:: Especial Finados - Segundo dia
O que segue é um excerto de um longo texto escrito por mim em 2001. Nele, falo sobre minhas primeiras experiências a respeito da morte. Ao final da leitura, gostaria que você comentasse sobre as suas experiências.
Lembranças da morte
A primeira lembrança que tenho da morte está relacionada à minha avó Mafalda. Filha de italianos, baixinha e mandona, ela teve câncer no aparelho digestivo. Quando eu era ainda muito pequeno para lembrar, ela teve parte dos intestinos retirados e usava uma bolsa de colostomia que aparava o resultado de sua digestão. Lembro das trocas de saquinhos e de minha avó sempre rindo com seus incisivos superiores separados, uma de suas heranças para mim.
Segundo sempre ouvi contarem, após a cirurgia os médicos lhe deram cinco anos de vida. E foi justamente o que ela viveu. Eu não fazia a mínima idéia da gravidade de sua doença. Nem poderia, eu era uma criança com 5 ou 6 anos. Lembro que ela estava internada e todos assistiam à TV na sala, em casa. Fui “enfeitar” o quarto dela, esperando seu retorno breve. Devia ser uma época próxima a alguma Copa do Mundo. Eu tinha cornetas, bandeira do Brasil, bola,... Coloquei a bola no travesseiro, alguns panos e/ou almofadas pela cama (simulando um corpo) e cobri com um cobertor grosso. As cornetas e a bandeira ficaram na janela e sobre a penteadeira. Lá pelas tantas – todos na sala na frente da TV – escutamos um barulho no quarto. Depois de uma rápida olhada, percebemos que um santinho que estava na cabeceira havia caído e provocado o ruído. Voltamos para a sala e, minutos depois, o telefone tocava. Era do hospital. Minha avó havia morrido.
Os primeiros comentários foram de que a queda do santo havia sido um aviso. Minha avó era dessas católicas apegadas aos santos, pagadora de promessas. Lembro de várias idas a Porto das Caixas com este intuito. Ela até chegou a sair em uma pequena matéria no jornal O Dia. Segundo contaram, sua morte foi sem sofrimentos. Ela estava conversando, de repente respirou profundamente e morreu. Nunca procurei saber se esse relato chegara aos meus ouvidos apenas para criar em minha imaginação de criança uma imagem serena e menos traumatizante da morte.
Não quis ir ao enterro. Foi uma decisão minha. Não sei precisar se as dezenas de viagens que fiz ao cemitério do Caju em minha infância começaram antes ou depois da morte de minha avó. Sempre achava as visitas interessantes. O cemitério me fascinava. Os grandes mausoléus, estátuas de anjos, fotos, velas acesas, o caminho sempre silencioso daquela pequena cidade e ainda a emoção de, logo na entrada ou pelas ruas, avistar um velório ou a condução do caixão ao local de sepultamento. De qualquer forma, eu não quis ir. Alguma coisa dentro de mim dizia que minha avó não era mais aquela que eu veria dentro do caixão e, portanto, eu não precisava vê-la assim.
Agora lembro porque íamos ao cemitério antes de sua morte. As irmãs dela foram enterradas lá. Lembro que minha mãe contava como minha avó levava pastéis para o túmulo dela, já que ela sempre gostara desses salgados. Sempre achei aquilo um “exagero italiano”. Ficava imaginando minha avó, baixinha, gordinha – algo assim meio Fellini – aos prantos, anos depois da morte da irmã mais nova, conversando com ela e depositando os salgadinhos no túmulo. Hoje imagino que os coveiros e outras criaturas ainda menos agraciadas pela sorte, que deviam rondar os cemitérios em busca de presentes deixados aos que se foram, deviam fazer a festa nessas horas.
Algum tempo depois, assisti a um filme na Sessão da Tarde sobre uma família de trapezistas que tentava fazer um número arriscado. Na tentativa, alguns caíram. Pelo menos um ficou paraplégico e outro morreu. Foi a primeira vez que chorei assistindo a um filme. E talvez venha daí uma certa adoração por filmes que retratem fatos reais. Até hoje, quando aparece uma legenda do tipo “baseado em fatos reais” no início do filme, nem me interessa saber sobre o que seja, eu assisto.
Antes da morte de minha avó Mafalda, nosso cachorro Nique também já havia partido. Não lembro dele. Vejo-o gordo, inchado, em fotos nas quais apareço com menos de dois anos. Ele também teve um tumor na região abdominal e foi sacrificado. Meus pais fizeram o favor de repetir muitas vezes que “coitado, você dava tanto chute nele que ele só podia morrer mesmo”. Meus pais sempre foram assim, muito sensíveis e plenos de conhecimento sobre psicologia infantil. Mas nunca engoli essa história, muito menos hoje quando me vejo, nas fotos, tão pequeno ao lado daquele cachorro que poderia me esquartejar sem grandes esforços. O que sei é que Nique me protegia. A história mais contada era de que ele ficava na porta do quarto sempre que eu dormia. Não deixava qualquer pessoa entrar se não fosse da casa. Quando eu ainda era um bebê, uma prima de meu pai tentou me pegar na cama e ele avançou nela. Ele poderia ter sido mais incisivo – ou mais canino – e estendido o tratamento também ao povo de casa. Algo assim para compensar o que aconteceria no futuro. Sou grato ao Nique e talvez esse carinho que ele tinha por mim tenha se transformado em outra adoração minha. Adoro animais, principalmente cães.
Pois bem, depois da morte da minha avó e do meu choro com o filme da família trapezista, lembro de vários enterros de passarinhos - geralmente pardais - pela vizinhança. Na maioria das vezes eu conduzia as honras fúnebres: colocava em uma caixinha com flores, cavava o buraco na terra, fazia uma oração, pedia que Deus recebesse o bichinho, cobria com terra, fazia um círculo de pedras... Fiz muito isso.
A lembrança seguinte de uma morte humana é a de Margarete, uma ex-colega de colégio. Deve ter acontecido em 1984. Eu tinha 12 anos e fazia a oitava série. Não tenho certeza, mas pode ter acontecido no ano anterior. Margarete tinha 16 anos quando isso aconteceu. Eu era dois anos adiantado e ela tinha um certo atraso que não devia passar de dois anos. Lembro que logo pela manhã recebemos a notícia no colégio. Margarete já não estudava lá. Havíamos estudado juntos até a sexta série (talvez desde a terceira séria). As atividades escolares foram suspensas e a direção tratou de disponibilizar os ônibus do colégio para que fôssemos ao velório. Até hoje não lembro bem que lugar era aquele, mas parecia uma casa. Todos uniformizados, calados, dávamos a volta ao redor do caixão no cômodo apertado da casa. Paramos um instante frente ao caixão. Ali estava a pequena Margarete. Baixinha, com o corpo de mulher já formado e um cabelo abaixo da cintura, fruto de uma promessa que a mãe fizera quando ela era pequena, Margarete era o tipo de mignon que já chamava atenção desde muito cedo. A ironia de sua história é que a promessa feita pela mãe era de não cortar seus cabelos até os quinze anos e, logo depois disso, isto é, de desobrigar a filha a manter os longos e famosos cabelos quase sempre presos em uma trança-raiz, Margarete morria. E de uma forma estúpida. Estava na garupa de uma moto pilotada pelo irmão. Sem capacete, sofreu um acidente e atravessou o vidro de um carro. O irmão sobreviveu. Lembro que chorei muito e via alguns colegas chorarem. Uns porque viam um corpo pela primeira vez, outros porque lembravam da coleguinha. Eu chorava por não conseguir entender porquê ela havia morrido tão jovem. (...)
