:: Uma ano de Leseira: Sempre algo a dizer

Um ano de Leseira. Mais de 100 textos e outros tantos posts “tipo rapidão”. Mais de mil comentários. Quase 14 mil visitas. Dois endereços. Alguns novos amigos. Uma experiência.

Desde 2002, eu registrava endereços em serviços de blogs. Nunca iniciei um. No dia 16 de setembro de 2004, nascia o Leseira Geral para que eu pudesse “exercitar meu lado Joselito”. Era para brincar. Para mim, Internet é trabalho. Passo mais tempo aqui do que no mundo real. Então o blog deveria ser um ponto de fuga, uma válvula de escape... Nada disso. Logo de cara, percebi que essa idéia seria a maior furada.

O Leseira se tornou um instrumento multifacetado. Serviu como oficina de texto, serviu para perceber e experimentar o blog como interveículo de comunicação, serviu para fazer novos amigos.

Pouco mais de um mês depois, eu iniciava um flog. Lá se vão quase um ano e mais de duzentas fotos. Comecei a perceber a diferença entre quem lê e quem vê. E o blogueiro começou a ser analisado pelo “teórico da Comunicação”. O escritor começou a ser analisado pelo editor.

Os leitores, sem saber, fizeram parte dessa experiência. Qual o tipo de texto que provoca mais comentários? Precisa haver identificação para o comentário surgir? Por que a cada 50 visitantes só um comenta? Por que comenta? Por que o voyeurismo supera a comunicação?

O Leseira não é diário de adolescente. “Leseira, só no nome”, já disse uma freqüentadora. Dificilmente alguém passa por aqui para dizer “gostei do seu blog, passa lá no meu”.

E essa experiência de um ano será transformada em livro. Não é a primeira vez que um blog vira livro. Mas esse será especial porque você estará nele. Os comentários acompanharão os textos, que serão posfaciados. Por que foram escritos? O que há por trás deles? O que parece não ter sido percebido neles?

E o Leseira Geral vai morrer? Não. Ele vai ficar aqui, on line, com a história desse ano. E eu vou deixar de blogar? Também não. Mas o tempo do Leseira Geral, como blog, terminou. A partir da próxima segunda, 19 de setembro, você passa a ler, diariamente, em meu site pessoal, um novo blog. Com o mesmo espírito com o qual você se acostumou, a partir de segunda você vai ver que tenho SEMPRE ALGO A DIZER.

O aniversário e a mudança acontecem em um momento de muitas novidades. E espero que você continue me acompanhando, me ensinando e me trazendo tudo aquilo que os amigos trazem para a vida de alguém.

Então está combinado: mudamos de bar mas continuamos brindando e conversando. Até segunda.



Escrito por Sandro Fortunato às 21h15
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:: O Latido lá no meu apê

Há quatro anos em Brasília, ainda não me sinto suficientemente à vontade para comentar os tipos da cidade. Da minha terra, o Rio, chamam minha atenção os loucos e os decadentes. De Natal, onde morei por 15 anos, os vagabundos e artistas de rua. Em Brasília... tem os paranóicos que conheci no Senado, mas ainda não é tempo de falar sobre eles. E tem aqueles que vieram atrás de uma vida melhor e fazem uma Brasília que não passa na telinha, aqueles que de toda plataforma (da rodoviária) não vêem a torre (de TV).

A figura da qual vou falar, nasceu e mora aqui, apesar de ter passado boa parte dos seus dezoito anos fora do Brasil. Não o conheci nas ruas. Conheci por aqui mesmo, na Internet. E provavelmente você também o conhece. Foi o único brasiliense que vi ser reconhecido na rua. Aliás, no elevador. “Você não é aquele cara do clip?” Ele mesmo, o Latido.

Luiz Gustavo ficou conhecido como o Latido do clip produzido pela VaiVc – uma turma de amigos do Guará, cidade satélite de Brasília –, que ridiculariza o por si só ridículo Latino.

Festa no apê, mais um dos hits pegajosos de Latino, ganhou clip pelas mãos da molecada do Guará. Luiz Gustavo estava em férias no Piauí, no verão passado, quando foi avisado que o vídeo começava a fazer sucesso na Internet. E põe sucesso nisso.

