontrariam de quatro com a cara na privada ou, pior ainda, sentado nela, com as partes de fora, ambiente incensado e aquela cara de quem morreu... isso mesmo. Não. Totalmente indigno.

Pular na frente de um caminhão ou de um trem envolveria outra pessoa. Pular de um prédio me pareceu uma boa metáfora do tipo “pular para a liberdade” ou “livre para voar”, mas o resultado também não seria uma coisa bonita de se ver.

Afogamento parecia uma boa solução. Mas eu sempre nadei muito bem e isto exigiria algo como um peso extra do qual eu não pudesse me livrar em um provável momento de arrependimento. Até aí tudo bem, mas também imaginei o corpo inchado, roxo... Pô, passei a vida toda tentando me manter magro para parecer um elefante púrpura depois de morto?

E o bilhete que eu iria deixar? Não estava brigado com o mundo, sem esperanças, traído ou abandonado por um grande amor, cheio de dívidas ou insatisfeito com minha sexualidade. Estava me matando por curiosidade. O que eu escreveria? “Fui ali ver como é. Se for como eu tô pensando, tento avisar”.

Dá muito trabalho se matar. E quando você não consegue? Vai ter que aturar que é tão burro e fracassado que nem se matar direito sabe. Aí tenta se matar de novo por não agüentar a gozação. E se não consegue outra vez aí é que o desespero é grande!

Resolvi ficar por aqui. Comecei a achar que o grande barato seria uma experiência de quase morte, dessas que a gente fica voando e vendo tudo que está acontecendo com o nosso corpo lá embaixo. Essa sim dá status. Depois você volta, se desapega do material, se diz mais espiritualizado. Quer desculpa melhor pra ficar na vadiagem? Você vira artista na boa e ninguém mais vai ficar te enchendo por isso. Vai sempre achar que o teu jeitão esquisito é alguma seqüela daquela experiência traumática. Só não vale forçar a barra. Tem que ser natural. Então resolvi deixar nas mãos do povo lá de cima. Se rolar, rolou. Se não, tudo bem. Vou ter mesmo que morrer um dia e, se tiver algo do outro lado, vou ficar sabendo. Se não tiver, terei aproveitado muito mais esta vidinha aqui na terra, cheia de pequenas certezas que conheço e adoro: mulher, música, cinema, livro e cerveja. Vou lá trocar essas coisas por uma curiosidade besta?


:: Dica de leitura - Quem apagou a luz?

Há quase dez anos, o cearense Ricardo Kelmer estreava como escritor com o livro Quem apagou a luz? - Certas coisas que você deve saber sobre a morte para não dar vexame do lado de lá. Um livro de estréia por uma editora pequena que chegou a quinta edição! E só não seguiu adiante porque o próprio autor ficou receoso de ser taxado como escritor de livro de auto-ajuda. Na minha opinião, um receio bobo. O livro é ótimo! Trata o tema de maneira leve e divertida, mas de forma extremamente didática. Está fora de catálogo. Procure em sebos. Vale a pena!



Escrito por Sandro Fortunato às 12h14
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