Escrito por Sandro Fortunato às 11h54
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:: Dicas de leitura – Leadbeater, Besant e Fortune
Três pequenos livros de três ocultistas. Para os que choram a morte de um ente querido, de C.W.Leadbeater, tem um título que pode soar um tanto religioso, mas não é bem assim. É um texto espiritualista, que fala do pós-morte em linguagem muito simples. Leadbeater era bispo da Igreja Católica Liberal, que é reencarnacionista como o Cristianismo em priscas eras. Morte... e depois? segue o mesmo caminho e foi escrito por sua colega de Sociedade Teosófica, Annie Besant. Através dos portais da morte é de uma das principais ocultistas do século XX, Dion Fortune. Qualquer livro seu é extremamente recomendável.
Escrito por Sandro Fortunato às 11h47
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:: Especial Finados - Primeiro dia
Como prometido, vou aproveitar o feriadão para, durante quatro dias, falar sobre a única certeza em nossas vidas. Serão apresentados textos, fotos e dicas de leitura que nos farão pensar sobre a morte. Não do jeito mais comum, cheios de medo e tabu. Vamos refletir sobre essa experiência que assistiremos algumas vezes durante a vida e pela qual passaremos também.
Neste sábado, apresento um texto meu escrito em abril de 1998, logo após a morte de Luís Eduardo Magalhães, filho de ACM. Perceba que, tirando as referências temporais, a discussão continua atual. É sobre a falta de sensibilidade da imprensa ao tratar da morte.
A morte é uma festa (ou Os urubus e a imprensa)
Já virou tradição. Quando o plantão da Globo entra no ar, todo mundo pára e espera a notícia que, quase invariavelmente, é alguma desgraça. Se não envolver morte, pensa-se até que não valeu o esforço de abrir o link. Mas se tiver, está iniciado um processo que aumenta na mesma proporção que os meios de comunicação imediatos - a televisão, o rádio e a internet - se tornam mais e mais populares.
Quando Getúlio morreu, em 1954, os ouvidos estavam colados nos rádios. Quando seu ex-ministro da Justiça, então presidente eleito, Tancredo Neves, morreu em 1985, iniciou-se a era dos funerais televisivos no país. A morte definitivamente deixou de ser um fenômeno local, que envolvia os parentes, amigos e vizinhos, e passou a ter uma horda teleguiada que acompanha todo o funeral.
A segunda grande oportunidade veio com Ayrton Senna, com um diferencial inesperado: a morte foi transmitida ao vivo. Maior espetáculo viria com a morte dos cinco jovens dos Mamonas Assassinas, há dois anos, com outro requinte visual: os pedaços espalhados pela Serra da Cantareira, se não pela televisão, mostrados em detalhes pela Internet.
Outros, de mortes anunciadas, tiveram suas prolongadas agonias devidamente exploradas pela mídia como Cazuza e Lauro Corona. Também tiveram seus momentos de “glória fúnebre”, Renato Russo, Chico Science e muitos outros. Ulisses Guimarães foi notícia, mas se recusou a comparecer ao show. Na falta de uma comoção nacional de maior porte, tivemos que nos contentar com uma importada. E assim Diana, que era princesa; teve seu último cortejo mais visto que Hirohito, que era imperador.
Tim Maia abriu a temporada 98. E em casos assim, nos quais os funerais não rendem tanto, há outras maneiras de exploração. E dá-lhe gravações de shows: das mais recentes àquelas do tempo em que ele podia pisar na Globo. E o mais incrível é que, pela audiência, se perdoa na morte o que o talento não conseguiu em vida.
Então chegamos a abril e, num intervalo de cinco dias, em mais um feriadão, o destino - ou seja lá o que for - resolve fazer um pacote: Nelson Gonçalves, Sérgio Motta e Luís Eduardo Magalhães. E você ainda leva Linda McCartney como brinde e com a possibilidade de uma eutanásia às escondidas.
Todas essas lembranças são necessárias para suscitar os sentimentos envolvidos na transmissão desses fatos. A mídia deixou de informar a morte para promover espetáculos fúnebres. Na última semana, Ratinho, que vinha batendo a Globo em horário nobre quase todos os dias há pelo menos dois meses, não conseguiu uma única vez repetir o feito. Suas aberrações, principal motivo de sua audiência, não conseguiu concorrer com o festival de velórios e sepultamentos. As anomalias se ajeitam e passam; a morte não.
É realmente preciso armar todo este circo ao redor de um corpo? Ninguém pára um único instante para pensar na dor dos mais próximos? Antônio Carlos Magalhães não só perdeu um filho “e um projeto de vida” como foi insistentemente repetido. Ele caiu de um pedestal que muitos poucos conseguem atingir. ACM é tido como o homem que manda no país, segundo alguns, mais do que o próprio presidente e, sem nenhum aviso, em questão de poucas horas, percebeu que todo o poder que tem nas mãos não serve para nada. Em geral, os filhos estão preparados para perder os pais, tendo como natural que "os mais velhos morrem antes", mas pai nenhum espera perder um filho. Agora imagine a dor de um pai, que se julga tão poderoso, não poder fazer absolutamente nada para impedir a morte do filho? E aí entramos nós, que fazemos a mídia, para explorar isso. A dor alheia vende. A morte mais ainda. É um excelente negócio.
Os Ratinhos, Márcias e Neys Gonçalves, tão criticados pelos jornalistas, não são páreo para os próprios quando estes entram em ação. Até porque, diferente dos apresentadores citados, jornalistas são preparados para fazer a coisa bem feita, para fazer uma coroa de flores cheirar como um ramalhete de rosas que acabaram de ser colhidas.
Esqueceu-se a ética, esqueceu-se o objetivo primeiro da profissão – que é informar –, esqueceu-se até mesmo a condição humana. Será que não dá para perguntar (a uma imaginária consciência, talvez): “se fosse meu filho dentro do caixão, eu faria o mesmo?” Pior do que ser parasita e sugar a ferida aberta dos outros é ser urubu, cair esfaimado sobre a carniça e nem se importar com a assistência ao redor.
Vamos parar um pouco e repensar se o caminho certo é mesmo esse.
Sandro Fortunato - 27 de abril de 1998
:: Dica de leitura - A morte é uma festa
Este livro deu título ao texto acima, escrito há mais 6 anos. A morte é uma festa - Ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX (Companhia das Letras, 1991), de autoria do historiador João José Reis, parte de um insólito fato ocorrido em Salvador (BA) em outubro de 1836: uma revolta de várias classes e raças, que destruiu um cemitério recém-construído, uma novidade para a época. José Reis fala então dos costumes relacionados à morte: as formas de bem morrer, os ritos fúnebres domésticos, os antigos cortejos, o lugar da sepultura e até sobre a morte como negócio.
Escrito por Sandro Fortunato às 12h26
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:: Enquanto isso, numa dimensão paralela

Imagine um personagem fictício – de filme, de novela, de quadrinhos – com o qual você se identifique. Imaginou? Então que tal adicioná-lo a sua lista de amigos no Orkut? Ele pode estar lá! E muitas vezes são bem mais acessíveis e sociáveis do que podemos pensar.
Veja, por exemplo, o caso da Loira do Banheiro. Quantas crianças já não fizeram suas necessidades nas calças com medo de ir ao banheiro e encontrá-la? Pois no Orkut, ela é amiguinha de todo mundo. Pelo menos se você não mexer com ela. Existem algumas Loiras no Orkut (ou você achava que era uma só para assustar os banheiros das escolas do país inteiro?!). Troquei e-mails com uma que está por lá há apenas três semanas e já tem mais de 100 amigos em sua lista. Detalhe: nunca pediu para ser adicionada. Todos pediram para adicioná-la.
A Loira do Banheiro chega ao requinte de exibir várias fotos em seu álbum. Cada uma com comentários mais engraçados que a outra. Ela também freqüenta as comunidades de dezenas de colégios e para posts do tipo “Tem alguém aqui da turma de 1979?” ela responde algo como “Acho que você não vai encontrar muita gente dessa turma. Eu os encontrei antes”. A Loira também acaba de criar a comunidade Estas garotas incompreendidas onde outras personagens famosas fazem parte, dentre elas, Regan MacNeil (a possuída do filme O Exorcista) e a Garota da Foto.