Ridicularizar o que já é ridículo é um passo para fazer uma piada dar certo. Latino e Severino Cavalcanti que o digam. O vídeo da VaiVc tem ainda a seu favor o fato de que não é uma paródia porque a versão gravada por Latino nunca teve clip. Originalíssimo, portanto. E o Latido encarnado por Luiz Gustavo é o que há! O tipo físico, o time certo para comédia (apesar de parecer um tanto tímido, ele é ainda mais engraçado pessoalmente) e uma desmedida cara-de-pau deram ao personagem seus momentos de glória na rede. Não há quem não queira imitar seu jeito de dançar. Nem Ruth Lemos e seu "sanduíche-íche-íche" fazem rir tanto.

Depois rolaram ainda o Latido Gay e vários outros vídeos da VaiVc com maior ou menor participação de Luiz Gustavo. Mas preste atenção nos de “menor participação”. É justamente quando ele aparece que você ri mais.

Luiz poderia ser só um adolescente desengonçado e engraçado, mas não. Ele é talentoso, tenho que admitir. E pela criação que teve ainda vai fazer muita graça, mas com os pés no chão. Pelos poucos minutos com Seu Jorge (o pai de Luiz, não o cantor), garanto que o menino deu sorte em ter nascido naquela família.

Então você já sabe: quando aquele moleque franzino aparecer, prepare-se porque o riso vem junto com ele. E Luiz, vê se não inventa de fazer algum concurso e virar burocrata. Vá ser gauche na vida e seja feliz!



Escrito por Sandro Fortunato às 19h47
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:: Não se fazem mais deusas

Há algum tempo, o Instituto Kinsey divulgou uma pesquisa informando que as mulheres de hoje fazem sexo, em média, duas vezes por semana enquanto as dos anos 1950 faziam o dobro disso. O trabalho, a TV e outros hábitos foram imputados como culpados pela diminuição do hábito. Eu tenho outra teoria.

O Instituto Fortunato diz que nos anos 1950 havia uma fábrica de deusas e que, naqueles idos, tanto homens quanto mulheres tinham muito mais motivos para se entregar aos prazeres carnais.

Desde que vi uma imagem de Marilyn Monroe em um vestido de estopa, fiquei me perguntando desde quando não se fabricam mais mulheres daquele tipo. Dia desses, uma chamada na primeira página de um jornal de Goiás sobre uma matéria que apontava as mulheres mais lindas do século XX fez com que eu tivesse ainda mais certeza sobre minhas teorias.

A matéria não fazia surpresa. Dos 21 nomes apontados, os onze primeiros eram de musas do cinema. Destes, cinco dos anos 1950. Resolvi fazer minha lista. Pensei que dez ou doze nomes seriam suficientes para mostrar que não se fazem mais mulheres como naqueles tempos. Comecei pelo início do século e quando fui chegando a meados dos anos 40 os exemplares já iam em quase dez. A lista acabou ficando em trinta nomes e enquanto escrevo ainda lembro de outros.

Minhas dúvidas são simples: quando e por que fecharam a fábrica de deusas?

Ninguém duvida que o padrão anoréxico dos dias atuais não passará à História. Até porque não haverá muito que lembrar. Mas não estou falando apenas de dotes físicos. Falo de glamour, de olhares sedutores, de fantasia, de uma linhagem da qual se perdeu a fórmula.

Até os anos 1960, a década seguinte talvez, ia-se ao cinema para sonhar. Era um ato sagrado. Hoje é algo banal. Pudera, não há mais deusas para se adorar.



Escrito por Sandro Fortunato às 04h16
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:: Sem sentido e sem noção

Fazer foi assim tu que cinema vai real gemer computa cai tudo novo de fui casou morreu... que foi? Não está entendendo? Nem você, nem 75% dos brasileiros que, teoricamente alfabetizados, tentem ler um texto que faça algum sentido.

A conclusão é do 5º INAF (Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional), divulgado na última quinta-feira, 8 de setembro, em referência ao Dia Internacional da Alfabetização.

Eu – faz tempo – sei que jamais vou ler tudo que gostaria. Mesmo que me dedicasse exclusivamente a isso, seria impossível. Sempre haverá algo a ser lido. Há muitos livros virgens em minhas estantes e meu consolo é que eles estão logo ali para quando, a qualquer momento, bater aquela vontade incontrolável de deflorá-los. É coisa de tarado, confesso.

Comecei a ler aos três anos de idade, continuei a fazê-lo nesses 30 seguintes e me considero um analfabeto. Acho uma piada quando preencho algum tipo de questionário em que é perguntado “quantos livros você lê por ano?” e a “melhor opção” é “5 ou mais”. A pergunta não seria “quantos livros você lê por mês?” Acho que o ideal seria um por dia. Espero chegar a isso quando não precisar mais trabalhar e meus filhos estiverem criados. E, tenho certeza, continuarei me achando um analfabeto.