Sabe quem é a Garota da Foto? Lembra daquela imagem que, há alguns anos, circulava por e-mail e da qual diziam ser de uma garota que apareceu na foto de um corredor que deveria estar vazio? É uma das maiores lendas criadas pela Internet. (Desculpe-me, Garota, sei que você não gosta de ser chamada de lenda) A foto está lá na Comunidade Casos Sobrenaturais e causa polêmica desde sempre. Chegaram a tirá-la e colocar uma imagem do Penadinho, mas parte dos quase 4 mil associados ameaçou deixar a comunidade se a Garota não voltasse. Isso é que é popularidade!
Outro personagem dessa turma é Chucky, o brinquedo assassino. “Ele” tenta explicar o fascínio das pessoas pelos personagens da ficção: “A maioria adiciona mais pra aumentar a lista, pensam em ganhar `status´ tendo 300 amigos, acho isso besteira. Mas alguns gostam mesmo de zoar, xingar, poder deixar uma opinião. Por isso acho que preferem os violentos, pois eles já são politicamente incorretos, então as pessoas podem xingar, mexer, ofender que a gente vai achar normal e entrar no clima”. É verdade! Que outra oportunidade você teria de mandar o Chucky pro inferno? Ele está no Orkut há aproximadamente dois meses e já tem cerca de 500 amigos!
As mensagens e trocas de depoimentos também chamam atenção. “O (depoimento) que eu deixei pro Dr. Hannibal Lecter foi o que achei mais legal”, diz Chucky, “gostei de brincar com o fato dele comer pessoas. Os scraps e testimonials que eu acho mais legais são os que criam alguma situação, por exemplo `Oi Chucky lembra daquela vez que participamos de tal massacre?´ Curto ver a criatividade das pessoas”. A Loira do Banheiro passa pela mesma experiência: “Tem gente que diz que deixava de ir ao banheiro quando era criança mas que agora podemos ser amigas, tem gente que me convida para uma noitada, tem quem `lembre´ de quando nos encontramos... É uma diversão!”
Personagens de novela também são extremamente populares. Giovanni Improtta, o ex-bicheiro feito por José Wilker em Senhora do Destino, que o diga. Em um mês, conseguiu cerca de duzentos amigos sem qualquer esforço. “As pessoas adoram os depoimentos e scraps que deixo para outros personagens como Dani, a minha Ninfa-Bebê, e Maria do Carmo. Claro, devo lhe informar-lhe que meu jeito de falar e escrever é parte importante desse sucesso felomenal”, diz. Concordo em genro, número e degrau! O personagem tem pelo menos quatro comunidades de admiradores. Dentre elas a Giovanni Improtta é meu ídolo e Giovanni Improtta, o Felomenal.
Mas nem todos são tão sociáveis. Muitos não quiseram responder meus e-mails. Os que responderam, não se identificaram de jeito algum para não estragar a brincadeira. Todos falaram a mesma coisa: nem mesmo os próprios amigos (reais) sabem quem está por trás do personagem.
She-Ra, He-Man, o Amigo da Onça e outros personagens de desenho também estão por lá. Tem ainda o Cão Chupado Manga, Gina Palito (a loirinha da caixa de palitos, que tem duas identidades e quase 1.500 amigos!) e Aumenta Lista da Silva, uma criatura que se apresenta com um saco de papel na cabeça e só faz o que o próprio nome diz: aumenta a lista de amigos de qualquer pessoa.
A Internet sempre foi campo fértil para personalidades fictícias, mas o Orkut aumentou esse fascínio pelo fato de colocar o personagem como pessoa real: existe um perfil declarado, fotos, ele entra em comunidades, dá depoimentos, conversa, interage... como qualquer amigo seu. E quem não quer ter amigos assim?
Esquizofrenias à parte, é diversão certa. Você está no Orkut? Então descubra um pouco mais sobre essas figuras que o utilizam.
Escrito por Sandro Fortunato às 13h51
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:: Parece mas não é
Parece mas não é – I – The Doors

The Doors que se apresenta hoje em São Paulo (lotação esgotada) não é The Doors de verdade, claro. Os de agora são metade da banda original – o tecladista Ray Manzarek e o guitarrista Rob Krieger – mais Ian Asturby (The Cult) – que fez tudo para ficar parecido com Jim Morrison – e ainda Angelo Barbera no baixo (!!!!) e Ty Dennis (Firebug) na bateria, já que o único lúcido de toda essa história, o baterista John Densmore, não quis participar das apresentações de The Doors of the 21st Century. Para a apresentação no Rio, amanhã, ainda há ingressos.
Parece mas não é – II – Men at work
Quem vai fazer show aqui em Brasília (no dia 6 de novembro, sábado) e em mais outras 10 cidades brasileiras são os músicos Colin Hay e Greg Ham, da formação original da banda australiana Men at work, que durou cerca de 4 anos e teve hits, lembrados até hoje, já no disco de estréia, de 1981, como Who can it be now?, Down under e Down by the sea. Datas e locais de apresentação no site da turnê brasileira: www.menatwork.com.br
Parece mas não é MESMO – III – Herzog
Calma... estou segurando o riso... ontem, quinta, Clarice Herzog chegou à conclusão que as fotos publicadas no Correio Braziliense não são de seu marido. Você, que é uma pessoa bem informada e não deixa de passar um dia aqui no Leseira Geral, já sabia disso há muito tempo... antes mesmo de Cláudio Humberto dizer que aquele não era Vladimir Herzog. Ah, você não esteve aqui na semana passada? Então clica aqui.
Escrito por Sandro Fortunato às 00h17
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Anúncios de “acompanhantes” são todos iguais. A garota é sempre linda, com peitão, bundão, faz tudo até o final, revisa e amplia o Kama Sutra, “tudo sem decepções” em um programinha de uma hora ou por quanto você puder pagar enquanto o taxímetro estiver rodando.
Não é segredo que a profissão de jornalista é das mais prostituídas que existem. Num dia o cara está defendendo tal ponto de vista, no outro está no jornal adversário defendendo o contrário com a mesma veemência. A velha anedota do jornalista que ganhou o emprego representa bem isso. O dono do jornal passa uma pauta para ver se o candidato escreve bem. Antes de sair, este pergunta: “É para escrever contra ou a favor?” Pronto. Tá contratado.
Durante o tempo em que trabalhei no Senado, sempre me impressionei com a quantidade de belas garotas que desfilam por lá. Vivo dizendo que ali deve ter a maior concentração de mulher bonita e competente por metro quadrado do Brasil. Seja lá qual for a competência.
Diz aí: quantas garotas com 20 anos de idade, sem estudo e que ganhe 8 mil reais por mês você conhece? Hein? Quantas? Eu conheço pelo menos uma. Nas mesmas condições e com um salário mais modesto – 3 ou 4 mil –, conheço dúzias. Muitas nem aparecem no local de trabalho. Até porque não constam da folha de pagamento. E qualquer uma delas é como a Sheila do anúncio: lindíssima, irresistível, seios fantásticos, bumbum de ouro...
Mas eis que analisando os sites pessoais e blogs alheios percebo o mesmo dilema da pobre Sheila. Todo mundo é tão cheio de qualidade! Por exemplo: eu axo ki genti ki iskrevi acim em seus blogs é totalmente injustiçada. Onde estão os grandes editores ou os membros da Academia Brasileira de Letras que não percebem esses talentos que vejo aos montes na rede? Gente que revoluciona o idioma, que lexicaliza como quem respira, que atualiza o vernáculo diariamente... Gente cheia de qualidades.
Como diria meu velho amigo Nietzsche, em Aurora, sobre os vaidosos: Nós somos como vitrines em que sempre arrumamos, escondemos ou realçamos as supostas características que outros nos atribuem - a fim de enganar a nós mesmos. É ele também quem diz, em outras palavras, que a vaidade é um armazém cheio e em constante renovação. Acha-se tudo, desde que se tenha a moeda certa: a admiração.
E finalmente chegando ao meu umbigo, percebo-me tão perfeito que só posso perguntar: como alguém com tantas qualidades foi virar esse puto que escreve essas bobagens aqui todos os dias?!! César Maia, prepara a grana que estou enviando minhas medidas para a confecção do fardão!
Escrito por Sandro Fortunato às 12h26
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:: Da janela daqui de casa

Um pouquinho do eclipse da Lua nesta noite de quarta.
Escrito por Sandro Fortunato às 23h51
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:: DO BAÚ - Lula lá... do outro lado da rua
Mayra, do blog Milk Shake, levantou a bola e aqui estou eu cortando. Hoje é aniversário de Lula (dizem que não vai ter frango no jantar) e eu tiro do baú um texto escrito há exatos dois anos, quando ele foi eleito.
Lula lá... do outro lado da rua
Para mim, a partir de janeiro, Lula vai estar lá do outro lado da rua. Todo dia quando eu estiver chegando para trabalhar e der a volta na Praça dos Três Poderes, bem naquele lugar onde todos os veículos dão uma paradinha para retomar a Esplanada dos Ministérios, a poucos metros do Palácio do Planalto, vou olhar pra lá e lembrar que dá para acreditar que é possível mudar.
Quando eu entrar no Anexo 1 do Senado, vou lembrar que todo aquele sistema viciado pode, sim, um dia, chegar ao fim. Que os estabelecidos com seus egoístas e mesquinhos medos de mudança podem, um dia, dar lugar aos que hoje estão do lado de fora. E que, quando isso acontecer, estes não repetirão os mesmos erros.
Do meu esconderijo, no vigésimo primeiro andar (desculpe, Rita Lee), espio noite e dia, algumas vezes de camarote, os joguetes políticos que sempre sabemos onde vai dar. Mas começo a acreditar que as próximas rodadas possam ter finais menos previsíveis.
Não sou petista. Nem Lulista. É verdade, meu último voto foi para ele. Em 1990. Depois disso, nunca mais votei. Atravessei meus vinte anos convicto de que nenhuma forma de governo presta. Hay gobierno, soy contra.
Vi jovens amigos de esquerda se transformando em promessas de direita. Passaram da cerveja para o uísque. Ganharam alguns (muitos) quilos. Foram ficando mais relax em relação à situação. “Dá pra conviver”. Muitos deles jornalistas, foram saindo de suas vidas simples (se ninguém nunca reparou, praticamente não existem jornalistas nascidos em família rica; os que existem, quase sempre viram assessores de imprensa... da direita) e começaram a freqüentar as (quase nunca tão) altas rodas. Mas, sabe como é, para quem nunca teve grande coisa... camisa de marca, uísque doze anos e carro são grandes evoluções. Malucos virando burgueses. “Caboclos querendo ser ingleses”. Outsiders se estabelecendo. E com isso esquecendo suas convicções. É... todo homem tem seu preço.
O meu deve ser bem caro. Deve ser por isso que eu ainda sou o mesmo maluco, sonhador e imaturo dos tempos de corredores do setor V da Uferrenê do final dos anos 80. Lembram da minha voz? Continua a mesma, mas os meus cabelos... e a pança?! É... eu continuo bebendo cerveja! Mas, não obstante minha famosa antipatia, continuo sendo uma criatura sociável. Tanto mais quanto mais bebo, dirão as más línguas. Verdade é que nas conversas nos corredores do Senado, nas happy hours, nos bares (porque boteco em Brasília é tão raro quanto político confiável), nas festinhas nas casas (ora, casas!) nos Lagos, o que mais ouvi nos últimos meses, quando surgia o tema eleições, era a conveniência de deixar tudo como estava. Medo de mudança sem nem saber o porquê. A linha de raciosímio (que me perdoem nossos parentes mais peludos) era a seguinte: “se eu consegui o meu desse jeito, exploda-se o resto. Deixa como tá”. Vou poupá-los da reprodução dos absurdos que ouvi.
Lula mudou. Como todos nós mudamos. Alguns para melhor. Lulinha Paz e Amor, sim, senhor! Tô botando a maior fé no cara do outro lado da rua. Só senti um frio na barriga quando em uma matéria no Fantástico ele disse que gostava de música sertaneja “não só de raiz, mas também de...” Argh! Eu me recuso a repetir. Naquela hora me senti meio enganado. Ele não precisa fingir que gosta e se emociona com música erudita, mas tinha que gostar de breganejo?!! Pega leve, Lulinha!
Eu, que não transferi meu título, mais uma vez não votei em ninguém. E olha que dessa vez eu queria ter votado. Mas de alguma forma eu participei dessa mudança. Mostrei o que eu queria para o futuro de minhas filhas. E para todos os filhos deste país. Foi bom usar mais roupas vermelhas. Foi até engraçado, na segunda seguinte ao primeiro turno, fazer todo mundo do vigésimo primeiro andar do Senado passar a tarde escutando Os Meninos de São Caetano cantando Lula Lá. Imaginem o que não vou aprontar neste 28 de outubro... Foi interessante ver gente indignada me perguntando como eu poderia querer que um cara vindo do interior do Nordeste, sem nenhum estudo, que não sabe fazer um plural (particularmente, acho apenas que ele tem uma maneira singular de falar), com a língua presa, baixinho, gordo, que foi operário,... como eu poderia querer que um cara assim fosse presidente do Brasil? Ora, por que? Porque ele é a cara do Brasil. Porque dele eu posso acreditar que virão e, principalmente, posso COBRAR mudanças. Dos outros que não conhecem o Brasil, eu não poderia esperar nem cobrar nada. É muito claro: quem sempre garantiu seu caviar mantendo a fome no interior do Nordeste, a violência nas favelas do Rio, as estúpidas diferenças sociais e tudo aquilo que a gente vive querendo se livrar mas está sempre a um passo de, só pode querer manter isso. Para quem nasceu, cresceu, viveu e levou porrada a vida inteira do outro lado, deste é possível cobrar mudanças.
Mas bacana mesmo foi ter visto uma pessoa evoluir tanto, aprender tanto, perder tantas batalhas e ainda continuar acreditando em seus sonhos. E isso começou depois dos 30, quando a maioria está começando a se encostar. Emendando a letra do Roger: acho que agora a gente sabemos escolher presidente. Se o baixinho, gordinho, língua presa, sem estudos chegou ao Palácio do Planalto, o que nós, tão preparados e talentosos não poderemos fazer? Eu fico satisfeito em lutar por um mundo melhor para minhas filhas e, em um plano mais pessoal, um dia viver de direitos autorais.
Aproveitemos o momento para pensar na participação ativa que podemos ter para que o mundo em que vivemos possa realmente melhorar. Façamos de nossas vidas algo mais do que acordar, trabalhar, ganhar um troco, fazer um H com os mais chegados e alimentar nossos sonhos pequenos-burgueses. Aliás, tomara que não tenhamos que esperar 20 ou 30 anos para que um de nós pague uma garrafa de Romanée-Conti a outro. Espero que isso aconteça bem mais rápido e que o brinde seja merecido.
Como uma pessoa sempre preocupada em manter viva nossa memória, gostaria de receber uma manifestação sua sobre este importante momento que estamos vivendo. Comemore, baixe a lenha, exalte-se, desespere-se. Mas dê sua opinião. Vou guardá-la com todo carinho e lembrar sempre que você também é uma pessoa importante para o nosso futuro.
Oxalá, os próximos quatro anos sejam tão bons quanto vínhamos sonhando. Se não, a gente muda de novo. Sem medo de ser feliz.