Agora imagine quem não lê nada, quem não foi educado para isso. A falta de leitura é um problema educacional. Dentre os que lêem, há os que gostam mais, os que gostam menos, os compulsivos... Mas todos têm algo em comum: aprenderam a ler. Quando digo “aprenderam a ler”, não estou falando em juntar palavras, mas em ler e entender. Isso não tem nada a ver com capacidade intelectual. É mero exercício.

Nos anos 1970 e ainda no início dos 1980, nas aulas de Português, tínhamos algo chamado “Interpretação de texto”. E havia redação e ditado. Sempre.

Quando se aprende a ler (de verdade), aprende-se qualquer coisa. Quando não se aprende, não há título ou diploma que conceda conhecimento. Daí tantos mestres e doutores analfabetos.

A língua é mãe e lambe, lambilonga, lambilenta, e, quanto mais lambente, mais ativa. Morre-se só de olhar para ela, imagine então se. Visse e tocasse o acerbo fruto seu e c`um alto exórdio, de alta graça ornado, cantaria Drummond, Trevisan e Camões como se fosse essa Leseira de Sandro.

A rua pauta a tua paúra. O romano acata amores a damas amadas e roma ataca o namoro. Laço bacana para panaca boçal. Sem exercício, as frases ficam assim: indo e vindo sem ir a lugar algum. Nem dando o endereço certo ao amigo se chega onde: Zé de Lima, rua Laura mil e dez.

Ou pior. Cai fuma coisa cuíca doida nada fica volta rege sapato apito e devoto. Entendeu? Nem eu. Vou abrir um livro e ler um muito...



Escrito por Sandro Fortunato às 01h04
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:: Revistas e mais revistas

:: Preá e Verbo

Cumprindo fielmente meu papel de divulgador da cultura nordestina, mais uma vez anuncio que a Preá – desta vez a de número 12 – chegou a minhas mãos. A revista é feita em Natal, Rio Grande do Norte. Quem quiser baixar esta ou qualquer outra edição, em PDF, pode fazê-lo a partir do seguinte endereço: http://www.fja.rn.gov.br/pg_revistaprea.asp

A primeira edição da Verbo ainda está quentinha, mas a segunda já está sendo preparada. Revista de cultura e variedades editada em Cascavel, no Paraná, aborda temas variados como cinema, teatro, comunicação, educação e política. Além disso, tem a colaboração deste que vos bloga. Ainda não tem site, mas vocês podem tentar conseguir um exemplar pentelhando o povo do Departamento de Marketing da FAG, a patrocinadora, pelo e-mail marketing@fag.edu.br . Elogiem e metam a faca.

:: Set de setembro

Um resumão de todo aquele meu blá-blá-blá sobre o Festival Internacional de Cinema de Brasília que você leu – ou não! – aqui está na edição de setembro da revista Set. Tem ainda uma matéria sobre o lançamento – finalmente! – do DVD de Lavoura arcaica (meu mais amado filme brasileiro) e outra sobre Nicole Kidman na versão para cinema de A Feiticeira. Corra para a banca da esquina!

:: Nossas revistas de História

O pau entre a Biblioteca Nacional e a Editora Vera Cruz continua esquentando. Em julho, os leitores foram surpreendidos com a Revista de História e muitos acharam que a Nossa História havia mudado de nome, até que a edição desta também chegou às bancas. Longe dos problemas, quem se deu bem com isso foram os interessados em História, que agora têm duas ótimas revistas. Nas bancas, as edições de número 2 da Revista e a 23 da Nossa. Melhor que isso, só quando o Memória Viva se transformar em revista!



Escrito por Sandro Fortunato às 18h18
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:: Volta logo, Felicidade!

Katrina arrasou a melhor cidade de todos os Estados Unidos. Pelo menos a única que me interesso em conhecer.

Vejo a tristeza nos olhos dos negros na tevê e aquilo me deixa blue, a little boy blue.

Enquanto, em um ginásio, mães se desesperam e suas crianças nem entendem o que está acontecendo, os instintos mais baixos tomam conta de outras criaturas que saqueiam o que restou da cidade.

Ouço os bebês chorando, mas os vejo crescer. Eles irão aprender muito mais do que jamais vou conhecer. Eu vejo árvores verdes e rosas vermelhas também. Eu as vejo florescer, para mim, você e todos os meus irmãos negros. Eu vejo céus azuis e nuvens brancas. O dia, brilhante e abençoado, e a noite escura e sagrada. As cores do arco-íris, tão belas lá no céu, aparecendo depois de toda essa tristeza.