De coração aberto,
Sandro Fortunato.: Brasília, 27 de outubro de 2002 – O dia no qual elegemos um ex-operário nosso presidente
Escrito por Sandro Fortunato às 14h47
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:: A história do Cecê
Respondo pelo Rio da minha infância, mas acredito que qualquer um com mais de 30, em qualquer lugar do Brasil, já ouviu algo do tipo “Huuum, que cheirinho de cecê!” ou “Vai tomar um banho para tirar esse cecê”.
Cresci sabendo que cecê era fedor no corpo. Mas de onde tiraram essa palavra? Um dia, em minhas pesquisas com a revista O Cruzeiro, encontro um anúncio do (para mim) lendário sabonete Lifebuoy – esse mesmo aqui ao lado – e lá estava: “Nada de C.C. comigo...” Abaixo da destacada sigla, seu significado: “Cheiro de Corpo”.
Ah, tá! Então era isso?! Mas cheiro de corpo pode ser bom. Por que não “F.C.”? Fedor de Corpo. Ou “F. H. C.”? Fedor Horrível de Corpo? Um certo sociólogo iria detestar isso... Deixa cecê mesmo, assim, como palavra e não mais uma sigla, porque o termo é dicionarizado.
Então era só olhar no dicionário? Mas eu sou muito burro mesmo! Não. Não sou. É que o meu Aurélio velho de guerra já tem uns 20 anos e o termo “cecê” – em vez de “c.c.” – “é fato gráfico recente”, segundo o Houaiss. Recente em termos etimológicos. Existe desde 1987. Então eu não sou burro, nem tenho dicionários tão antigos; sou é preguiçoso mesmo.
Ok, então o mistério foi desvendado. Foi mesmo a partir da campanha do sabonete Lifebuoy que apareceu a palavra cecê. Em minhas arqueológicas pesquisas em busca de revistas, anúncios e textos antigos, acabei descobrindo outras coisas. Um dia, deparei-me com um texto do incensado acadêmico João Ubaldo intitulado “Essas mulheres de hoje em dia” (outubro de 1999), no qual ele diz que “o Lifebuoy, que estigmatizava com a ameaça de CC ( iniciais de “cheiro de corpo”, para informação de vocês, jovens insensatos, que acham que a palavra “cecê” deve ter vindo do latim ou do inglês)...” Uepa! Alto lá, caro imortal! O sensato jovem aqui estava a 30 anos de nascer quando surgiu o cecê mas, garanto, a sigla é uma tradução do original em inglês: “B.O.”, mais conhecido como Body Odor.
É, essa campanha agressiva começou lá nos States com historietas que mostravam como uma garota bonitinha não era tirada para dançar numa festa ou como o “cavalheiro” achava melhor escutar em outra sala as músicas de uma garota ao piano. Tudo por causa do maldito “B.O.”, a popular, sovaqueira.
E já que estamos esbanjando cultura – inútil, que seja, mas ainda assim cultura –, se você encontrar por aí algum texto ou alguém dizendo que o termo surgiu na década de 50, diga à pessoa que ela está equivocada. Tio Aurélio e Tio Houaiss datam o aparecimento de cecê – a palavra, não o fato em si – da década de 40, no que estão certíssimos. A primeira propaganda que ilustra este texto é de uma O Cruzeiro de 1947.
“C.C” virou “cecê” pelo mesmo processo de lexicalização (agora você se arrepiou!) que fez “LP” (Long Play) virar Elepê.
Alto lá mais uma vez! Caso ouça alguém dizer que “cecê está com ce-cê” não se assuste. Segundo Tio Aurélio, “cecê” junto é variação de “você” e separado é o seu já conhecido “cheiro de corpo”.
Como, por hoje, já dei meu suor para escrever este texto, vou agora tomar um banho. Durante a esfregação (com Dove porque minha pele é muito sensível!) vou me perguntar se esta campanha atemorizante que prometia praticamente salvar as vidas das pessoas que usassem o sabonete teria sido bem sucedida na França. E um dia eu conto o episódio do coral francês que passou um final de semana na calorenta Natal sem que muitos de seus integrantes vissem outra água que não fosse a do mar... Haja Lifebuoy para dar conta daquele Odeur de Corp!
Escrito por Sandro Fortunato às 13h27
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:: A herança de Caim

O post Da violência do blog Pras cabeças foi o estímulo que estava faltando para eu escrever sobre o tema. Nele, Cláudio Costa começa dizendo que a violência é inerente ao ser humano e cita o exemplo de Caim e Abel.
Comentei que vale lembrar – ou mostrar, já que, talvez, a maioria não perceba isso – que o Gênesis aborda todos os problemas de relacionamento familiar. Já no capítulo 4, versículos 6-7, o livro nos dá a chave do que seria a maneira de domar nossas paixões e não deixar que nasça a violência: “6. E Javé disse a Caim: ‘Por que você está enfurecido e anda de cabeça baixa? 7. Se você agisse bem, andaria com a cabeça erguida; mas, se você não age bem, o pecado está junto à porta, como fera acuada, espreitando você. Por acaso, será que você pode dominá-la?’ ” Outro antigo texto que aborda o tema é o Bodhisattvacharyavatara, de Shantideva, que alerta logo no primeiro versículo: “Quaisquer que tenham sido as boas ações,/ (...)/ Tudo o que foi acumulado ao longo das eras, será destruído em um momento de raiva”.
Sexta passada, assisti ao filme Chamas da Vingança (está no post anterior, logo abaixo). Não faz meu gênero preferido, mas estava no shopping, queria ir ao cinema e tinha acabado de perder as sessões de outros filmes. Embarquei no Chamas.
Não vou dar detalhes para não estragar suas surpresas caso não tenha assistido. Mas em certo momento, Creasy, o personagem de Denzel Washington, entra no apartamento de um casal de idosos. O homem diz “a Igreja ensina a perdoar”. Creasy responde: “Isso de perdoar é entre eles (os caras que ele está caçando) e Deus. Eu só marco o encontro”. Algumas escolas chamariam o personagem de agente kármico. Ele não está agindo de forma correta, mas é o responsável pela reação a atos também errados provocados anteriormente. Então ele vai lá e paga sangue com muito sangue.
E isto é correto? Veja o filme e depois me diga se, no lugar dele, você faria ou não a mesma coisa.
No versículo 38 do Bodhisattvacharyavatara, Shantideva, diz:
Mesmo que eu não sinta compaixão por pessoas assim, Que através de concepções perturbadoras Empenham-se em tentar me matar e coisas assim, A última coisa a fazer é ter raiva delas.
Não sei se foi escolha minha ou se alguém me mandou para este planeta, só sei que ele é atrasado, estúpido, insensato e violento.
Segunda passada (dia 18) falei sobre o Profeta Gentileza. Foi uma maneira positiva de dizer “faça o amor, não faça a guerra”. Hoje, falo isso de uma forma diferente, oposta, tomando o um filme violento como exemplo.
Nunca concordei que um filme pudesse estimular a violência em alguém. De repente começo a achar que estava só parcialmente certo. Não estimula em pessoas mais ou menos equilibradas que, acredito, seja o meu caso. Mas um filme de amor não me incita (eu disse “incita”) a ser mais carinhoso? Este é um estímulo que ME atinge. Qual estímulo LHE atinge?
E SE atinge, acredite, é porque existe uma contrapartida dentro de você. Se você responde ao estímulo, seja qual for, é porque há uma correspondência, uma correlação. Então, o que existe dentro de você? Raiva? Ódio? Violência? E se existe, o que você prefere fazer: alimentá-los ou livrar-se deles e tornar-se uma pessoa melhor?
Se em você não há nada disso ou pelo menos não com força suficiente para reagir ao estímulo, então considere-se uma pessoa normal e assista ao que quiser, exercitando seu discernimento e sem permitir que o que vem de fora – e você não quer – faça parte de você.
Escrito por Sandro Fortunato às 08h03
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:: Tipo assim... rapidão... tipo CINEMA!

Minha mãe gosta de mulher
Tarde de sábado, Cine Academia, templo dos Só-quer-ser-intelectual de Brasília. Dez filmes à disposição e quatros pessoas tentando escolher. Por mim, louco por cinema, veria de novo os que já vi ou assistiria qualquer outro. Decidiram-se por Minha mãe gosta de mulher.
A situação: pessoa comprando o ingresso. A garota da bilheteria pergunta: Para qual filme? - Minha mãe... - ... gosta de mulher? – pergunta a garota.
Respostas que vieram à cabeça imediatamente: a) Não. Minha mãe e a Dona da História. b) Não. Minha mãe em 11 de setembro. c) Não. Minha mãe e a costureirinha chinesa. d) Não. A minha gosta de homem, por isso estou aqui.
O que importa é que o filme é ótimo! É uma produção de 2001, dessas que não vão para o circuitão. Acredito até que já seja possível encontrar em VHS ou DVD. Para relaxar e rir muito.
No way! Vida de imigrante é difícil.
Pra você ver como esse lance de imigração é um perigo... um cara que saiu do Ceará, tinha casa, comida e roupa lavada em São Paulo e que pegava o Rodrigo Santoro, inventa de ir para os Estados Unidos e acaba batendo no México, morando numa favela, virando seqüestrador e ainda levando tiro de um negão americano.
A verdade é que dá orgulho ver Gero Camilo (o Sem Chance de Carandiru) atuando com Denzel Washington em Chamas da vingança (Man on fire). Gero é um jovem (34 anos em dezembro) talentoso e com uma carreira brilhante. Nos últimos quatro anos, esteve em vários dos melhores filmes produzidos no Brasil: Carandiru, Narradores de Javé, Madame Satã, Cidade de Deus, Abril despedaçado, Bicho de sete cabeças e Cronicamente inviável.
Além de Gero, Chamas tem ainda a participação de Charles Paraventi (o professor Afrânio de Malhação), que é americano de nascença, mas brasileiro de coração. Mora aqui desde 1987.
Não sou muito chegado a esse gênero mas, confesso, gostei de Chamas da vingança. Se não gostar de tiros, veja por Dakota Fanning (a garotinha de Uma lição de amor) ou por Gero Camilo.
Escrito por Sandro Fortunato às 13h47
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:: O Padre Herzog e a esposa de Jesus

Eu estou me divertindo. E você? Na quarta, o Leseira Geral levantou a bola. Na quinta, Cláudio Humberto cortou e foi ponto. Hoje, o juiz apita o final do jogo e toda a imprensa invade a quadra!
O padre Leopoldo d’Astous, 72 anos, já falou à Folha que era ele mesmo pegando a freira Terezinha Sales, em Goiás, em 1973. O amor de Jesus não foi suficiente e a carne é fraca. Esposa de Jesus, sim, senhor; mas amante de padre, por que não? (a parte erótica é brincadeira minha!)
O Correio e a viúva insistem: padre nada, aquele é Herzog.
Hoje, eu não falo nada! Fiquem ligados e avisem aos amigos. Por esses dias, este simples blog vai mostrar o que é reviver um escândalo e exibir as provas. Depois vocês vão poder dizer que viram primeiro aqui.

Escrito por Sandro Fortunato às 11h52
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:: Do Baú - << O Lobo bom e o velho Chaco >>
A partir de hoje - e uma vez por semana - vou tirar do baú alguns artigos, crônicas e outros textos. Alguns publicados, outros inéditos. O de hoje foi escrito em outubro do ano passado por ocasião de uma festa comemorativa aos 13 anos (acho que) de encerramento do El Chaco, bar em Natal (RN), sobre o qual falei na semana passada.
O Lobo bom e o velho Chaco
“Lá vêm os junkies”. Esta era a frase que eu e meu amigo Marcelo Andrade, o Tchelo, ouvíamos sempre que entrávamos no El Chaco. Naquele tempo, nós bebíamos bastante. Eu bem mais que ele. Só cerveja. Nenhum dos dois fumava, cheirava, se injetava ou usava qualquer outra substância. Só mentíamos um pouco sobre isso. Mas ainda assim éramos os “junkies”, os viciados.
O ritual de entrada era sempre o mesmo. Eu pegava uma cerveja e sentava em um banco encostado naquela tábua estendida que chamávamos de balcão enquanto Marcelo ia até o famigerado “três em um”, tirava o disco que estivesse rodando e colocava Supercarioca, do Picassos Falsos: “O Supercarioca chegou / Com seus emblemas culturais / com samba, praia, bola e tantas coisas mais!” Até hoje desconfio que o Humberto Effe fez essa música só pra gente colocar quando entrasse no El Chaco.
O ritual de saída também era sempre o mesmo. Completamente embriagados. E repetíamos as mesmas frases: “Nunca mais eu bebo! Nunca mais eu venho aqui!” A promessa tinha prazo de validade certo. Durava até o dia seguinte. Éramos uma espécie de Alcoólicos Anônimos ao contrário: “só por hoje eu vou beber”. Como hoje é sempre hoje, bebíamos todos os dias.
Como rolavam histórias naquele buraco! E como pendurávamos contas. Uma vez, duros para variar, Baco resolveu se manifestar na genialidade artística de Clodoaldo Damasceno (hoje um publicitário de respeito). Ele apareceu com uma nota xerocada e pintada à mão. Era a maior da época. Trabalho de artista mesmo. Demos uma amassada nela e pronto: a obra perfeita. Pagamos os pregos, bebemos a noite toda e ainda saímos com troco.
E a saltenha? Quando batia a larica, era certeza mandar umas pra dentro, independente do que tivesse naquele recheio maluco. Da saltenha, lembro o nome porque comi muitas vezes. Mas não lembro de todas (as coisas) que comi nos tempos de El Chaco. Falando nisso, lembro de umas americanas belíssimas que passaram um ano em Natal e sempre estavam lá. Rodaram à paulista. Passaram o El Chaco inteiro na cara. Menos eu e o Marcelo. A gente batia com orgulho no peito e dizia de boca cheia: “Eu não comi”. Mas o El Chaco deixou frutos. Há uma geração chamada “filhos do El Chaco”. Conseqüências dos romances nascidos no bar. Aimée, minha primogênita que vai fazer 11 anos, é dessa leva.
E o último show? Lembram de quem foi? Modus Vivendi? General Junkie? Que nada... foi do LL Cover! Eu e Marcelo misturando Leandro e Leonardo com Guns’ n’ Roses (ele pensava que era o Slash e eu me achava uma versão morena do Axl). Distribuímos até fanzine com a “história da banda” produzido especialmente para a ocasião.
Hoje, Tchelo está fotografando em Portugal (pobres patrícios!). Eu estou em Brasília, aos 31 anos, com menos cabelo (por opção), mais tatuagens e um tesão ainda maior por cerveja. Trabalhei por dois anos no Senado (único lugar onde vi mais sacanagens do que no El Chaco!) e hoje passo mais tempo com a cara no computador do que nos bares da vida.
E eu não poderia terminar sem falar da mítica garçonete do El Chaco. Batatinha era uma duende fêmea boliviana, irmã de Adelaide, a anã paraguaia dos Inimigos do Rei. Tascava bitocas em homens e mulheres dos mais variados sexos, tinha aquele ar de quem sabia tudo que acontecia no único banheiro do bar e não economizava esporro nos frequentadores mais chatos. Ela andou sumida. Acho que um dia a vi em um ponto de ônibus com um bebê no colo. Disseram também que foi vista junto com o Pé Grande, no Himalaia, ou que estaria embrulhando presentes para um velho barbudo, na Lapônia. Muitos acham que ela era apenas um delírio etílico e nunca existiu. Batatinha existiu sim e deve estar por aí. Batatinha era uma criatura encantada. Reza a lenda que se você falar o nome de Batatinha três vezes, ela aparece. Ai, meu Deus, eu falei três vezes! Corre que lá vem ela...