Que as bênçãos de Satchmo recaiam sobre seu berço e transformem novamente a triste cidade em um mundo maravilhoso, em uma New New Orleans.



Escrito por Sandro Fortunato às 02h16
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:: Santa Inocência, Batman!

Já fui ladrão, maconheiro, cocainômano, viciado em heroína, traficante, homossexual, bissexual, evangélico e mais um monte de coisas que não lembro ou mesmo não sei.

Toda essa adjetivação foi dada por meus mais fiéis e ferrenhos admiradores. Eles também acumulam a função de meus marqueteiros. Conseguem me divulgar como ninguém. Um marketing indesejável, seja dito, ainda mais para quem não comunga do “falem mal, mas falem de mim”, o que é o meu caso.

Digo que isso é feito por admiradores porque não acredito que alguém se dê ao trabalho de ficar falando e inventando histórias sobre outrem de que não goste.

Em minha adolescência, imprudente como todos nesse período, quando alguém me imputava um atributo irreal, me esforçava em fazer a pessoa acreditar naquilo que dizia. Pensava que assim ela se manteria afastada do que eu realmente era. Não estava errado, mas desconhecia as conseqüências disso. Como se diz por aí, “as pessoas só querem um pé” e se você dá corda, pode ter certeza, elas engolem.

Nunca me preocupei em desmentir qualquer coisa. A não ser que uma pessoa que eu goste esteja acreditando em alguma informação falsa. Isso sim me incomoda profundamente.

Se algo que dizem é mentira, quem está dizendo que tente provar que não é. Se é verdade, eu não vou esconder e nem mentir a respeito. Mentir dá um trabalho danado. O próprio Lula andou dizendo que “a desgraça de quem conta uma mentira é que passa a vida inteira inventando outras mentiras para justificar a primeira”. Não sei se ele sabe que está citando Jonathan Swift, só sei que está falando uma grande verdade.

Outra declaração notável foi a de que o ministro Palocci demonstrou “a segurança de uma pessoa inocente”. Independente de sua aplicabilidade no caso, a sentença é verdadeira. Só um inocente fala com segurança. O mentiroso inventa, se contradiz, gagueja, comete atos falhos.

A atual onda de denuncismo que vivemos me fez pensar nas vezes em que fui vidraça. Procurei entre aqueles que jogaram pedras alguém que fosse digno de confiança, que fosse imaculado, que fosse santo. A frase oportuna do deputado federal João Hermann (PDT-SP) desqualificando o depoimento de Buratti, que tentou incriminar Palocci reflete bem minhas conclusões: “Depois do Roberto Jefferson, do doleiro Toninho da Barcelona e do Buratti, a próxima pessoa a ser consultada será o Fernandinho Beira-Mar”. Isso me lembra uma cena de uma comédia em que há uma paródia da passagem bíblica da mulher adúltera. Jesus diz: “Aquele que dentre vós está sem pecado, atire a primeira pedra”. Nisso uma pedra atinge a cabeça da mulher. Jesus olha espantando para as pessoas e diz: “A Senhora não vale, Mãe!

Eu não achei uma Maria, Santa, dentre aqueles que me jogaram pedras.

Contando e analisando as pedras aos meus pés, percebi que só mesmo sendo muito inocente – aqui no sentido de não ter segundas intenções – para entrar em certas barcas furadas. A maldade humana já é suficientemente grande. Não preciso alimentar maledicências e afiar línguas maldosas. Vou ficando cada vez mais quieto, mais tempo dentro da caverna e assistindo ao grotesco desfile dos homens e suas convicções. Estas, inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras.



Escrito por Sandro Fortunato às 02h39
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:: Quatro anos em Brasília

 

Numa noite fria de sexta-feira, há quatro anos, eu chegava à Brasília. Vinha para ficar, afinal trazia algumas roupas e, pagando mais de dez quilos de excesso de bagagem, o computador. Eu moro onde ele mora. Tinha dinheiro para pouco mais de um mês e nenhuma perspectiva de emprego. Achava que se tivesse mais tempo – leia-se “mais dinheiro”- passaria alguns meses em férias, conhecendo a cidade, aproximando-me das coisas de que gostava.

Na terça seguinte, enquanto participava de um encontro da Macromedia, recebi um telefonema. Havia uma vaga terceirizada para contratação imediata na Secretaria de Comunicação Social do Senado Federal. Não era grande coisa, mas era um emprego. Na quarta, já estava no vigésimo andar do Anexo I, a torre que se vê ao lado da cúpula do Senado (a menor, que fica emborcada).

Nos quase dois anos que passei lá, juntei muitas histórias. Algumas merecem ser esquecidas, mas até dessas tirei lições. Aliás, as maiores.

Depois de mais de um ano no Senado, já um andar acima, na Subsecretaria de Projetos Especiais, eu costumava usar um camisa do Arquivo X, comprada aqui mesmo em Brasília alguns anos antes, e dizia que ela ajudava a manter minha sanidade. Toda preta, tinha escrito nas costas o lema do seriado: The truth is out there (A verdade está lá fora). Isso me fazia lembrar que aquilo ali era um outro mundo, pequeno e com valores invertidos, no qual eu não acreditava.

Naquela época, encontrei Sérgio de Moraes, um amigo de Bragança Paulista. Sempre o achei muito equilibrado, dedicado à família, bom profissional, alguém que “está no caminho”. Sérgio me perguntou se eu estava trabalhando em algum jornal ou revista. Respondi que não, que estava cansado de redações e queria me manter afastado daquele tipo de ambiente. Quando disse onde estava trabalhando, ele retrucou: “Quando você pensava que não existia nada pior que uma redação, vem a vida e mostra que pode existir algo bem pior”. Ri da tirada, mas ainda não sabia o quanto era verdadeira.

Em 2003, fui finalista do prêmio iBest pela primeira vez. Fui a São Paulo participar da cerimônia de premiação e, na volta, “consegui ficar doente” durante a pouco mais de uma hora de duração do vôo. Cheguei à Brasília com febre alta, calafrios, dor em todo corpo. Jurava ter pegado aquela famosa gripe asiática durante a visita à exposição dos Guerreiros da China. Só poderia ser isso.

Passei quatro dias de cama. Não comia, não tomava banho, dormia quase o tempo todo. Comecei a melhorar quando percebi que não queria mais voltar a trabalhar no Senado. Aquilo não tinha nada a ver comigo. As pesquisas sobre cultura brasileira e o reconhecimento que o site Memória Viva começava a ter, isso sim, tinha tudo a ver comigo. Em poucos dias, começava em outro emprego e deixava o Senado.

Lá se vão quatro anos de Brasília, três finais do iBest, o “amor encontrado na rua” e um terceiro filho, o único homem,  que agora fica me secretariando em meu novo escritório – um carro parado em algum estacionamento da UnB –, enquanto esperamos a mamãe voltar da aula. Você tem idéia do que seja tentar escrever em um notebook, sentado no banco de trás de um carro, enquanto um bebê bochechudo e lindo de três meses fica exigindo sua atenção? E a vontade de morder aquelas bochechas? E de apertar aquelas pernas?

Quatro anos e a profecia que eu havia feito em minha primeira passagem por Brasília, em 1990, vem se cumprindo. Disse naquele tempo: “Eu poderia morar aqui por uns seis anos”.  Daqui a mais dois anos, mamãe acaba seu curso e nós – Pietro e eu – mudamos de escritório. Então chegará a hora de levantar acampamento. Para onde? Quando souber, eu conto.



Escrito por Sandro Fortunato às 01h51
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:: Carai, véi!

Já posso me considerar um poliglota. Nada de palavras perdidas, frases de efeito ou Curso de Idiomas Globo. Estou falando de conhecer profundamente outro idioma, sua gramática, seus mistérios. E isso tendo estudado em uma instituição reconhecidamente competente e com um histórico exemplar no meio acadêmico.

O curso – intensivo, confesso – se deu durante a manhã de segunda-feira passada na Universidade de Brasília. De início, tudo soou estranho ao meu ouvido, mas logo fui me acostumando. Todos os alunos da UnB que me auxiliaram no aprendizado desse novo idioma são profundos conhecedores, verdadeiros mestres, doutores filólogos em Caraiveiês.

O primeiro contato com o idioma pode causar alguma estranheza. Mas isso se deve unicamente à ignorância que se tem em relação ao maravilhoso mundo do Caraiveiês. Eu só escutava “Carai, véi! Carai, véi! Carai, véi! Carai, véi!”. Parecia tudo igual, que aqueles adolescentes só sabiam falar isso. Pobre néscio. Meia hora depois de “Carai, véi! Carai, véi! Carai, véi!” no pé da orelha, comecei a perceber a sutileza do vernáculo, abri as portas da percepção e fez-se luz em minha estupidez.