Sandro Fortunato Lobão, carioca, jornalista, tem sérios problemas para sair da adolescência. Dizem que, esquecido atrás de um velho fogão do El Chaco, hoje com paradeiro incerto, existe um quadro com uma foto sua que está envelhecendo em seu lugar.
Escrito por Sandro Fortunato às 13h41
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:: Não precisa ser profeta...
Vou deixá-los mais um pouco com o caso das supostas fotos de Herzog no Correio Braziliense. Mais tarde o Leseira Geral volta com sua programação normal.
E não deixem de ler a nota, aqui reproduzida, da coluna de hoje, de Cláudio Humberto:
Fotos podem não ser de Vlado As três fotos divulgadas no jornal Correio Braziliense, de um homem nu com as mãos no rosto, podem não ser do jornalista Vladimir Herzog. Apesar do enfático reconhecimento feito pela viúva, Clarice, um oficial de alta patente, ligado à área de inteligência, garantiu à coluna que o homem das fotos seria um padre de esquerda flagrado na cama, por agentes do SNI, com uma freira, em Caldas Novas (GO), cinco anos depois do assassinato de Herzog.
Escrito por Sandro Fortunato às 10h05
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:: Aquele homem nas fotos é mesmo Vladimir Herzog?

Domingo passado, ao bater os olhos no Correio Braziliense e ver estampadas duas fotos de um senhor calvo sem roupas e a manchete “Exclusivo: Herzog, humilhação antes do assassinato”, tive o mesmo pensamento que qualquer outro jornalista com um mínimo de bom senso teria: “vai dar merda”.
Está dando. Não pelo desentendimento entre o atual governo e os militares. Não pela nota reacionária expedida pelo Exército dizendo que “as medidas tomadas pelas forças legais foram uma legítima resposta à violência dos que recusaram o diálogo”. Não pelo retratamento exigido pelo presidente. Não pela possível derrubada do Ministro da Defesa.
Está dando porque as fotos publicadas não representam um fato. A não ser o de que um homem calvo e nu foi fotografado.
Antes de vociferar qualquer coisa, leia o restante.
Já no domingo, não quis usar este espaço para comentar a respeito da publicação das fotos pelo Correio Braziliense. O blog pretende manter, na medida do possível, o alto astral e versar sobre temas mais amenos e ligados, sobretudo, à cultura artística, Filosofia, Internet e Jornalismo. E foi por este último ponto que me vejo obrigado a falar sobre o caso Herzog.
Aliás, sobre o caso das supostas fotos de Vladimir Herzog. Sim, repito, supostas fotos de Vladimir Herzog.
O Correio estampou uma manchete afirmando que aquele era Herzog. No texto, ainda na primeira página, diz que “teve acesso a três fotos de um homem, calvo, preso, deprimido e nu”. Isto sim é o que se vê. Isto sim é informação precisa e até dispensável para qualquer um que tenha suas funções visuais mais ou menos normais. Mas na frase seguinte vem a afirmação – “É ele mesmo” – pela boca de Clarice Herzog, viúva de Vladimir.
Quem irá contestar a palavra da mulher que viveu com ele? Quem teria tamanho atrevimento?
Resposta: qualquer pessoa de bom senso.
Ontem, terça, quando decidi abordar o caso, estava motivado a fazê-lo a partir da foto de Antônio Milena, estampada em vários jornais do país, que mostra dois jovens, em São Paulo, trocando o nome da Avenida Roberto Marinho para Vladimir Herzog. Mudei o foco e, pela manhã, encontro a Folha de São Paulo, bem mais lúcida – e escaldada – que o Correio Braziliense, apresentando o óbvio: “Amigos divergem sobre veracidade de fotos - Jornalistas que estiveram presos com Herzog no DOI-Codi, em São Paulo, questionam autenticidade de imagens”.
Pronto. Agora já não é só mais este doido falando sobre isso. É um dos mais respeitados jornais do país (nem por isso também infalível) apresentando testemunhos de quem conviveu com Herzog.
O primeiro depoimento é de Rodolfo Konder. "Tenho muitas dúvidas sobre a autenticidade dessas fotos. Se as fotos são dele, e acho que não são, não foram tiradas lá dentro", afirma. Konder, para quem não lembra ou não sabe, dentre muitas outras coisas foi presidente da Seção Brasileira da Anistia Internacional na década de 80. E completa: "não tiravam fotos de presos no DOI-Codi". Claro que não. O DOI-Codi era uma organização clandestina.
Anthony de Christo, outro jornalista que passou pelo DOI-Codi, diz que ninguém foi fotografado nu e que só eram fotografados para identificação. Diz ainda que não se recorda de ter visto no DOI-Codi o estrado de cama no qual o homem aparece sentado, na foto. "Não me lembro de nada parecido. Nem na sala de interrogatório nem na cela", diz.
Nessas horas, só se pode falar uma coisa: lembrem-se dos casos da Escola Base, do Bar Bodega, do calouro de Medicina e outros tantos julgamentos apressados feitos pela imprensa.
Se as fotos não forem de Herzog, teremos testemunhado uma das maiores barrigas(*) do nosso jornalismo nos últimos tempos. Vamos aguardar.
* Barriga é como costumamos chamar uma notícia posteriormente desmentida pelos fatos.
Escrito por Sandro Fortunato às 09h30
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:: Vinicius de Moraes - Quase passa batido...
... se não fosse Mayra, esta minha assessora! No ano passado, na comemoração dos 90 anos, "lembrei" até de fazer site para ele. É esse aí ao lado, no Memória Viva. Nele você encontra várias poesias, crônicas e músicas, além de 11 áudios com a voz do próprio Vinicius recitando alguns de seus mais conhecido poemas.
Aproveite e confira a entrevista que fiz com Carlos Alberto, dono da Toca do Vinicius (Ipanema, Rio). Um lugar pra lá de agradável.
Escrito por Sandro Fortunato às 18h02
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:: Revelações e Milk Shake
É tão raro blog com conteúdo próprio, não? Você só conhecia o Leseira Geral? Ah, também não é assim... Aliás, conteúdo próprio e que preste! Pois o RevelAÇÕES de Andreia Garcia, 28 anos, moradora de Cabo Frio (RJ) é um desses. Nem vou falar nada. Passe e confira. Dequinha é sem-vergonha no bom sentido. Outro que está nos meus “Favoritos” é o Milk Shake. Apesar de chocólatra assumido, todo dia tomo uma dose desse sabor Gelatina Diet. E gosto! Principalmente dos anúncios antigos que Mayra Cunha posta por lá. Pensei em abrir séria concorrência com minha coleção digitalizada by O Cruzeiro, A Careta, O Malho e lá vai traça. E os textos são deliciosos. Do sabor que você preferir.
Detalhe importante: ambos são atualizados praticamente todos os dias.
Escrito por Sandro Fortunato às 01h56
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:: Mais Gentileza
Ainda sob as bênçãos de Gentileza (na foto ao lado e em texto logo abaixo), recebo informações de que Clotilde Tavares, a Bruxa de Capim Macio que um dia escreveu em seu site ser este que vos bloga “um dos homens mais inteligentes do planeta” (ou ela estava embriagada ou não conheceu muitos homens), transformou o Profeta em uma espécie de homem do saco! E isso para assustar a então pequenina Ana Morena, sua filha. Diga se essa criatura não vai queimar no mármore dos infernos? Quanta maldade!
A história está no livro A agulha do desejo, uma coletânea de suas crônicas publicadas há sete anos no jornal Tribuna do Norte, em Natal (RN). O texto é de 2001, quando o Profeta Gentileza foi tema de samba-enredo da Grande Rio, no carnaval carioca. Depois de apresentar o personagem, Clotilde conta...
O Profeta Gentileza andou por aqui no início da década de 1980. Lembro bem de tê-lo visto "pregando" na Praça João Maria e de ter ficado impressionada pela sua figura teatral, muito alta e muito magra, de barba e cabelos longos e grisalhos, com uma bata branca que ia até os pés e o estandarte colorido, ornamentado com flores, cataventos de papel e dísticos, que portava com distinção e firmeza. O profeta, quando andou por aqui, morava ou se hospedava no bairro de Nova Descoberta e vez por outra o via descendo a Rua da Saudade, onde eu morava naquela época.
Um fato engraçado é que Ana Morena, minha filha mais nova, nessa época com uns 4 ou 5 anos de idade, estava sempre querendo fugir de casa para ir brincar na rua. Temerosa de que algo lhe acontecesse, tentei amedrontá-la: "Olhe que vem o Velho e lhe carrega, lhe bota dentro de um saco e leva para bem longe!" Incontinenti, ela respondeu: "Você mesmo disse que não existe nem Papão, nem Papa-Figo, nem Velho, que são coisas que os adultos inventam para assustar as crianças!" Fiquei assim meio sem saída, vendo confrontados meus modernos conceitos de "educação sem medo" com a necessidade de impor uns limites à minha atrevida pirralha.
Nesse dilema, olho para o alto da rua e quem vejo? O Profeta Gentileza, que descia a rua da Saudade em direção à Salgado Filho. "Olhe, lá vem vindo o Velho!", falei e apontei para ele, de estandarte e com o camisolão branco que o deixava ainda mais alto e magro. Quando Ana Morena viu aquela aparição disparou apavorada para dentro de casa e não saiu mais.
O belo e suave Profeta Gentileza, que nunca quis assustar ou fazer mal a ninguém, terminou, sem querer, encarnando o perigoso "Velho", personagem amedrontador que deve ter povoado os pesadelos da minha filhinha durante muito tempo.
Mas isso é apenas uma pequena e engraçada história. O que fica, para nós todos, como legado desta figura sem paralelo no dia-a-dia das nossas cruéis e violentas cidades é a mensagem "Gentileza gera Gentileza", herança amável e preciosa que precisa ser exercitada e multiplicada por todos nós.
Salve, Profeta Gentileza!
Para conhecer outras histórias do livro, veja como comprá-lo em www.clotildetavares.com.br
Escrito por Sandro Fortunato às 01h55
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:: O Paraizo de Jessuss do Profeta Gentileza
Por Gentileza, leia escutando a faixa 10 de Memórias, Crônicas e Declarações de Amor (aqui tem 30 segundos)
Vou me contradizer e dar um Ctrl+C/Ctrl V bonito. Com classe. No início dos anos 80, quando eu ia a alguma consulta pediátrica no bairro da Saúde, sempre ficava enjoado se fosse de ônibus. Quando era levado ao cemitério do Caju, no Dia de Finados, sempre era de carro e, sem enjoar, eu prestava mais atenção nas ruas, nas construções, no cais do porto. Não lembro exatamente a partir de quando comecei a ver uns escritos coloridos nos pilares do viaduto do Caju, no Rio. É de lá que vem meu Ctrl+C.
Nessa época, o Profeta Gentileza já era bastante conhecido. E não só no Rio de Janeiro. Quando José Datrino, dono de uma transportadora de cargas, largou a família e a empresa para pregar a gentileza, eu ainda estava longe de nascer. Na verdade, aqueles que viriam a ser meus pais ainda nem se conheciam. No dia 17 de dezembro de 1961, um incêndio no Gran-Circus Norte-Americano, em Niterói, matou quase quatrocentas pessoas e deixou mais de duzentas feridas. A maioria, crianças. Datrino colocou duas pipas de cem litros de vinho sobre um de seus caminhões e, em copos plásticos, distribuiu a bebida aos familiares das vítimas dizendo que “quem quiser tomar vinho não precisa pagar nada, é só pedir por gentileza, é só dizer agradecido". Foi sua maneira de consolar aquela multidão.
Deixou mulher e filhos. A empresa faliu. José Datrino passou a ser chamado José Agradecido e, depois, Profeta Gentileza. Nada de “por favor”, nem “obrigado”. Na nova ordem pregada, era “por gentileza” e “agradecido”. As palavras negadas, para ele, eram símbolos da escravidão imposta pelo “Capeta Capital”. Largou a busca por dinheiro e se entregou ao Amorrr. Assim com três “r”. Amor com Pai, Filho e Espírito Santo. Um “r” para cada um.
O incêndio do circo foi relacionado com o fim do mundo. “o mundo é redondo, e o circo é arredondado. Por esse motivo, então, o mundo foi acabado”. ''Eu pergunto a vocês: no mundo, meus filhos, quem é mais inteligente, o livro ou a sabedoria? Não é a sabedoria? Então, eu sou a sabedoria, nós somos a sabedoria de Deus”. E Gentileza andou pregando por todo o Brasil. Foi notícia até fora do país. Os filhos de Datrino entenderam a missão do pai que já não era.
“Se alguém perguntar quem é o Gentileza , vocês ensinam: é o nosso Pai, criador celestial. Por que que Deus é Gentileza? Porque é Beleza, Perfeição, Bomdade, Riqueza, Natureza, nosso Pai criador”.
E as palavras de Gentileza começaram a ser escritas nos pilares do viaduto. Anunciavam um novo mundo. Vieram o tempo, as pichações, a sujeira. “Apagaram tudo/ Pintaram tudo de cinza/ Só ficou no muro/ Tristeza e tinta fresca”. Até que recuperaram as 55 pregações.
Quem chega de ônibus à cidade, passa por ali. “Meus filhos, bem-vindos ao Rio. Por Gentileza, não usem problemas, não usem pobreza, usem Amorrr, Beleza, Perfeição, Bomdade e Riqueza. Vamos libertarrr a Natureza”. Palavra por palavra ligada por uma setinha. Setinha que é a pomba, símbolo do Espírito Santo.
Por Gentileza, entenda o idioma do Profeta. As regras aqui são novas para todos. Tudo escrito com Amorrr e Inspiração Divina. Amorrr, Beleza, Perfeição, Bomdade e Riqueza levados a todos os lugares durantes 35 dos seus 79 anos de existência.
Os ensinamentos de Gentileza continuam nos pilares do viaduto. Cercados por construções fantasmas, de um Rio que parece irrecuperável. Carros, ônibus e caminhões zunindo em três vias. Pichações de vândalos tentando respeitar a arte do Profeta. Frases de fanáticos querendo concorrer com as profecias. Dizendo que “só Jesus tira a cigana do corpo das pessoa”. Sic também. Sem estilo ou gentileza.
Passe com mais calma. Como eu fiz. Puxei a câmera sem medo. Todo mundo passando e olhando. Um gritou “cuidado!” de dentro do carro. Todos sempre apressados. Eu, calmo, registrando, aprendendo, agradecendo...
No dia-a-dia, com seu marido/sua esposa, com seus filhos, com os colegas de trabalho, com os estranhos na rua, com a pessoa ao volante no carro ao lado, lembre-se que Amorrr é palavra que liberta e que Gentileza gera Gentileza.
Escrito por Sandro Fortunato às 02h39
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Nos arquivos do primeiro mês:
:: É bom compartilhar experiências, não? :: Em certas coisas, eu me recuso a acreditar :: Nos tempos d`El Chaco :: Eu amo Paulo Coelho :: Eu não estou esperando um filho de Olga Benario Prestes! :: Crimes, jornalismo e História :: Vandalismo X Arte: Pichações e grafites em Brasília
E mais de 30 outros posts. Clique aqui e confira.
Escrito por Sandro Fortunato às 22h52
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