Perceba a beleza do Caraiveiês castiço utilizado pelos jovens acadêmicos. Delicie-se com o seguinte diálogo:

- Carai, véi!
- Carai, véi! Carai!!
- Caraaaaaai, véi! Carai!
- Não! Carai, véi! Véi?! Carai!!!
- Caraaaaaaai, caraaaaaaaai, véi! Carai!
- Carai, véi! Carai, véi!

Apreciou? Conseguiu captar a sutileza da pronúncia? Aí reside o grande segredo do Caraiveiês! A chave para o conhecimento dessa ferramenta indispensável no mundo moderno. Inglês é o carai, véi! Francês? Carai, véi! Espanhol? Véi, carai!

O Caraiveiês tem apenas três vocábulos: “carai”, “véi” e “não”. Este último é igualzinho ao nosso advérbio de negação em Português, mas tem sentido contrário. Em Caraveiês, “não” é uma forma de afirmar com veemência alguma coisa e, ao mesmo tempo, é o superlativo da expressão “carai, véi”. A propósito, temos que tomar cuidado com os falsos cognatos entre Caraiveiês e Português. Muita gente ao escutar, por exemplo, uma expressão como “carai, véi” ou “caraaaaai, véi” pode querer traduzi-la por “caralho velho”. Ledo engano. “Caralho velho” é problema geriátrico e Caraiveiês é língua viva, viril e vibrante.

Fico imaginando onde irá parar nosso pobre Português diante da força de tão moderno idioma. Perguntei a uns dos poliglotas da UnB e ele foi enfático: “Carai, véi!” Indaguei a outro e, percebendo em mim um neófito nessa arte, respondeu nos dois idiomas: “Carai, véi! Sei não.” Eu também não sei.



Escrito por Sandro Fortunato às 11h23
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:: Vô Moacyr - 85 anos

Meu avô sempre teve cara de avô. Se você tem ou teve um, vai entender o que quero dizer. Convivi com ele, na mesma casa, até quase completar 14 anos de idade.

Filho de uma portuguesa com um brasileiro, Seu Moacyr Ignácio Alves casou com uma filha de italianos e sabiamente resolveu ficar quieto diante da brabeza daquela mulher de menos de metro e meio. Só lá para meados da década de 1970, quando um câncer a consumia, ele se aventurou no mundo. Em um mundo de faz-de-conta. Foi ator de fotonovelas, fez comerciais, telenovelas, séries cômicas, filmes... Quase tudo com aquela discrição que só alguém de um elenco de apoio sabe ter. Naquela época, eram mais conhecidos como figurantes.

Meu avô era uma espécie de Bozó. Não era feio, nem bobo, mas trabalhava na Globo. Passei toda a infância, parte da adolescência, já em Natal, e da vida adulta escutando minha mãe gritar: “Seu Moacyr tá passando!” Todo mundo corria para frente da TV e quase nunca o via. Já tinha passado. “Olha lá! De novo!” E lá ia o vovô como garçom no Zorra Total ou de padre, levando uma garrafada na cabeça, no Linha Direta. Uma graça!

Em um filme dos Trapalhões chegou a falar! Nem lembro o quê! A emoção foi tanta que não consegui registrar. Vez por outra passa na Sessão da tarde. Ou em algum outro papel nas novelas do Vale a pena ver de novo.

Seu Moacyr faz 85 anos hoje. Fui seu primeiro neto e lhe dei três bisnetos que ele ainda não conhece. Vô Moacyr nunca saiu do Rio de Janeiro. E, espero que isso mude, finalmente, ainda este mês. Ele vai para Natal e conhecerá os bisnetos.

Hoje, ao telefone, falando sobre a mudança, ele me perguntou: “Sabe há quanto tempo eu moro aqui?”. E eu: “Claro! São 85 anos de Rio de Janeiro. Agora está na hora de mudar e passar os próximos 85 em um lugar mais calmo como Natal”. Perguntou onde eu estava e como tinha lembrado do dia de hoje. Eu nunca esqueci. Posso esquecer o aniversário de qualquer pessoa, menos o dele.

Daqui a 15 anos, quero estar falando de seu centenário e fazendo uma foto com seus bisnetos e trinetos. Parabéns, Vô Moacyr! Se eu tiver herdado esses genes bons de longevidade e saúde, prometo fazê-los valer a pena!



Escrito por Sandro Fortunato às 01h58
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